Galp Goody? A matraca turística …


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(Postal para o meu “O Pimentel” – é longo, por isso o deixo como opção de leitura)

Paramos numa estação de serviço. A meu lado está um britânico. Olha para o nome da loja, este Galp Goody no qual eu nunca reparara, desautomobilizado que me tornei. E comenta – no seu legítimo inglês, de facto quase received – o que eu posso traduzir como “isto não adianta nada”. E, enquanto outrem preenche o depósito, avança ele sobre este descabido uso da sua língua (o qual já referi aqui), associando-o às vagas turísticas, essas que duram uma década ou pouco mais, transformam os sítios e depois esvoaçam para outros lugares, para trás deixando semi-ermos pois abúlicos, quais… “saldos” urbanos. É o que antevê neste país que vai agora visitando, amiúde e com gosto. Sorrio, irritado e concordando.

A isto há excepções mundo afora, locais nos quais a vasculha festiva segue mais duradoura: duas ou três ruas, e adjacentes vielas, em Bruges, a Paris de Haussman propagandeada pela “geração perdida”, o Grand Tour italiano celebrizado por renomados marketeers – de Goethe a Anita Ekberg, passando por Thomas Mann e tantos outros -, a Acrópole ateniense, para a qual Christopher Nolan agora fez uma grande campanha publicitária (â qual já torci o nariz). Ou a apologia do trabalho escravo, nos subúrbios de Cairo, essa “nostalgia” que nem os mais radicais wokes contestam. Mais um escasso punhado de recantos… E há outros destinos com procura continuada, pois apropriados a outro tipo de apetências viajantes, mais orgásticas, como os falos gambianos, ânus tailandeses ou vaginas brasileiras.

Por cá alagou-se a onda turística. Desde há décadas que assim é lá no “dos Algarves”, mas agora é em todo o Reino que ocorre este frenesim deslumbrado com as patacas fáceis, estas já nem sazonais pois afluem todos os meses. Nela não nado com bóias xenófobas: carrego duas décadas emigrado! E sou impaciente com os suaves boçais que se dizem de “esquerda”, tão avessos aos “franceses” que “tornaram tudo insuportável, caríssimo“ (no sotaque acentuado-arrastado “classe média” lisboeta, sff), e com os firmes boçais de “direita”, tão indignados com estes “monhés e … brasileiros ” (no ríspido agudo do povo alfacinha, sff), esses “que tudo conspurcam”, diriam se conhecessem o verbo.

E também tenho suficiente memória para não evocar uma falsa “idade de ouro” pré-turística. Sempre recordo uma vinda a Lisboa em finais da primeira década do milénio. No primeiro dia atravessámos a D. Henrique até ao Terreiro do Paço, cruzámos a Baixa, virámos à Praça da Alegria rumo ao Príncipe Real. Nas cercanias do Cais das Colunas mantinham-se as obras ribeirinhas, começadas antes de 1997 quando eu emigrara – só terminariam mais de um década depois…! Todo aquele rumo estava pejado de edifícios alquebrados, entaipados, arruinados, abandonados, uma decrepitude poluída com imensos grafítis, esses que os ignorantes mimavam de “arte urbana”. De súbito, no banco de trás, a nossa filha, muito surpreendida nos seus 7 ou 8 anos, exclamou: “Afinal Lisboa é mais pobre do que Maputo?”. Da boca das crianças, concluímos… Era a Lisboa “histórica” de então.

Mas isso não implica louvar o actual aplainamento das cidades. Explodiu a construção hoteleira, necessária há quinze anos, excessiva desde há já alguns. E juntaram-se-lhe as formas como tantos – dizem-nos “privados”, como se os hotéis não o fossem – acorreram ao chafariz turístico, com o cântaro das reconversões “turismo de habitação” e, depois, “alojamento local”. Isso vem sendo criticado, por causar a “desertificação” urbana. Consta agora que o ensonado Legislador – a pobre soma das gentes em quem votamos – se sobressaltou e irá mudar os regulamentos.

Em Lisboa lamuria-se o êxodo dos “populares” dos bairros antigos – nisto sempre subentendidos como se “indígenas”, produtores do atractivo “pitoresco” dotado de uma qualquer “autenticidade” local. Mesmo se tenham partido para melhores habitações (o que é diverso de melhor “qualidade de vida”…). Mas convém lembrar ocorrerem essas partidas desde há muito – lá pelos finais dos anos 80 findou o “cancelamento” (termo então ainda não usado) do fado. E vários dos seus estudiosos (e paladinos) notavam que, já então, o “fado vadio”, amador, se havia deslocado para a Outra Banda, onde viviam os antigos “alfacinhas” e suas descendências.

