As individualidades fazem a diferença


Pedro Correia,
A lesão de Nuno Mendes aos 55′ no Portugal-Espanha

 

Futebol é desporto de equipa, sim. Mas nele as individualidades fazem a diferença. Daí tanto se falar nas chamadas estrelas dos estádios – aqueles que atraem multidões aos espectáculos e à mercadoria que gira em torno deles.

Nem têm de marcar qualquer golo – podem estar lá até para impedi-los. Foi o caso de uma das atracções deste Campeonato do Mundo: o guarda-redes Vozinha, que se comportou, logo no confronto com Espanha, como um gigante na baliza nesta sua estreia absoluta na alta-roda da modalidade.

Aos 40 anos, idade em que a maior parte dos futebolistas já pendurou as chuteiras, Josimar José Évora Dias – seu nome no registo civil – deu uma lição de profissionalismo e talento entre os postes.

Sem ele, a modesta selecção caboverdiana não teria chegado aos oitavos-de-final da prova. Caiu de pé, impondo um prolongamento à Argentina, actual campeã do mundo.

 

Senti algo semelhante ao ver o Bélgica-Espanha, na sexta-feira. O desafio estava empatado desde a primeira parte quando o veterano guardião belga (e do Real Madrid), Thibaut Courtois, se viu forçado a abandonar o campo por lesão. Saiu em lágrimas aos 70′, consciente de que perdia uma oportunidade irrepetível de inscrever o seu nome em letras de ouro na história do futebol a nível de selecções.

Parecia adivinhar: o seu jovem substituto, Lemmens, deixou escapar a bola com uma defesa incompleta, proporcionando a Merino, aos 88′, o golo do triunfo espanhol.

Ninguém duvida: a saída de Courtois fez a diferença. Para pior, infelizmente para os belgas.

 

Como fez, no nosso caso, a lesão de Nuno Mendes – também contra os espanhóis. Melhor jogador em campo no embate ibérico, faz hoje oito dias, o lateral esquedo português neutralizou o seu oponente directo, Lamine Yamal, dominando aquela ala tanto no plano defensivo como ofensivo, como se comprovou no seu fortíssimo remate aos 40′ que embateu com estrondo na trave.

Houve dois jogos neste jogo. Equilibrado, com oportunidades repartidas, enquanto Nuno – antigo campeão nacional pelo Sporting e actual bicampeão europeu pelo PSG – esteve em campo. E outro, muito diferente, depois de ele sair coxeando, aos 55′, após mais um confronto com Lamine. A selecção portuguesa ficou irreconhecível a partir daí. Até o fatal Merino ditar o resultado marcando o golo solitário dos espanhóis mesmo ao cair do pano (90’+1).

Sim, as individualidades fazem a diferença nos chamados “desportos colectivos”. Sem elas, o futebol não teria – nem de longe – este sortilégio que faz apaixonar o mundo.

Arte sobre a relva


Paulo Sousa,

Já lá vão uns largos anos. Um professor de filosofia, que julgo não ter estado muito tempo na Escola Secundária de Porto de Mós, um dia revelou à minha turma que quando via futebol na televisão tirava-lhe o som e punha a tocar um disco de música clássica. Avisou logo que, até se experimentar, poderia parecer uma coisa estapafúrdia. O primeiro encanto residia em deixar de ouvir as idiotices dos comentadores. Os relatadores da rádio eram coisa diferente. Recorrendo apenas a palavras, desenhavam os movimentos dos jogadores na imaginação de quem os escutava e com metáforas e mudanças na intensidade da voz, coloriam o éter da rádio. Essa era uma arte maior. Agora, ter de ouvir comentadores a explicar-nos as imagens televisivas que estamos a ver, podia aproximar-se perigosamente de uma forma de tortura. Com música clássica de fundo, e mesmo sem que os jogadores tenham consciência disso, o futebol, o jogo do pontapé na bola, podia transformar-se num bailado.

