O fatal eclipse da “revolução cubana”


Pedro Correia,

Por estes dias, alguns celebram o centenário do fundador da mais velha ditadura da América hispânica: Fidel Castro Ruz, filho de um próspero latifundiário oriundo da Galiza, nascido a 13 de Agosto de 1926. Tomou o poder político em Cuba no dia do Ano Novo de 1959 e só o largou, devido a grave doença, em Fevereiro de 2008. Falecido em 2016, soube perpetuar a tirania mesmo para além do túmulo: sucedeu-lhe o irmão mais novo, Raúl, que mesmo aos 95 anos mantém o comando supremo da ilha transformada em prisão. Puro caudilhismo familiar, equivalente ao do clã Somoza na Nicarágua ou dos Peróns na Argentina. Este com a agravante de durar há muito mais tempo: três gerações de cubanos nunca conheceram outro cabecilha senão um membro da dinastia Castro – mesmo com um presidente-fantoche fingindo ter a mão no leme, de Osvaldo Dorticós (morto por suicídio em 1983) ao actual, Díaz-Canel. Figuras meramente decorativas. Enquanto há outro Castro à espreita: Raúl Rodríguez Castro, neto preferido do avô homónimo e seu guarda-costas há vários anos.

Nenhum cubano celebra hoje coisa alguma, excepto os da nomenclatura do regime que exilou, prendeu, torturou e matou largos milhares de pessoas nestes 67 anos. Celebrar o quê num país que desde 2020 perdeu 15% da sua população? Quem parte são os jovens, na esmagadora maioria. Vão quase todos para os Estados Unidos – que a cartilha comunista diaboliza e a população idolatra. Ficam os velhos, com reformas médias equivalentes a 8 euros mensais – quantia suficiente apenas para comer um ovo por dia. Sem as remessas dos familiares emigrados em Miami e noutras cidades da Florida, desceriam outro patamar na existência, passando da pobreza endémica à miséria.

Por estes dias está em Havana o secretário-geral do PCP, solidário com aquele regime que condena a população à penúria. Talvez ainda acabe agraciado com a Ordem José Martí, condecoração atribuída por Fidel Castro a alguns dos mais repugnantes ditadores da segunda metade do século XX: Nicolae Ceausescu, Erich Honecker, Gustav Husák, Mengistu Haile Mariam e Robert Mugabe. Além do nosso Vasco Gonçalves, que certamente não desdenharia a companhia dos restantes.

Os cubanos pobres – quase todos – nem reparam nessa patética vassalagem de Paulo Raimundo: andam demasiado ocupados a lutar pela sobrevivência diária num país mergulhado literalmente nas trevas, onde há dias ocorreu o sexto apagão geral do ano por absoluta falta de investimento estatal na rede energética. Este mais recente durou 28 horas. «Quando a electricidade regressou estávamos tão exaustos que nem tínhamos energia para nos alegrarmos», reportou a corajosa Yoani Sánchez no seu jornal digital.

Os apagões são a metáfora perfeita para o comunismo cubano, que já no estertor da agonia continua a condenar por delito de opinião patriotas que não se vergam à lei do silêncio. Raimundo injuria-os com o seu aplauso de cortesão aos verdugos de Havana. Contra a vontade dele, e por mais que lhe doa, Cuba voltará a ser livre.

 

Leitura adicional: Cuba e a crise do jornalismo.

14 comentários em “O fatal eclipse da “revolução cubana””

  1. Concordo totalmente com o que diz sobre o regime cubano.
    Permita-me, no entanto, uma ressalva quando afirma que “a grave crise energética vivida pelos cubanos (6.º apagão geral) se deve à absoluta falta de investimento estatal na rede energética”.
    Penso que a actual crise energética se deve primordialmente ao bloqueio imposto pelo governo dos EUA, com a interrupção de parcerias tradicionais (Venezuela, Rússia) que impedem a chegada regular de petroleiros (o último proveniente da Rússia a chegar a Cuba foi em Março de 2026) e o abastecimento de petróleo bruto que deixa Cuba sem capacidade de gerar energia de forma contínua.
    Qualquer outro país dependente energeticamente da importação de petróleo, sujeito a este tipo de bloqueio, que já dura há quase 6 meses, estaria na mesma situação de Cuba.
    O bloqueio económico e as restrições energéticas impostas a Cuba por Trump (e lideradas por Marco Rubio, o governador da Venezuela que a partir de Washington controla efectivamente as suas finanças, a distribuição dos seus recursos naturais e o governo de Delcy Rodríguez, e que pretende estender o seu domínio governativo à Cuba das suas origens) têm como objectivo gerar o desespero entre a população, a revolta popular e, com isso, provocar o derrube do regime.
    Embora favorável a uma mudança de regime em Cuba, custa-me aceitar que isso se faça através de uma estratégia dos EUA que visa gerar escassez económica, agravar apagões, enfim à custa de um cada vez maior sofrimento do povo cubano.