De facto, essas críticas muito provêm de uma fonte ideológica. Os proprietários, dos vários estratos da classe média, venderam as suas casas nas zonas mais antigas – a empresas ou novos residentes, tantos deles estrangeiros. E logo irromperam as invectivas à “especulação” e, pior, ao “lucro” – uma antiga e generalizada ladainha já lamentada, por exemplo, no final de XIX por Max Weber na sua algo esconsa peróla “A Bolsa”. Pois essa aversão não é “moderna” (ou de “esquerda”). Vem-nos pelo menos desde os Descobrimentos, e algum sábio já terá escrito sobre as tensões entre a nossa intelectualidade avessa aos poluentes “comércio” e “lucro” na expansão e os seus agentes executivos.

Mas, mesmo com esta ressalva, é notório o desvario vendilhão, transfigurando os centros das cidades. À chusma de hotéis juntou-se a devastação da multiplicidade lojista – a “biodiversidade” comercial, para usar o tonto tipo de metáfora tanto em voga. As marcas internacionais apropriaram-se dos espaços, muitas vezes apenas para afixar presença, numa estratégia de visibilidade do marketing globalizado – a de seguir os rumos dos consumidores viajantes para que estes não as esqueçam aquando do regresso das férias. E brotam um sem-número de repetitivas lojecas forasteiras, sans foi ni loi pois alheadas dos hipotéticos lucros obtidos com as suas quinquilharias, comestíveis ou enfeites – dado que são meras ilegais plataformas para transumância humana.

Nisso as paisagens urbanas reduzem-se a uma monótona confluência de Zara, barbershops indostânicas, albergues apátridas, Louis Vitton, gift shops asiáticas, tacos houses, pizzarias, “lojas do chinês” e kebabs, MacDonalds e quejandos, mais algum postigo com as “nossas” conservas, apinocadas por design moderno. Tudo sob um jorro de verdadeiros grafítis institucionais – letreiros “altivisíveis”, berrantes anúncios agora ditos outdoors, e os “murais artísticos” em voga, essas vulgaridades fiéis ao molde Arlequim lacrimejante.

Segue este bazar a céu aberto ornamentado com alguns monumentos locais, o “património”, como se estes encorporem a nossa especificidade, a vera “identidade” portuguesa. Isso num cardápio sightseeing desde a recôndita gravura de Foz Côa à corroída pala de Siza, passando por uns cromeleques rurais, pastéis sintrenses ou belenenses, vetustos templos cristãos, castelos reabilitados, uma ou outra ruela mais patusca. Mais a Nazaré, onde o canhão de ondas substituiu as mulheres das sete saias. E assim o peculiar e sempre mutável compósito português se vai desvanecendo. Não refeito, nisso indo sendo reconstruído como desde sempre o foi. Mas degenerado na mera justaposição de apenas “símbolos” de Portugal, como se sempiterno folclore. Alimentado por peixe assado, cerveja e vinho baratos em areais soalheiros e danças (agora “festivais”) populares.

Duvido que esta amálgama de aparência “cosmopolita”, este amontoado de vulgaridade induzido pela “indústria” turística, seja tão atractiva que sustente por muito tempo a procura alheia. Pois se isto segue cada vez mais igual ao que abunda alhures, que virão cá fazer os outros? [Neste sentido há algum tempo aqui mostrei o estado patético em que está a zona antiga de “Lagos”]. Creio que bastará “alguém” apregoar outro sol (mais) barato – e pacificado – e será a debandada, lestos turistas em busca de (re)animarem os seus típicos imaginários.

É raro pensar o turismo para além do mero bazar. Pois o mais vulgar é apenas senti-lo como agressão – talvez inultrapassável pois necessidade económica, mas agressão ainda assim. Os “progressistas” desvalorizam-no como procura (alheia) de uma desprezível “forma elementar de felicidade”. Desde logo, têm uma difícil relação com essa “felicidade” colectiva. Pois se os “pais fundadores” norte-americanos e os “patriotas” franceses a inventaram como projecto político, já desde esse mesmo XVIII os tais “progressistas” a desvalorizam se vivida. Pois crentes de que a ambicionada libertação humana (esse tal “progresso”) advirá da consciência do sofrimento, pois esta necessário pasto da revolta. Vendo assim estes arremedos de felicidade passeante como mitos alienantes, distractivos das lutas que sonham necessárias.

