
É muito raro ir até à Baixa – que motivos poderei eu ter para tal coisa? Vá lá, um panado no Ginjinha Popular, uns croquetes na barra do Gambrinus? Há um ano ou pouco mais fui até uma amiga que viera de Maputo, uma cerveja numa descuidada esplanada no Rossio e depois sentámo-nos numa das barracas na feira muito foleira plantada na Praça da Figueira… Foi “remédio santo”.
Esta semana fui até à Barata Salgueiro, à SNBA, para a inauguração de uma exposição sobre Bogotá. Bastante gente – bem-disposta, pois muito gostando das fotografias. Um amigo, cá do nosso quase arrabalde, comentava, sorriso na cara, “Óptimo! e há quanto tempo não vinha até estas paragens!…” – depois jantámos no 39 Degraus da Cinemateca… “Mas lá para baixo é que nem pensar!”. Os circundantes rimo-nos, comungando da impaciência para com aquela tralha que se implantou na pombalina.
Leio hoje que ontem a Praça do Comércio foi cedida à publicidade dos retalhistas do Continente – Dombass e Ormuz a servirem para o esbulho cartelizado das famílias, e se o Estado não deve tabelar os preços pelo menos pode deixar de compactuar com o “pão (caro) e circo” dessa gente.
Fui pesquisar do que se tratava essa “Festa na Praça” do “Continente Feed“, anunciada como “a celebração mais portuguesa”, centrada com “portugalidade”. Com uma área de “street food”, com “smashburgers”, “loaded fries”, “melties” e “fruta fest” e “kebabs”. Uma área destinada aos “kids” e outra “pet friendly”, com “snacks” dedicados. E uma zona para “play”. A musicata começou às 16 h com um “DJ set” de um tal “Kiko Is Hot”.
Nem praguejo. Pois esta imundície é o meu país, a minha cidade. Promovida pelos autarcas nos quais voto. Enfim, bem que me poderia esfoliar mas isso não esconderá o fundamental: isto sou eu.
(Há pouco publiquei um texto sobre esta javardice constante. Alguns amigos – dos que têm paciência para me ler – riram-se, num “também estás a exagerar!”. Não estou.)

Não estás.
Pois. A ver se isto é apenas uma praga ou se é mesmo metástase.
Jogo, partida, encontro !
Não estou em Wimbledon 🤩
(em alternativa, porta-aviões ao fundo ! )
Abraço
A gente é que vai ao fundo, continuando assim.
O trabalho obriga-me a ir para o Chiado duas vezes por mês, portanto nada disto é novidade para mim, e já aqui falei em tempos sobre isso (https://delitodeopiniao.pt/lisboa-tao-minha-e-tao-estranha-17424820). Dois anos depois deste meu post, nada melhorou, só piorou. Lisboa continua a ser a minha cidade e por vezes ainda tenho saudades dela, mas quando saio do trabalho e passo pela Baixa, não fico com vontade nenhuma de me demorar por ali.
Sim, para quem já conhece “as vistas” nada há que ali apele ao passeio.
Kebabs, hamburgers, loaded fries,… realmente que hino à portugalidade 😅
Sim, até um bocadinho xenófobo… (Não há paciência, e ainda para o desplante daquela linguagem comercial: a “celebração mais portuguesa” com espaços dedicados a “kids” e “pets”)
Vamos muitas vezes para a Baixa. Pessoalmente, gosto muito de descer a Avenida da Liberdade pela sombras das árvores. A artéria principal de Lisboa, muito votada ao abandono, está um bocadinho melhor mas, como destino turístico ( de portugueses e estrangeiros), não se recomenda. Normalmente, vamos até ao Terreiro do Paço esperar o eléctrico para Algés, pelo que atravessamos o coração de Lisboa. Por todo o lado, somos interpelados em Inglês. Muitas vezes.
“Lisboa, não sejas francesa”, já era…
Pois, mas escrevi há pouco no meu postal Galp Goody, o problema não é haver turismo. O problema é que (nos) fazemos com isso.
Viajando por aí fora, constata-se que praticamente ninguém está tão subserviente à mudança de língua do que nós, por cá.
Não está.
Ontem tive de passar pelo Chiado, em direcção ao Cais do Sodré não é bem a mesma zona, mas faz tudo parte do meu conceito “Baixa-Chiado”, ou seja, tudo o que sempre fiz a pé, fosse de dia, de noite ou madrugada.