No passado Sábado, enquanto assistia ao jogo Noruega-Inglaterra, depois de me arrepiar ao ouvir uma qualquer inanidade emitida pelos comentadores, lembrei-me do meu professor de filosofia do décimo ano. Baixei o volume da TV até ao zero e procurei uma lista de temas para violoncelo no Spotify.

O que se seguiu, fez-me escrever este postal. Sem entender como é que os movimentos de um arco sobre as cordas de um violoncelo podiam coincidir com os arranques, as simulações, as fintas e as fitas, as quedas, os remates e as defesas dos jogadores, o que é certo é que comecei a chamar quem estava comigo em casa para confirmar se viam o mesmo que eu estava a ver, e a ouvir. O Bellingham empatou ao som da Méditation de Thaïs, de Massenet e, já no prolongamento, confirmou a reviravolta durante a Sicilienne, de Fauré. Estávamos a torcer pela Noruega, o underdog merece sempre uma simpatia especial, mas mesmo quando o árbitro meteu o bedelho no resultado, coisa que não tem faltado neste Mundial, entreolhávamo-nos sorrindo pelo acerto dos artistas. Uns à frente da partitura e os outros de chuteiras a transpirar sobre a relva.

Leitura de RSS com Newsify


João Sousa,

Quando o Delito de Opinião mudou de instalações, a leitora AL queixou-se de o seu programa de RSS (Newsify) não conseguir ver o feed do blogue. Apraz-me anunciar que o autor da aplicação já corrigiu a falha. Os utilizadores do Newsify podem, a partir de agora, dar-lhe o endereço do blogue (delitodeopiniao.pt) e escolher depois a opção Custom URL:

Leituras


Pedro Correia,

 

«Ter-se-iam indignado se ele quisesse subir mais, por pouco que fosse. Então, para quê proibi-lo de descer, se não se sentia confortável onde o tinham posto?»

Georges Simenon, O Círculo dos Mahé (1946), p. 136

Cavalo de Ferro, 2026. Tradução de Inês Dias

Estereótipos, perfis e enganos


Joana Nave,

A experiência ensina-nos a antecipar estereótipos, perfis e enganos, mas será mesmo assim? O que é afinal um estereótipo, de que forma o mesmo pode formar um perfil e quanto vezes não estamos a cair no mesmo engano?

A experiência pode ajudar-nos a atribuir determinadas características a um estereótipo, mas este não passa de um conceito que nós próprios criámos por força das circunstâncias, dos grupos de influência em que estamos inseridos, das nossas crenças e do que consumimos através dos meios de comunicação que usamos. É comum que esses estereótipos nos levem a definir perfis. Ao conhecermos uma nova pessoa vamos tentar encaixá-la nesses estereótipos e dizer que é um perfil que conhecemos. Contudo, não estaremos a cair sucessivas vezes no mesmo engano?

As pessoas e as circunstâncias que as moldam são únicas. Não somos sempre a mesma coisa, principalmente quando mudamos o contexto em que estamos inseridos. Se num determinado ambiente nos sentimos inseguros, a insegurança vai nortear os nossos sentimentos e as nossas ações. É normal sentirmos desconfiança, fragilidade e muita ansiedade. Se por outro lado, estivermos num ambiente sereno, propício a desenvolvermos outro tipo de competências e atitudes, então seremos uma pessoa completamente diferente, mais extrovertida, mais verdadeira e até mais ponderada, porque são estes ambientes que nos levam a revelar o melhor de nós.

Penso muitas vezes na forma como o mundo nos transforma, através das pessoas com quem nos cruzamos, que nos dizem que algo não está bem connosco e que nos levam a querer ser diferentes daquilo que somos. Os típicos: não és suficientemente bom, audaz, capaz, não tens aquilo que precisamos, ris de mais, ris de menos, falas de mais, falas de menos, és demasiado extrovertido ou demasiado introvertido; são estereótipos que nos marcam, caracterizam e condicionam.