  2. Das revoluções da América Lat(r)ina, houve uma revolta militar que foi benéfica para o seu país. Foi a revolução dos militares brasileiros dos anos 60/70 que começou com o General Castelo Branco e terminou com o Gen, Figueiredo em 80.

    As outras foi tudo um desastre.

    Aquela região do mundo, tem paises mais complicados que certos paises africanos ou asiáticos.

    1. Quem celebra, festeja e aplaude ditadores tem a vantagem de tornar tudo muito claro. Pelo menos para mim, que estou na margem oposta.

  3. Mas como poderá um povo tão depauperado, tão enfraquecido, na sua larguíssima maioria reduzido quase à animalidade sobrevivente – e com a situação a piorar a cada dia que passa! – como poderão essas sombras de seres humanos revoltar-se contra soldados, polícias e esbirros que defendem, não já nenhuma ideologia, mas a impunidade dos seus crimes e o bocado de pão que a lealdade ao “dono” lhes garante no meio da carência generalizada?

    São a elite dos miseráveis; mas os únicos com capacidade para derrubarem um sistema tirânico morto-vivo, mas que ainda consegue sugar os restos de um desgraçado povo exaurido.

    Por outro lado, impressiona-me terrivelmente a normalização, em pleno século XXI, com direito a assistência ao vivo, de situações de bloqueio e cerco de territórios, visando a rendição de populações pela fome, pela doença, pelo frio.. Obrigando outros seres humanos a recuarem à condição de bestas, sem mais. De uma maneira ou de outra, condenados à barbárie.

    São situações erradas em sentido absoluto, que apenas um excepcional direito de legítima defesa poderia justificar.
    Ora, e é isso o que no caso de Cuba (mas não só) tanto me impressiona: feita a contabilidade, haverá realmente caso contra Cuba para semelhante agonia de todo um povo? De todo o povo, os vilões, os maus, os bons, as criancinhas e tudo?

    1. Sugiro a leitura de autores cubanos. Eles sabem.
      Desde Cabrera Infante, expulso do país para um exílio perpétuo em 1965 (quando os intelectuais do Ocidente entoavam hossanas deslumbrados à “revolução socialista”), até Leonardo Padura, um dos mais admiráveis escritores do nosso tempo, condenado ao exílio interior e ao banimento cívico pela ditadura (o seu nome é omitido pelos meios oficiais da propaganda que quase monopolizam a chamada “informação”). Até à corajosa Yoani Sánchez, acossada até ao limite em Havana onde o regime lhe silenciou o blogue e tudo faz para lhe vedar o acesso a leitores na ilha – pressão redobrada por ser mulher, numa tirania insuflado de testosterona desde o instante inicial.

      Recomendo sobretudo a leitura desse monumental livro-ensaio-documento em forma de romance intitulado “Autobiografia de Fidel Castro”, escrito por Norberto Fuentes – outro expulso, outro desterrado perpétuo que pagou com o exílio, há cerca de 30 anos, a coragem de chamar tirano ao… tirano.
      Confirma-se: os ditadores detestam que lhes chamem assim. Detestam que se diga que eles são aquilo que realmente são.

      1. Leonardo Pandura como bem refere crítico do actual regime cubano e exilado no seu próprio país, na sua obra “A Neblina do Passado” (que faz parte da tetralogia do detective Mario Conde, edições ASA, 2008) aborda igualmente o regime da ditadura de Fulgêncio Batista em que a ilha/Havana funcionava como um centro de jogo, prostituição e forte influência económica norte-americana, contrastando com o clima de corrupção, as desigualdades sociais e a atmosfera sufocante da ditadura instalada após o golpe de Estado de Março de 1952 que, segundo LP, serviu de pano de fundo histórico para entender as frustrações da sociedade cubana que geraram a revolução castrita e a substituição por uma outra ditadura de sinal contrário.
        No fundo, é a história trágica do povo cubano sujeito desde sempre a ditaduras desde a luta pela independência da Guerra Hispano-Americana” de 1898, e recusa da transferência do colonizador espanhol para os novos colonizadores americanos, mas que viram a ilha ocupada pelos EUA a partir de 1902, mais tarde o “golpe de Estado” promovido pelos EUA em 1952, colocando no poder Fulgêncio Baptista que instaurou um regime ditatorial de extrema-direita que nunca foi aceite pelo povo cubano, destituído pelos revoltosos independentistas em Janeiro de 1959 que estabeleceram um regime comunista liderado por Fidel, desde então até hoje.
        Pelos vistos, Trump e o seu amigo cubano Marco Rubio (MR) pretendem voltar a ocupar a ilha e a substituir o actual regime comunista por um novo regime ditatorial de sinal contrário, tal como aconteceu na Venezuela em que depois da captura de Nicolás Maduro deixaram no poder a sua vice-presidente Delcy Rodriguez submissa a MR que governa a Venezuela a partir de Washington, D.C., com o desplante da afirmação de Trump de que “o país ainda não está pronto para eleições” e que impediu inclusive a líder oposicionista Corina Machado – que lhe tinha oferecido a medalha do Prémio Nobel da Paz – de voltar à Venezuela.
        Será que vão fazer o mesmo em Cuba, depois da invasão e prisão de Raúl Castro e do seu clã, vão deixar no poder Diaz-Canel sendo a ilha governada de facto por MR e pelas organizações de empresários e legisladores de exilados cubanos da “Máfia de Miami”?