Tive de fazer um esforço, grande, para me lembrar da última vez que por ali tinha passado. Há largos meses, para um café de Lisboetas “teimosos”.
Entre as hordas de turistas na “rua cor de rosa” pintadinha de fresco e e coberta de guarda chuvas, o cheiro a xixi de espécies várias, o lixo acumulado, as lojas de souvenirs, o restaurante “very typical”, já nem o Rio Grande escapa ao menu padronizado… O que é que há ali para nós? Não me venham com tretas, ao contrário do que os vários executivos da CML querem fazer crer, parte do descalabro da Baixa era evitável.
E mais uma a fazer “mea culpa” que também votei neles.
Sim, este estado das coisas mostra que – em Lisboa e não só – as câmaras municipais estão pejados de eleitos e de funcionários que militantemente impensam.
“Uma choldra”, já diziam os enfastiados do Eça, desembocando depois n’A Catástrofe.
Sim, é uma deriva queiroziana habitual. Perigosa, pois tende a transformar-nos num resmungões cépticos, assim inférteis. Mas, de facto, isto está uma choldra. E – neste caso – ornamentada por uns Dâmasos do marketing.
Espanta-me como há gente disposta a pagar o m2 mais caro de Lisboa para morar ali.
Pois, uns estrangeiros virão ao engano. Os portugueses nisso? Arrivistas.
Enfim, já há 30 e tal anos quem andava de mochila às costas pelo Norte de Portugal durante o mês de Agosto também tinha uma experiência de portugalidade intensa – só que em franciú.
Sim, lá pelos 1960 / 1970 o turismo generalizado começou por ser francófono, com alguns alemães on the road. Mas presumo que esteja a falar dos nosso emigrados em França e arredores, que vinham de férias (ou retornavam) afrancesados. Tal como algumas décadas antes regressavam os “brasileiros” – e nos Açores os “americanizados”. Mas isso foram (e serão ainda, mas com formatos diferentes) fenómenos sociologicamente diferentes.
Mal por mal o Continente ainda é português.
Muito pior são as hordas de turistas e de população que nos faz perguntar a nós próprios se estamosnum país europeu, ou num africano ou asiatico.
A tudo isto junta-se as deploraveis condições de conservação e cuidados em que a cidade.
É a cidade de Moedas que tanto foi apoiado por este blogue.
Como se costuma dizer: Depois não se queixem.
É preciso querer puxar as brasas todas para a (ressequida) sardinha própria para disto concluir que o estado de Lisboa e de tantas outras cidades portugueses, aprisionadas pela turistificação superficial, pela cultura da piroseira e pela subserviência aos interesses dos grandes retalhistas, se deve a Carlos Moedas.
Mas, enfim, quer esturricar ainda mais a sua sardinha? Faça-o.
Bem, Moedas já vai no segundo mandato, se pretende tal como ele atribuir culpas aos antecessores, que tal ele corrigir o que estava mal, que era muito.
O pior é que não só continua mal como se agravou.
Mas se o deixa feliz, a culpa é do Medina e do Costa, e assim será daqui a 100 anos.
anónimo, decerto que leu o meu texto pois está a comentá-lo. Está lá escrito: “Pois esta imundície é o meu país, a minha cidade. Promovida pelos autarcas nos quais voto. Enfim, bem que me poderia esfoliar mas isso não esconderá o fundamental: isto sou eu.” – estou assim a alijar a responsabilidade de Moedas e seu executivo municipal? Caramba, que mais quer que eu diga? Que me dispa e me vá, em pelotas, plantar na Praça do Município chicoteando-me em protesto?
E decerto que também leu a minha resposta ao seu comentário prévio, pois está a ripostar: “É preciso querer puxar as brasas todas para a (ressequida) sardinha própria para disto concluir que o estado de Lisboa e de tantas outras cidades portugueses, aprisionadas pela turistificação superficial, pela cultura da piroseira e pela subserviência aos interesses dos grandes retalhistas, se deve a Carlos Moedas.” Estou a atribuir as responsabilidades do “estado da arte” nacional a Medina e a Costa (os quais detesto, é necessário ressalvar)? Insisto, V. está a puxar as brasas todas para a sua sardinha e eu noto que ela até já está mais do que bem passada.