É difícil superar estes condicionamentos, esta forma de ser e estar. É ainda mais difícil perceber que temos muito pouco controlo sobre tudo o que se diz, escreve e faz, a não ser o controlo que temos sobre como nos sentimos. O foco tem de ser esse, entender o que não podemos mudar, aceitar quando as coisas não correm como esperávamos e deixar que as emoções acalmem, porque só nos resta aceitar e seguir em frente.

O barqueiro do Volga


Pedro Correia,

A invasão em larga escala da Ucrânia pela tropa armada da Federação Russa iria durar escassos dias, antecipavam em Fevereiro de 2022 os putinistas tugas, fiéis serventuários do amo do Kremlin.

Enganaram-se redondamente. A guerra já dura há quatro anos e cinco meses. Há exactamente 1598 dias. Mais tempo do que durou toda a I Guerra Mundial (1568 dias) e do que a participação soviética na II Guerra Mundial (1418 dias).

Nada disto parece refrear o entusiasmo do major-general Agostinho Costa. Qual barqueiro do Volga, lá continua ele a remar incansavelmente entre hossanas ao tirano moscovita no canal de televisão que lhe dá guarida.

 

Ontem mostrou-se ainda mais fervoroso nas suas odes em louvor de Putin e nos seus recitais de ódio a Zelenski.

Aqui ficam alguns dos fragmentos mais viscosos:

«O esforço da Ucrânia é em recrutar mercenários.»

«Quando uma guerra é conduzida por mercenários e não por nacionais, o futuro não é brilhante.»

«A nível táctico as coisas estão a correr bem aos russos.»

«Dizem que a Rússia é uma ditadura. Não é bem assim.»

«Não podemos esquecer que o senhor Putin, além de jogador de xadrez, é cinturão negro de judo.»

 

Aquilo soava tanto a propaganda ao agressor que a competente jornalista da CNN Portugal foi incapaz de esconder um ar de enfado – pareceu-me até de repulsa. E não tardou a pôr termo à ladainha, o que justifica aplauso.

Bem sei que o dislate é livre – e propicia audiências. Mas há um decoro mínimo a preservar, em respeito pelas vítimas do “cinturão negro” na Ucrânia e do bom nome profissional de quem trabalha na televisão.

E também por elementar higiene cívica.

o triunfo da justiça*


José Meireles Graça,

Ponto prévio (minha opinião já antiga): Sócrates é culpado e já havia indícios de que o fosse quando ainda era PM. É por causa da pregressa existência desses indícios que nem toda a gente o abomina da mesma maneira: Os que sempre viram ali um demagogo troca-tintas olham para ele com alguma equanimidade – é passado; os outros que o elegeram e reelegeram carregam uma culpa interior, que sublimam detestando-o a dobrar porque por indesculpável cegueira não viram o que era patente, logo teria de ser por o homem ser um monstro, que evidentemente não é.

Há também a sua entourage próxima, cujo deliberado descaso dos factos que não podiam desconhecer traduz uma maneira amoral de estar na política. Ainda andam muitos por aí, o mais saliente deles Costa, mestre de cerimónias do Conselho Europeu.

O animal feroz, como a si mesmo se descreveu, uma expressão que a comunicação social acolheu com júbilo no tempo em que o carregava num andor, tem provado ao longo do processo que sim, tem uma ferocidade combativa, contestando tudo e de tudo recorrendo, não se deixando abater nem sequer quando o detiveram com espalhafato nem quando o trancafiaram meses a fio para o investigarem com o remanso policial que se dá como natural.

Esta combatividade é apresentada como uma das razões do absurdo arrastar do processo e, por causa dela, gente de grande ponderação diz gravemente que, para evitar o escândalo e a denegação de justiça, o melhor é diminuir os direitos dos arguidos (ou acusados, ou lá o que é).

