
Há uns tempos bebericava com dois amigos, conterrâneos de gema, no quiosque do nosso compatriota Evaldo – o qual intitulámos “Leblon” (dos Olivais) -, esse mesmo onde viemos a instalar uma dadivosa banca de livros, duradoura há mais de três meses e cada vez com mais ofertas…
Estávamos no nosso registo quotidiano, fiéis ao molde “velhos corsos” do recém-centenário Goscinny, rosnando aos canídeos passeados, invocando antigos “ases da bola”, invectivando velhas escritoras e biografias palavrosas, injuriando a ventania deste morro, denunciando o André Pinto da Costa e os seus sequazes, elaborando sobre petiscarias dignas, (muito) ocasionalmente deixando cair o falsário “ah, se fosse no meu tempo!” ao passar de uma ou outra vizinha Falbala, ironizando sobre alguns vetustos olivalenses ali ausentes. E outros temas sobremaneira relevantes no devir histórico.
De súbito, qual “eureka!”, nesse dia apercebemo-nos da imensa sageza que deste modo tão liberto sempre demonstramos ter acumulado, tamanha a constante e irrefutável pertinência das nossas considerações. A qual nos advém do húmus olivalense no qual medrámos – aprimorado pela excelência dos rumos que entretanto prosseguimos. E nesse momento assumimo-nos modernos e decidimos criar um podcast – como se diz agora a velha “rádio” -, devotado a ilustrar os nossos vizinhos e mesmo os gentios. Logo escolhemos um apropriado nome para o “programa” (como agora não se diz): “Nós nos Olivais é que sabemos!”. Horas depois usei as minhas artes gráficas e construí (este) visual apropriado para nossa apresentação.
Mas tardámos na execução. Também por motivos técnicos, pois aquilo de juntar som e imagem em local que os preserve é um assunto de difícil resolução para os leigos – pois somos sábios mas não omniscientes. Mas muito mais por razões outras. Porventura por temermos resvalar no tom que assumiríamos, pois a dedicação à tão necessária ilustração alheia talvez nos impusesse como sub-reptício parceiro esse censurável superego, prejudicando-nos a fluência temática e o encanto lexical.
No meu caso outro perigo se me assomou, escarificado que estou após 23 anos de bloguismo. Receei transfigurar-me em comentadeiro, indo-me no aluvião politiqueiro, como já me aconteceu na candura bloguística naquelas idades mais jovens. Rota que me é infértil, pois nisso fui sendo acolhido sob o popular “palavras loucas, orelhas moucas”, menosprezo que me magoou mais do que o suficiente, tanto que nada agora me impele a perorar sobre tais assuntos.
Pois, assumo-o, quanto à minha “Pátria Amada” nessas matérias sigo desmoralizado: neste ano atrevi-me a torcer em público pelo candidato Cotrim. E ainda não tinham acabado as eleições a que concorrera e já o homem se despromovia em comentador televisivo (remunerado) – cumprindo o afinal seu mero sonho de substituir Marques Mendes. Imenso me irritei com a manigância. Reconheço o (raríssimo, em mim) erro de avaliação que então cometi. E desisti de opinar. Não por alguma vergonha – pois no melhor pano cai a nódoa, como é consabido.
De facto, a razão de fundo para essa minha abstinência deve-se a que a minha usual presciência – passe o referido (único) erro – não colhe frutos nas mentes alheias. Dou dois exemplos deste quinquénio: em Janeiro de 2023 algumas hostes se entusiasmaram ao trocarem um trôpego do Porto por um dito ágil de Espinho: logo avisei que este último não era mais do que um Jorge Silas da política, jamais um “next big thing”. Mas já o fizeram ganhar duas eleições e desdobram-se em mesuras para com ele, neste seu caminho de António Costa 2.0.
E agora, há poucas semanas, houve uma enorme trapalhada no sul de Espanha, esta bem despreparada pelo governo lá deles. Logo os do PS do dr. Carneiro (e até ele) acorreram em loas aos seus “nuestros hermanos”, até para surpresa de qualquer indivíduo dotado de mediana saúde mental. Ora não percebo a estupefacção, pois desde há muito que, pedagogo, pronunciei ser o PSOE o último biombo que aparta os nossos “socialistas” da evidência “o partido vai nu”.
Sobre política em Moçambique, onde tanto tempo vivi, e sobre o qual botei vastas opiniões – tanto que até disso fiz um livro – também me despedi de opinar, pois enfastiado com as invectivas que me foram enviadas por intelectuais e “boots” intelectualizados, apoiantes daquele fascismo austral. Ainda assim vou recebendo notícias do que por lá se passa: havendo, desde há oito anos, uma guerra de guerrilha no norte do país – a qual foi acolhida durante anos com uma enorme e espantosa complacência pelo poder em Maputo (e grande silêncio em Portugal) -, houve agora mais um ataque, causando mortos e o saque e destruição de uma instalação turística, pertença do nosso Carlos Queiroz.
E sei também que o líder oposicionista Venâncio Mondlane – esse que, após duas eleições seguidas ainda mais fraudulentas do que o sempre habitual, viu assassinados dois dos seus mais próximos colaboradores, ao que se seguiram iniciativas policiais que causaram mais de 400 mortos entre os seus apoiantes, para além de um posterior paulatino abater dos dirigente locais do seu partido ANAMOLA, no que já conta cerca de 60 mortos – vai ser julgado, ele-próprio Mondlane, por acusações de terrorismo e incitamento à violência, entre outras. Mas, de facto, nada de peculiar me ocorre agora dizer aos meus vizinhos sobre estas matérias políticas, lusas ou africanas.

Mas sossego, pois fico ciente de que o nosso bairro não ficará “às escuras” face às ocorrências naquele “país irmão”. Isto porque o dr. Brilhante Dias, o presidente da nossa Assembleia de Freguesia, se deslocou a Maputo – fazendo-se acompanhar do dr. Carneiro, secretário-geral do PS. Tratou-se de uma visita privada (pois nenhum ocupa funções no Estado, esse legítimo proprietário da realpolitik), subordinado ao intuito “de reforçar as relações institucionais entre Portugal e aquele país da CPLP, bem como aprofundar o diálogo e identificar novas oportunidades de cooperação”. E, como cume dessa visita de amizade, os actuais dirigentes do partido fundado em Bad Münstereifel, em condições então algo difíceis, foram simpaticamente recebidos pela liderança daquele regime, na Ponta Vermelha! Tendo depois proferido entusiasmadas, mesmo que modorrentas, declarações de apoio ao poder ali instituído.
Ou seja, e em suma: se o nosso trio, como o afianço acima, sabe muito, Brilhante Dias, o nosso presidente da Assembleia de Freguesia, sabe-a toda…
(Se calhar devíamos convidá-lo para participar no nosso podcast.)
[Postal antes colocado no meu “O Pimentel“]

Já passaram três meses: quem matou o bispo de Quelimane?
Ao que li foram detidos alguns membros da diocese, um dos quais um padre. Outros argumentam que são meros agentes mandados. Nada mais posso acrescentar.