(…)
Ou poderemos Abril ter perdido
O dia inicial inteiro e limpo
Que habitou nosso tempo mais concreto?
Será que vamos paralelamente
Relembrar e chorar como o verão ido
O país linear e transparente
E sua luz de prumo e de projecto?
in ‘Lagos II’, 1975
Sophia de Mello Breyner Andresen


Revejo-me por inteiro na tua escolha, tão oportuna.
Nunca me senti tão desiludida. Nunca.
E vão duas. A palavra é mesmo essa: desilusão, a antecâmara da desesperança.
Neste momento já se me foi a esperança, Teresa. Não sei com que bela notícia o governo me irá brindar no dia seguinte, já que respeito pelos cidadãos é zero.
Onde está o 25 de Abril!
Onde está a alegria de todos os anos expandirmos a nossa alegria, na comemoração desta data que nos tirou da mordaça sempre instalada.
Onde estão os cravos na lapela de todos nós, quando saiamos á rua e íamos logo bem cedo à missa e agradecermos a Deus por afastar os que nos oprimiam as opiniões e a liberdade das decisões.
Onde estão os palcos montados, nas praças de todas as cidades, para numa tarde, recordar trinta e oito anos, numa manifestação festiva, com gritos de viva a liberdade e 25 de Abril sempre.
Onde estão os comandantes de Abril, para nos incentivar e fazer acreditar que o 25 de Abril, veio para ficar e comandar os ideais dos homens que deram a vida por um país livre e democrático.
Custa ver os nossos políticos, a maioria dos quais, aquando de Abril de setenta e quatro ainda usavam fraldas (de pano), estilhaçar em cacos irrecuperáveis as conquistas ardorosamente tomadas e deixar o povo sem alegria em vir para a rua e com um brilhozinho nos olhos, cantar as melodias primaveris que marcaram Abrir e descobrir que uma gaivota voava, seja no mar, ou perto de nossa casa.
Ou que Grândola vila morena, era uma localidade bem no profundo Alentejo, que pouco de nosso já tem, vendido ao desbarato aos estrangeiros, que fazem de nós gato-sapato.
Ou que lembrar Abril, é lembrar Zeca Afonso, cantando de mãos nos bolsos, mostrando que não tardava nada, que mais cedo ou mais tarde nos iam aos bolsos.
Custa ver os nossos políticos, muitos deles brotaram com o 25 de Abril, fazerem discursos de circunstância e não conseguindo esconder que o povo, lê nos seus olhos que o 25 de Abril, é hoje a Troica, que nos sufoca e nos afasta dessa conquista a cada dia que passa.
Onde está o 25 de Abril, sem homenagens a Salgueiro Maia. Sem homenagens aos militares de Abril que trocaram as balas por cravos no cano das espingardas.
Será que o 25 de Abril de 1974, morreu em Abril de 2012, numa profunda nostalgia que afasta o povo de acreditar que 25 de Abril é sempre!
Onde está o 25 de Abril?
Boa pergunta. Abril não significa nada para muita gente. Citando Salgueiro Maia “Como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos”.