É certo que os mais letrados entre eles louvam as viagens formativas – as que eles dizem fazer. Essas que Montaigne recomendou para que nelas se “esfregasse” o intelecto próprio com o dos outros, assim “afinando-o”1 – e que antropólogo não afiança ter lido o seu “Da Educação das Crianças” (tal como reclamará Heródoto como o “pai da… Antropologia” pois viajou e … aprendeu)? Tal como o fez Rousseau – sempre por esses louvado, pois cria na bondade humana apenas maculada pela … propriedade privada -, que aos (seus) devaneios viajantes (e solitários) gabou como de introspecção elevada. Mas isso são as viagens individuais, até demoradas, feitas para a impregnação de alheio – histórico ou actual. Cavalheirescas, entenda-se. Quanto às actuais vias excursionistas, low cost, confluências das “massas” em movimentos festivos, a vulgarização popular? Sobre elas exercem – mesmo quando as fazem – uma superioridade moral, desprezam-nas como vácuo hedonismo, até profanador.

E os “conservadores” torcem-se diante dos efeitos das vagas estrangeiras. Entendendo-as como desvirtuando o “ser” pátrio, que imaginam mais ou menos estabelecido em torno de realidades e valores – uma “paisagem” que afiançam moral – herdados de um passado assim resistente, mas agora conspurcado por este avassalador convívio com maus modos alheios.

Conjugam-se “conservadores” e “progressistas” numa impressão, arrepio até. Em ambos os quadrantes ideológicos os locutores usuais são burgueses. Custa-lhes ver os seus compatriotas, e até gente da sua “estirpe” – decaída em remediada -, servindo. Servindo-os sim, julgam aceitável, mas servir os outros? Estrangeiros? Sentem-no como um sinal de degenerescência. Pátria.

Assim a real imaginação sobre o turismo restringe-se aos … “empreendedores”. Idólatras do curto prazo.

Nesta irritação não estou em loas ao “antes é que era bom”, aquando da tal “identidade” nacional, como se essa intocada e virtuosa. Se convocando os habituais símbolos da “portugalidade”, é certo que sou conservador: prefiro a “casa portuguesa de Raul Lino” do Estado Novo à Armação de Pera ou à Costa da Caparica que “Abril” nos trouxe. Mas não sigo na saudade do bom “povo que lavas no rio”, na nostalgia da Lisboa de Alfredo Mesquita, na apologia das tascas (tantas delas galegas, já agora) com chão lavado com serradura para limpar os dejectos.

Ou seja, não colecciono itens “culturais” – materiais ou ideais – para os colocar no congelador, fixando uma “cultura” nacional, e seus putativos significados, num puzzle feito identidade portuguesa. E ambicionando cloná-la, nisso trancar a História. Pois contudo esta move-se, como em tempos disse um célebre empreendedor. Em suma, se muito gosto dos lápis Viarco – e os uso – também me lembro de que vingavam na era do analfabetismo. Tal como os meus saudosos ténis Sanjo coabitavam com a ausência de desporto escolar.

Muitos gabam estes efeitos da turistificação como sendo internacionalização. Ora esta epidemia de fancaria não é cosmopolita, mas apenas uma vulgarização, qual de arrabalde desvalido. Existem imensas definições de “cultura” – tantas que o termo, de facto, se tornou quase inútil. Há umas décadas um francês (Certeau) quase o salvou. Dizendo, mais ou menos, que cultura é a incessante multiplicidade inventiva com que se substituem valores e práticas por outros que sejam credíveis.

Ora olhando para esta imensa tralha montada para turistas, esta incapacidade de uma verdadeira inventividade, resta a dúvida: que credibilidade – que futuro real – tem tudo aquilo? Pior ainda, quando a estrangeirada minguar o que teremos entretanto inventado?

Desta nossa entusiasmada incapacidade – diante da qual inexiste um Estado indutor -, parola, deixo uma breve ilustração (que espero maiêutica) e um sintoma generalizado. O exemplo é gastronómico: há semanas a imprensa ecoou – com júbilo – ter o conhecido actor Pedro Pascal estado num restaurante no Meco, junto a dúzia de comensais, e deixado 120 dólares de gorjeta. Para tamanho grupo com milionário de Hollywood isso foi até sovina, mas não é esse o ponto. Pois o relevante é que a grupeta comeu pizas. Ou seja, num país rico na tradição de açordas e migas e que tanto investiu (e se glorificou) por se associar à “dieta mediterrânica” do actual folclore UNESCO, andam os turistas e os portugueses a comer medíocres pastos estrangeiros. E a imprensa aplaude e os leitores regozijam-se.

