30 de Setembro:
Homem [nepalês] assassinado de forma «violenta» em habitação na Ericeira.
1 de Outubro:
Imigrante [nepalês] morto com empurrão e facadas em casa na Ericeira.
2 de Outubro:
Morte de migrante [nepalês] na Ericeira teve causas naturais.
Ninguém diria, mas assim foi. Três formas muito diferentes de noticiar um óbito, em três dias sucessivos, no mesmo jornal. Prova inequívoca (mais uma) de que «dar primeiro» é muitas vezes o inverso de noticiar com acerto. Em vez de notícia, sai boato. Em vez de rigor, sai asneira.
A uma velocidade alucinante. De pé na tábua, até ao despiste fatal.

Engraçado também como aqui logo sentiram a falta de referir a nacionalidade da suposta vítima quando depois a omitem em casos em que não são vítimas mas potenciais agressores… isto sim é jornalismo isento e sério!
O caso, aqui, é que foi inventada uma vítima de homicídio. Foram inventados pormenores de um homicídio que não aconteceu.
Ao terceiro dia, após boatos impressos e apregoados aos quatro ventos, eis enfim um súbito lampejo de verdade: não houve homicídio algum. Morte natural de um malogrado estrangeiro residente na pacata vila da Ericeira, onde por mero acaso me encontro agora.
É realmente miserável toda essa situação. Mas nem tudo é mau. Com sorte (ou não), ainda se cruza com o nosso querido ex-PM 😉
Venho aqui com frequência sem nunca me ter cruzado com tal figura de má memória. É pouco visto, ele lá saberá porquê.
Então não almoce no restaurante “Casa Portuguesa”, na rua 5 de Outubro. Parece que é cliente habitual.
Nem conheço esse.
Ainda hoje ouvi num “noticioso” da CNN (a apresentadora parecia humana, mas nos dias que correm sabe-se lá…), que o piloto do avião da FlyDubai tinha sido atacado pelo co-piloto “com um machado”. Ainda pensei se teria percebido mal, se a senhora teria dito “com uma chave”, mas não: recuei e confirmei, foi “com um machado” mesmo.
De canivete a machado, de morte violenta a causas naturais, o valente piloto continuou vivo e o nepalês a ser nepalês – podia ser ainda pior, convenhamos!
Mais do mesmo. Sempre a puxar ao clique, à emoção fácil, à conquista de audiências – mesmo com boatos, tretas, aldrabices.
Depois queixam-se da fuga de leitores e de espectadores…
Sábios leitores, sábios espectadores. Separam o trigo do joio, recusam comer gato por lebre.
Por estranho que possa parecer, um machado para uso em situação de emergência é equipamento obrigatório na cabina de pilotagem dos aviões de transporte comercial. Faz parte do equipamento cuja existência (e operacionalidade) a bordo é mandatória para o despacho do avião.
As informações mais recentes sobre este caso referem de facto a agressão com um machado. Se foi assim ou não, o tempo dirá. Mas que é plausível, é.
Parece que sim, que foi mesmo com um machado de emergência, como o Costa refere – desta vez ouvi na SIC, a notícia espalha-se…
Mas para que será tão indispensável um machado de emergência na cabina de um avião? Para partirem o vidro em caso de amaragem, ou quiçá o da vitrina do extintor?
E deve ser um machado mais para a machadinha, senão o piloto tinha ficado (ainda) mais maltratado.
E é caso para dizer que, muito provavelmente, o machado à mão de semear terá sido o que plantou a ideia assassina…
É mais uma machadinha, de facto. É, digamos, um recurso residual, Uma das situações referidas em acções de formação é, por exemplo, obter acesso, partindo (rasgando) com ela painéis da cabina, que não da fuselagem, claro, a espaços onde se perceba haver fogo – o caso de incêndio com origem em cablagem eléctrica – por forma a combatê-lo quanto possível na origem.
Uma machadinha, é certo, mas não tão “inha” quanto isso.
Para a próxima e, com base em “novos desenvolvimentos” ainda virá dizer que afinal foi com uma motoserra que, por sorte, não conseguiu pôr a trabalhar. 😅
A redação finalmente despediu o estagiário a recibos verdes, e entregou a chave do tasco à Inteligência Artificial. Mas não foi uma IA qualquer. Foi um algoritmo treinado exclusivamente no arquivo do Correio da Manhã.
Dia 30 de Setembro: «Homem assassinado de forma violenta».
A Inteligência Artificial recebe o prompt do editor: “Gera-me aí uns cliques sobre um óbito na Ericeira, mas mete sangue que a malta gosta de excitação.”
Dia 1 de Outubro: «Morto com empurrão e facadas».
A máquina achou que “violento” era muito vago. Faltava ali coreografia. Empurrão e facadas! Lindo. O algoritmo a dar tudo, a criar o guião do próximo John Wick em versão saloia.
Dia 2 de Outubro: «Causas naturais».
Alguém no jornal finalmente tropeça no relatório da autópsia e escreve no teclado em pânico: “Olha lá, ó ChatGPT, afinal o homem morreu com um enfarte! Corrige essa merda sem parecer que somos uns aldrabões incompetentes.”
Resultado gerado? Causas naturais. Zero pedidos de desculpa. Limpa-se o ecrã, siga para bingo.
A única “inteligência” que há nisto é a palavra no nome do software, porque nas redações a malta já desligou o cérebro há muito tempo. A IA não veio roubar o trabalho aos jornalistas. Veio só automatizar a estupidez a uma velocidade que o cérebro humano, limitado pela vergonha na cara, simplesmente não consegue acompanhar.
IA, neste caso, só pode significar informação adulterada.
Com minúsculas.
Estamos em Portugal, perante dez milhões de cabecinhas pensadoras é natural que a IA fique alucinada.
Desculpe, mas não.
>Nada adulterado e tudo de maior credibilidade.
depois das facadas, constatou-se que morreu de morte natural.
E então, onde está a admiração?
Pelo que sei, a sorte mais natural de um esfaqueado é morrer.
Estranho seria depois de esfaqueado morrer de AVC.
Acho eu, mas não juro. Não sou assassino nem médico legista.