      2. Sim, o cargo rapidamente perdeu a aura legítima e democrática com que foi criado na Roma Antiga – nem sequer resistiu ao fim desse período para se tornar pejorativo.

        Talvez desse arquétipo do ditador legitimado lhes advenha o vício de se quererem validar à viva força, seja com “eleições” ou banhos de multidão, ou de preferência os dois. Ou, mais provavelmente, querem branquear a imagem com que ficarão na História.

        Mas, seja como seja, punições colectivas ou lá o que se pretenda, ainda por cima pondo em causa a sobrevivência física e anímica de gente comum, vítimas que já tanto sofreram com regimes corruptos… Há uma contradição básica, essencial, nisso.

        A fazer lembrar o famigerado Abade que, na Cruzada Cátara, terá ordenado o incêndio de Béziers com todos os seus habitantes; questionado sobre os que entre eles não eram hereges, mas sim bons cristãos, terá respondido que “Deus conhecerá os seus…”

  4. Havana. Noite cerrada. Não se vê um palmo à frente do nariz. Dois cubanos, Héctor e Camilo, estão sentados num passeio esburacado a tentar não ser comidos pelos mosquitos.

    De repente, as janelas do Palácio da Revolução iluminam-se com um clarão desmedido, quase ofuscante.

    Camilo: (Semicerrando os olhos) Oye, Héctor… Conseguiram ligar a central térmica?

    Héctor: Não sejas ingénuo, Camilo. É o Paulo Raimundo.

    Camilo: Quem é esse? O nosso novo ministro da Energia?

    Héctor: Não, é o secretário-geral dos comunistas portugueses. Acabou de acender as 100 velas do bolo de anos do Fidel. É a primeira vez que temos luz na ilha desde terça-feira.

    Camilo: Cem velas? Coño!

    Héctor: Repara agora no detalhe importante, Camilo: o bolo. Para aguentar com cem velas tem de ser um bolo enorme. Levou farinha. Levou açúcar. E, pior ainda… levou ovos.

    Camilo: (Leva as mãos à cabeça) Ovos… Estás a dizer-me que estão ali metidas as reformas de trinta velhos de Havana?

    Héctor: Exactamente. Aquele sacana do tuga está lá dentro a bater palmas e a chorar de emoção em cima do nosso jantar até ao Natal de 2028.

    Camilo: Mas ele não sabe que nós vivemos com oito euros por mês? Que nós estamos a comer um ovo por dia quando a galinha está bem disposta?

    Héctor: O Raimundo não sabe de nada, Camilo. Ele é de um Partido Comunista europeu. Para ele, isto não é miséria, é “o povo a resistir heroicamente ao imperialismo ianque” a fazer jejum intermitente.

    (Lá dentro, no palácio, ouve-se a turba a cantar os parabéns. Paulo Raimundo prepara-se para soprar as velas do camarada Fidel)

    Camilo: (Levanta-se, em pânico) Héctor… ele vai soprar as velas! Pára o homem!

    Héctor: O que foi?

    Camilo: Se ele apaga aquelas 100 velas, nós voltamos às trevas! É o sétimo apagão nacional! E depois só vamos voltar a ter luz no centenário do Raúl!

    (Héctor tenta gritar, mas é tarde demais. Paulo Raimundo, sopra as velas de uma vez. O Palácio apaga-se. A rua apaga-se. O país mergulha na mais absoluta escuridão)

    Camilo: (No escuro) Pronto. Soprou. E agora?

    Héctor: (Suspira) E agora nada. Olha, vamos mas é dormir, Camilo, que amanhã temos de acordar cedo para ir para a bicha do ovo.

  5. Pena Cabrera-Infante ter desaparecido.
    Teria três ( pelo menos…) triste coisas a dizer sobre o assunto, certamente…
    JSP

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