Sintoma maior desta desistência criativa face ao turismo é esta pandemia – medíocre – de uso do pidgin english nas comunicações e no comércio. Não sou um xenófobo da língua – e este texto está pejado de estrangeirismos. Mais: turismo? hotel? restaurante? bar? São galicismos e anglicismo, já adoptados. Mas para quê esta vaga de anglicismos, nas comunicações e, acima de tudo, nos nomes dos estabelecimentos? “No meu eclipse” eclipsei-me de raiva ao notar o desplante da Champalimaud, ali no ocidente lisboeta. Mas até aqui no oriente – até já sob o suburbano Loures – encontro em pleno Moscavide (em Moscavide, caramba!!!) um Innovation Design Building, no qual vigora um rooftop… (onde decerto se poderá apreciar o sunset)! E esta pantomina grassou por toda a cidade, e no resto do país: lojas, bares e restaurantes, placas empresariais, hotéis, etc., surgem em inglês – alguns estabelecimentos atrevem-se noutras… Para quê, para mostar o quê?

Isto não é apenas sintoma de um enorme vazio intelectual, uma arreigada e inculta “desinventidade”. É, muitas vezes, uma artimanha mariola. Regresso ao princípio com o comunicado da empresa glorificando as tais Galp Goody:

“A Galp inaugurou hoje … a sua primeira flagship … um verdadeiro hub de energia. As lojas “Galp Goody” foram desenhadas para acompanhar as novas tendências de consumo, oferecendo uma experiência de foodvenience que combina cafeteria, pastelaria, snacking e opções saudáveis Grab & Go. A diferenciação assenta na … curadoria e inovação alimentar que tornam a Galp uma referência ibérica no segmento de coffee & foodvenience.”

Ou seja, o uso do inglês não é apenas parolice – essa dos lounge e brunch e por aí afora. É também uma conversa de treta. Note-se: os automobilistas queixam-se dos preços do combustível e portagens, os passageiros de autocarros esgravatam a internet para encontrar os preços mais baixos. E depois acorrem a este hub de flagships goody (ou outros), socorrem-se do snacking, da foodvenience grab&go, ou um mero coffee (tudo isto dito sob curadoria, tamanho é o desplante). Nos quais os preços são caríssimos.

Com toda a certeza que mais vale levar um farnel – e um termo com café. E falar em português, se por cá. (E exigir aos autarcas locais para aumentar as taxas aos estabelecimentos com nomes em língua estrangeira, mas isso já é minha utopia.)

11 comentários em “Galp Goody? A matraca turística …”

  1. Miscigenação linguística?
    Colonialismo linguístico em versão soft?
    Sinal de um mundo interconectado que busca uma linguagem comum para comunicar, com o inglês a servir de esperanto?
    Poderá a AI constituir a salvação das línguas?

  2. Os portugueses escolheram ser socialistas e sociais democratas de várias cores logo desenharam uma sociedade de distribuição não uma de produção, invenção, criação. Produzem pouco, contam poucas histórias, inventam poucas histórias e pouca tecnologia, poucos produtos, assim inventam poucas ou nenhumas novas palavras e novas frases, expressões…resultado habituaram-se a usar muito menos português nas suas vidas.

    1. Onde se vê que lucklucky é o típico português socialista: conta e distribui pela bloga sempre a mesma história – há praticamente um quarto de século.

          1. Há uns 25 anos na Córsega lembro-me de ler: “Temos ementas em corso, alemão, espanhol, italiano,… Não temos ementa em inglês. ” Isto era escrito em francês e também tinham ementa em francês ( o que já terá sido uma concessão).

          2. Caso não tivesse sido claro, quem não cria, não inventa também não cria nem inventa palavras e expressões. Estamos num período humano de grande criação onde muitas novas palavras e expressões são criadas.
            O Português não é uma lingua morta mas é uma lingua passiva pela falta de criação.

  3. Já agora o nome dos maiores supermercados russos é Wildberries…´pode ser cultura a mudar em vez de turismo.

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