Não há todavia nenhuma diligência, nenhum recurso, nenhuma oposição, nenhuma contestação, nenhum requerimento (uf, que estou aqui a ver se cubro as hipóteses todas) que não tenha sido decidido por alguém; e por que motivo o alguém tinha necessariamente de arrastar os pés e decidir em meses o que devia ser decidido em dias, ou em dias o que requeria horas, passa com tranquilidade pelo crivo da opinião do especialista: é assim porque tem de ser assim.

Não tem. E quem ler qualquer decisão judicial (maxime sentenças) fica pasmado porque aquilo é invariavelmente prolixo, redundante, doutrinário, às vezes com pretensões literárias, reforçando a cultura da solenidade com medo de que a opinião pública deixe de ter pelos paramentos dos agentes da Justiça a mesma devoção que dedica aos santos, e os advogados dos processos e as instâncias superiores o respeito devido a peças decisórias solenes.

Sucede que em matéria de respeito da opinião pública ele está num caco; e as soluções que magistrados (os autênticos, isto é, juízes, e os que para não dependerem do poder político não dependem de coisa alguma), advogados, funcionários e especialistas da matéria que se espargem em artigos, comentários e entrevistas, servem para pouco: É desse aquário que têm saído todos os reformadores e continuam a sair, de modo que podemos esperar que o resultado não seja muito melhor do que o que tem sido. Pode ser pior, aliás, como se depreende da pulsão para limitar os direitos de acusados. Estes, os direitos, são uma conquista civilizacional mas vamos fazer um recuozinho que não temos imaginação, nem lucidez, nem competência, para fazer outra coisa.

Resumindo: Não é atitude de grande discernimento tomar como necessário que a reforma do sistema de Justiça seja exclusivamente operada por quem nele está mergulhado até às orelhas, posição que impede a visão de mais do que dossiers empilhados.

Não estou de momento com vagar para a reformar, pôr no pouco lisonjeiro lugar que lhes compete todas as categorias de pessoas que a agenciam e em torno dela gravitam, e apontar os caminhos que ela, a reforma, deveria trilhar. Mas estou para fazer uma reflexão sobre uma sentença judicial em particular por nela estarem implícitas as razões pelas quais a independência e irresponsabilidade dos juízes são a maior e melhor garantia de que o cidadão não é condenado nem pelo poder político, nem pela opinião publicada, nem pela opinião pública, nem pelas polícias, nem pela magistratura de acusação.

A juíza Daniela Braga de Oliveira outorgou a Sócrates uma indemnização de 15.000 Euros porque “o Estado não preservou o segredo de justiça como lhe competia e ‘atentou contra o princípio constitucional da presunção de inocência do arguido e do direito a beneficiar de um processo justo e equitativo’, além de ‘ofender’ o seu ‘bom nome, reputação e privacidade”.

Aspei por ser uma transcrição de parte de um artigo deste jornal, não directamente da sentença porque nem com a ajuda da IA a encontrei. As sentenças não ficam imediatamente disponíveis porque ninguém se lembra de que os juízes administram a Justiça em nome do povo e este não deveria necessitar exclusivamente da mediação de jornalistas, dos quais aliás a maior parte não é capaz de interpretar correctamente texto algum, para não falar dos enviesamentos que os afligem.

A sentença tem (na minha opinião, que naturalmente respeito) várias insuficiências, ainda que empalideçam perante a exemplaridade da conclusão e resultem de um entorno de condicionamento das sentenças que não era razoável esperar o tribunal verberasse.

Desde logo, o valor modestíssimo da indemnização. Porém, o conceito de indemnização punitiva do ofensor está ausente do nosso ordenamento, pelo que se trata sempre e apenas de medir os danos. Os quais (aliás de prova muito difícil) são tradicionalmente calculados por valores somíticos.

Não só isto:

“É unânime na jurisprudência, os prazos do inquérito são meramente indicativos, e não vinculativos”.

