Estávamos nos idos de 2013 e António José Seguro liderava o PS após a derrota eleitoral que se seguiu à chamada da Troika. Cavaco Silva, então Presidente da República, propôs um Compromisso de Salvação Nacional que juntasse os três partidos mais votados, o PSD, CDS e PS, para que, com um governo alargado, se garantisse a estabilidade necessária para ultrapassa a grave crise em curso. Apesar de o PS ter inicialmente mostrado disponibilidade para iniciar o processo de diálogo, logo depois voltou atrás e essa solução governativa nunca viu a luz do dia, deixando para o PSD e CDS o ónus das medidas negociadas com a Troika, pelo próprio PS.
O impulso inicial reflectia a abertura de António José Seguro a partilhar os custos governativos da situação criada pelo seu próprio partido. A recusa que se seguiu foi o resultado da imensa pressão que as elites do PS colocaram no líder do seu partido. Se no impulso inicial podemos observar o sentido de estado que o agora candidato à Presidência diz ter, na recusa que se seguiu concluímos que esse sentido de estado soçobrou perante a pressão de um momento difícil.
A comparação é esdrúxula, mas nessas horas que em o mundo parece ter-se combinado contra um indivíduo, recordo-me sempre da expressão “the finest hour” que, depois de ter sido usada por Churchill num dos seus memoráveis discursos, ficou para sempre associada à Batalha de Inglaterra e à coragem dos que se recusam render-se sem combate. A proposta do Compromisso de Salvação Nacional colocou António José Seguro na sua “finest hour” e ele arriou a carga.
Vivemos momentos turbulentos e apesar do que aqui escrevi há dias, não posso votar num candidato com esse currículo.

Estes debates atingiram o pico do que pode e deve ser considerado de pura inutilidade. Com a mesma relevância de um qualquer “Big Brother”. Cada um deles, é um prego no caixão do descrédito.
Apenas num mero contexto voyeurismo se pode compreender o interesse, mesmo que reduzido, de quem os consegue ver na íntegra.
São produtos televisivos desenhados pelos media. Não são menos legítimos por isso, mas foram feitos para proporcionar audiências. O mercado também já não está virado para debates de 3 hr como o do “olhe que não”.
‘de derrota em derrota até à derrota final’
E no longo prazo já cá não estaremos.
Havia melhores explicações que essa que deu para não votar em José Seguro… A Troika negociou a mesa com o PS e o PSD através do Eduardo Catroga, o tal que quis colher louros de ter sido ele e o seu partido responsáveis por uma boa negociação a saída da mesma, depois mais tarde reconheceu os erros dessa negociação.
Essa é a cassete da elite do PS. Apesar de toda a situação ter sido causada pelo PS, sendo o PM “aquela pessoa” como foi referido pela ex-companhia de férias, o ónus das dificuldades causadas deveria ser atirado para o PSD. Mesmo com um sentido de decência que não o recomendava, Seguro (cujo nome é uma anti-metáfora) foi-se abaixo das canetas e claudicou perante a pressão do partido. E agora Inês é morta.
Não, não reconheceu coisa alguma. Fingiu que não tinha nada que ver com o assunto!
O “Ónus das Medidas” e a Amnésia Seletiva: É tudo muito bonito, mas o drama do “ónus das medidas negociadas pelo próprio PS” só existe na cabeça de quem tem amnésia seletiva.
O PS, na altura, viu o que o Governo PSD/CDS estava a fazer: transformar um programa de ajustamento numa orgia de austeridade ideológica que estava a afundar o país.
Queriam o PS na foto para quê? Para serem cúmplices da destruição do Estado Social? Isso não é “sentido de Estado”, é assinar o atestado de óbito. O PS teve a coragem e o sentido de Estado de dizer: “Não, obrigado. Não vamos legitimar esta loucura. Há alternativas.” E como se viu aquela teoria acéfala de “ir além da troika ” foi comprovadamente estúpida. Felizmente foi corrigida.
Eu sei que tem a cassete encravada no deck, mas convido-o a googlar as seguintes entradas:
“PEC 4”
“MoU”
Este último também conhecido por Memorando de Entendimento.
