A Animação é para crianças (ou não) – 1


João Campos,

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A Fuga
Título original: Flugt
Realização: Jonas Poher Rasmussen
Argumento: Jonas Poher Rasmussen e Amin Nawabi
Produção: Vários
Ano: 2021
Duração: 90 minutos
Países: Dinamarca, França, Noruega, Suécia

Uma vez que ainda é possível vê-lo em algumas salas de cinema portuguesas, começo esta série com Flee.

Filme aclamado do dinamarquês Jonas Poher Rasmussen, Flee conta a história real de Amin Nawabi e da sua fuga de um Afeganistão mergulhado na guerra civil de 1989-92. A animação magnífica e vibrante surge intercalada por breves passagens com imagens reais, de arquivo, do que era a vida em Kabul nos anos 80, da transformação trazida pela guerra civil, da vida dos refugiados numa Moscovo pós-soviética e das tentativas desesperadas, quando não mortais, da fuga da opressão russa para o sonho de uma vida melhor na Europa democrática.

Num registo que combina com mestria a narrativa e o documentário, vamos acompanhando Amin, já adulto e a viver na Dinamarca com o companheiro, Kasper, a narrar a um amigo realizador a história da sua vida. Vemo-lo em criança a correr pelas ruas da capital afegã, no seio da sua família; acompanhamos a fuga com a mãe, as duas irmãs e o irmão, de uma Kabul sitiada, onde os jovens no fim da adolescência eram capturados e forçados a combater e onde qualquer diferença era motivo de vergonha e de castigo; observamos a vida da família numa decrépita e violenta Moscovo nos anos que se seguiram à queda da União Soviética; e seguimos as tentativas do seu irmão mais velho, a viver na Suécia, para conseguir fazer a sua família chegar bem a um país seguro. Amin nunca contara aquela história antes, e à medida que a vai narrando vai percebendo, e nós com ele, como aquela longa fuga em criança e adolescente marcou e condicionou o homem em que se viria a tornar, as opções que tomou na sua vida adulta, e o preço que pagou, ele e a família, pela sua segurança.

Todos os nomes são fictícios, claro, mas em momento algum esse pormenor retira impacto ao relato. Pois aquela história é a história de muitos afegãos que fugiram do seu país, daqueles anos até ao presente. E poderia também ser a história de inúmeras pessoas de todo o mundo, que fugiram dos seus países natais em busca de algo tão elementar como um tecto e uma vida sem terror. Dificilmente um filme poderia ter um tema mais actual do que este.

Flee esteve nomeado, entre muitos outros prémios, para três Óscares: Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Documentário, e Melhor Filme de Animação. Perdeu este último para mais um filme da Disney, claro – a categoria parece atribuída à partida para qualquer filme da Disney ou da Pixar. É pena: Flee é um filme extraordinário, e mostra na perfeição como a animação pode ser utilizada para narrar histórias adultas com uma carga emocional tremenda. Ainda será possível vê-lo nas salas de cinema portuguesa, e não o poderia recomendar mais.

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9 comentários em “A Animação é para crianças (ou não) – 1”

  1. «La manipulación consciente e inteligente de los hábitos y opiniones organizados de las masas es un elemento de importancia en la sociedad democrática. Quienes manipulan este mecanismo oculto de la sociedad constituyen el gobierno invisible que detenta el verdadero poder que rige el destino de nuestro país. Quienes nos gobiernan, moldean nuestras mentes, definen nuestros gustos o nos sugieren nuestras ideas son en gran medida personas de las que nunca hemos oído hablar.»
    Noam Chomsky

      1. só encontro quem não perceba o mundo onde vive
        tempo perdido a chamar a atenção para o que nos impigem
        paciência!

  2. Penso ser importante que uma série como esta valorize e dê destaque ao pessoal responsável pela animação, mesmo que, como no caso em apreço, os estúdios europeus estejam muito atrasados no investimento em marketing e publicidade (o que significa que encontrar informação significativa seja complicado) e que filmes como este só sejam possíveis em co-produção, envolvendo gente de vários estúdios e mesmo freelancers.

    Assim, sem querer ser injusto, vai daqui um aplauso para a Sun Creature.

    1. Em teoria concordo com o seu apontamento, mas não pretendo tornar os créditos demasiado exaustivos. Mesmo a parte da produção torna-se um pouco difícil: regra geral é fácil identificar os estúdios japoneses ou americanos, mas os filmes de animação europeus tendem a envolver vários estúdios de diferentes países. Mesmo os (excelentes) trabalhos do Cartoon Saloon são esforços muito alargados. Daí destacar apenas realizadores, argumentistas, e os países de origem.

      E sim, sei que por vezes surgem algumas surpresas quando vemos a equipa de animação. Por exemplo, fiquei agradavelmente surpreendido quando descobri que a equipa de animadores que trabalhou com Hayao Miyazaki no excelente “Nausicaä do Vale do Vento” incluiu Hideaki Anno, criador da minha série televisiva preferida (animada ou não), “Neon Genesis Evangelion”. E revendo “Nausicaä” com isto em mente, tenho praticamente a certeza de ter identificado pelo menos uma das sequências animadas por Anno.

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