Que a juíza não se afaste da jurisprudência compreende-se, a segurança jurídica é um valor respeitável. O que não se compreende é que a jurisprudência abunde no disparate, senão no abuso, porque um prazo legal que pode ser ignorado (por magistrados, mas não, por exemplo, por advogados) é como se não existisse. Isto significa o seguinte: O legislador não sabe o que diz, coitado, de modo que a gente faz de conta que ele não disse nada.

Mas disse. E o legislador tem o direito (do qual, aliás, abusa) de dizer asneiras, mas não deveria haver quem, sob pretexto de independência, se permita ignorá-las. De modo que o atropelo de um prazo deveria dar automaticamente direito a indemnização e, no caso do Ministério Público, a obrigação de procedimento disciplinar. Defenderia a mesma coisa em relação a juízes se isso fosse possível sem lhes ferir a independência e a irresponsabilidade. Mas como não é, deve prevalecer o valor mais alto.

“José Sócrates estava a dar ‘mero emprego’ aos ‘vários meios processuais que a lei lhe permite para a defesa dos seus interesses’, não tendo vislumbrado que Sócrates ‘tenha feito um uso abusivo ou predeterminado de molde a provocar delongas processuais”.

Chapeau, senhora Juíza, é exactamente isso: Defendeu-se com recurso a expedientes legais e fez muito bem. A maneira de lidar com o uso extensivo de tais expedientes é resolvê-los prestes, não prejudicar eventuais inocentes por os impedir de se oporem ao que estimam abusos.

“… são muitas as violações do segredo de justiça que o tribunal deu como provadas”… “tal ‘circunstancialismo fáctico’ coincidiu (…) com a fase de inquérito criminal, que se encontrava sob segredo de justiça, constatando-se que o mesmo não foi observado pelos serviços do Tribunal de Instrução Criminal, da Autoridade Tributária e do Ministério Público”.

Não foi observado e continuará a não ser enquanto não houver investigações sérias conduzidas por elementos estranhos aos serviços de onde presumivelmente nasceram as fugas. Com nomes, informação e acompanhamento, que o nevoeiro não se dissipa sem que o ambiente aqueça. Isto ou pura e simples eliminação do segredo de justiça, o que não se afigura como razoável por poder prejudicar as investigações.

Foram precisos quase 40 séculos, desde Hammurabi, para construir o edifício do Direito como ele é hoje nas sociedades onde os direitos dos cidadãos se podem afirmar em pé da igualdade que a lei garante contra os mais fortes, os mais ricos, os poderes que exorbitam das suas competências, a opinião pública e o próprio Estado.

Quem cai nas malhas da Justiça Criminal é, por definição, o mais fraco; a presunção de inocência abrange, antes da prova e condenação, o mais evidente dos culpados porque se não for assim abre-se a porta a erros judiciários; e para garantir que o Juiz decide segundo a Lei temos de aceitar que, de quando em vez, ele ignore o vozear à porta do Palácio de Justiça e as imprecações naturais em tascos mas que deixam de o ser se proferidas por quem não deva ter comportamento de frequentador.

A sentença da juíza Daniela Braga de Oliveira honra a magistratura; e o recurso do Ministério Público, mesmo que venha a merecer acolhimento, não é mais de que uma perrice de orgulhozinho ferido.

Portuguêsmente comendo


Maria Dulce Fernandes,

Conforme planeado, hoje foi dia de sardinhada. Não sei se é do calor, se da idade, mas nesta incursão gastronómica, acabei por ficar aquém daquele recorde que bati há dois anos, o tal das 16 sardinhas. Desta vez, comi apenas 14 peixitos. A falta de preparação física associada ao calor e à vetustez deglutiva, fizeram-me mostrar o cartão vermelho à travessa de prata fumegante que se avizinhava. E, com grande pesar, saí de jogo.

Cantar Camões (53)


Pedro Correia,

 

Ao Desconcerto do Mundo, Xornas

(EP: 1578 Camões Revisitado, 2023)

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E, para mais m’espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.