Realmente para alguém que sabe que a cassete está encravada no deck, até parece que veio de propósito armar-se em tuga-analista para falar de coisas que, no fundo, se resumem a isto:
“PEC 4” (Programas de Estabilidade e Crescimento): A austeridade que nos levou à beira do abismo, chumbada em 2011, que fez cair um Governo, mas cujas medidas, ironicamente, acabaram quase todas por ser aplicadas. Um déjà-vu amargo que só interessa a quem não tem memória ou quer ter razão à força.
“MoU” (Memorando de Entendimento): Um pré-contrato sem peso legal, uma espécie de “promessa de casamento” entre partes que não querem formalizar a coisa a sério. É a versão em papel timbrado do “depois falamos com calma”. Serve para dar ar de importante e adiar o problema, o que, convenhamos, é a modalidade favorita de muita gente.
Se calhar é melhor guardar o seu dicionário de termos da Troika junto às suas botas Mou (é que por acaso, googlar também dá para chanatos caríssimos, veja lá!).
Realmente, contra mitos não há argumentos. Fica ainda a faltar a explicação gravada sobre o motivo de o governo PS ter chamado a Troika, mas não fica obrigado a revelar a teoria.
Convém ter memória: o Padrinho (Basílio Horta dixit) chamou-o lá a casa e deu-lhe um valente puxão de orelhas. Saiu com o respectivo entre as pernas!
Fez o que achou melhor, ou que conseguiu.
Como já por aqui disse, não tenho grande opinião de Seguro, também por esses motivos que o Paulo Sousa elenca, por ele ser um daqueles que deita a toalha ao chão quando cheira a sangue ou a cocó. Por questões de dignidade, diz-se; mas a dignidade de um político, para lá de ser um conceito um tanto “sui generis”, não consistirá exactamente no contrário, em lutar até perder ou ganhar? E mais ainda se estão em jogo questões que implicam indignidades…
Mas adiante. O facto é que, pelo menos até ao momento, ele foi o único que enfrentou com verdadeira inteligência e (sarcástico) aprumo o Ventura – o que me surpreendeu muitíssimo, e aposto que ao Ventura também. Portanto, talvez o conceito de dignidade de Seguro se tenha tornado com o tempo menos prima-dona e mais capaz, politicamente falando.
Quanto ao voto, há que levar também em linha de conta – enfim, eu levo – as consequências de uma escolha por simpatia ideológica ou de personalidade; mas “inútil” perante a maior das ameaças (a nossa pequena “batalha de Inglaterra”, digamos) que é a possibilidade de ajudarmos a eleger o Nacional-populista.
E perante essa possibilidade eu votaria até numa alforreca propriamente dita, quanto mais num sujeito um bocadinho mole e gelatinoso, mas que afinal também sabe picar e ser venenoso.
Há que esperar para ver como vão decorrendo as prestações. Seja como seja, tudo parece indicar que a ameaçadora alternativa não será entre Ventura e Seguro…
Epá, ter um debate com Ventura como critério é dar-lhe demasiada importância. E nem achei que tivesse estado assim tão bem.
Nunca se dá demasiada importância a um indivíduo como Ventura, subestimar este tipo de pessoas é um erro que se pode pagar muito caro. E os debates com Ventura são, na minha opinião, de facto um critério nestas eleições – para mais, um critério muito importante.
Entre todos os que estiveram mal ou bastante mal nos debates com Ventura, Seguro pareceu-me, de longe, o que esteve menos mal. Pelo menos até agora.
Numa das minhas cartas para o António Costa
(conheço-o desde os três anos de idade),
disse-lhe para desafiar o António José Seguro,
então Secretário-Geral do Partido Socialista,
coisa que ele fez…
Houve um debate na televisão e o Costa ganhou.
Daí até o Partido Socialista mudar de mãos
foi um instantinho.
Em política, não há lugar para arrependimentos…
Infelizmente, o António Costa não correspondeu
às expectativas.
Para piorar, o País teve de lidar com a “geringonça”, um conluio entre o Partido Socialista, o Partido Comunista Português
e o Bloco de Esquerda. Asneira!
Enfim…
Já passou.
P. S.: O António José Seguro Presidente da República e o outro António a ver?
João Barros da Costa