Leituras


Pedro Correia,

«Os membros da minha geração, depois de anos de trabalho, reformam-se com pensões de cerca de dois mil pesos, quando hoje, agora, uma caixa de trinta ovos custa três mil pesos… A conta é fácil: o dinheiro não lhes chega nem para comerem um ovo por dia, enquanto os produtos subsidiados pelo livrete de abastecimento (ou de desabastecimento) são cada vez menos, já insuficientes para subsistir uma semana. O milagre cubano é que muitos cubanos vivem de milagres. Ou dos “salva-vidas” ou “donativos” que lhes fazem os seus parentes a partir do estrangeiro. Por isso se diz que em Cuba é muito importante ter FE: família no estrangeiro.»

Leonardo Padura, Ir a Havana (2024), p. 139

Porto Editora, 2025. Tradução de Jorge Pereirinha Pires

Futebol: a minha melhor memória


Pedro Correia,

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Tínhamos tudo contra nós. Jogávamos em casa da selecção adversária, perante um público maioritariamente hostil e tradicionalmente muito arrogante. Éramos apontados como “patinho feio” em todas as casas de apostas desportivas. Para cúmulo, vimos o nosso melhor jogador – e melhor jogador do mundo – inutilizado a partir do minuto 8 por falta que o árbitro entendeu não assinalar.

Mas soubemos resistir a todas as adversidades. Abdicámos do tradicional futebol-espectáculo que durante décadas nada mais nos trouxe senão umas quantas “vitórias morais” e trouxemos para Portugal o mais cobiçado troféu até hoje conquistado pelo futebol português: o Campeonato da Europa ao nível de selecções seniores, arrebatado na épica final do Parque dos Príncipes, em Paris.

Aconteceu a 10 de Julho de 2016.

 

Como de costume, não faltaram desde o início os profetas da desgraça ao nível do comentário desportivo, prontos a vaticinar o desaire da equipa das quinas. Um desses comentadores destacou-se mesmo por ir criticando sempre a exibição dos jogadores comandados por Fernando Santos.

«A selecção nacional está transformada no clube do Ronaldo», começou por dizer (19 de Junho) esse idiota, corporizando todos os Velhos do Restelo cá do burgo. Uma semana depois (26 de Junho) proclamava com gravidade perante das câmaras da estação televisiva que lhe serve de palco: «Nós ainda não entrámos no campeonato da Europa! Nós ainda não entrámos no campeonato da Europa!» Dias depois (2 de Julho), assinalava: «Nada do que aconteceu neste Campeonato da Europa deve ser considerado um êxito, bem pelo contrário.» A uma semana do jogo decisivo (3 de Julho), não encontrou nada melhor para dizer senão isto: «Eu só dou grande mérito a Portugal quando ganhar a final.» Ainda antes da final (6 de Julho), torcia pelos nossos adversários: «A França é uma equipa que me encanta.» No fim de tudo (11 de Julho), lá teve de meter a viola no saco, mas resmungando ainda: «A selecção nacional, na final, foi melhor sem Ronaldo do que com Ronaldo.»

 

Indiferente a esta e muitas outras aves agoirentas, a selecção trilhou a sua rota ascendente, passo a passo, com persistência, sem nunca perder: 1-1 com a Islândia, 0-0 com a Áustria, 3-3 com a Hungria, 1-0 com a Croácia, 1-1 com a Polónia (vitória no desempate por penáltis), 2-0 com o País de Gales e 1-0 na final de 10 de Julho frente à anfitriã, França.

Cristiano Ronaldo (3), Nani (3), Renato Sanches, Quaresma e Éder marcaram os golos portugueses. Rui Patrício foi designado melhor guarda-redes deste torneio que nos encheu de orgulho e júbilo.

Nota adicional: nos 23 seleccionados de Fernando Santos havia quatro jogadores do Sporting (todos titulares) e dez formados na Academia leonina.

Motivos redobrados para eu festejar o maior título de sempre do futebol português, com imensa alegria ao ver a equipa das quinas campeã da Europa. Proeza inédita.

Não parece nada, mas já passaram dez anos.