Treze anos depois da minha última visita, não foi só a paisagem que mudou em Pequim, Xangai ou Cantão. Foi também a forma de vida, a estrutura social e o modelo comportamental dos chineses. Tive, durante um mês, a sensação de que estive a viajar pelo futuro e, garanto-vos, não é uma sensação fácil de digerir.
Uma classe numerosa de novos ricos e yuppies emerge na China com grande fulgor.
Xangai é o novo paraíso do capitalismo e pelas suas ruas circula um elevadíssimo número de automóveis topo de gama.
No antigo quarteirão francês, chinesas elegantíssimas, vestindo modelos das marcas europeias mais conceituadas, encaminham-se para os restaurantes, acompanhadas de executivos vestidos a rigor, a maioria deles provenientes de Taiwan. A escassos metros, deserdados da fortuna vasculham os caixotes do lixo em busca do sustento do dia.
Riqueza e miséria convivem paredes meias, numa demonstração de que o capitalismo chinês não é diferente do ocidental, apenas difere nas roupagens.
A aproximação política entre a Mãe China e o filho rebelde (Taiwan) fez-se através do capital que se instalou em força nas ruas da grande metrópole e no caminho para o aeroporto, onde fica o parque tecnológico de Zhangjiang.
Ao passar naquela zona, não deixo de recordar que ainda em meados dos anos 90 toda a área era ocupada por campos agrícolas e que os arredores de Xangai ou Pequim ainda apresentavam um ar medieval. Não me restam dúvidas que a China está a mudar a uma velocidade vertiginosa. Regresso ao centro da cidade, a bordo do comboio-bala – o mais rápido do mundo. Foi construído gratuitamente pela Siemens, na tentativa de convencer os chineses a adoptarem-no.
Pela janela vejo viadutos que se sobrepõem, torres gigantescas inspiradas na arquitectura ocidental, hotéis de 5 estrelas das mais prestigias cadeias internacionais, o bairro de escritórios de Pudong, estaleiros imensos preparando a Expo-2010, lojas das mais prestigiadas marcas europeias e americanas e duvido se não terei acabado de chegar a Nova Iorque. Os painéis publicitários, piscando em milhões de lâmpadas multicores onde se lêem caracteres chineses, desfazem-me todas as dúvidas.
Apenas uma questão me fica a bailar nos neurónios: o que levou os chineses a abandonarem o seu isolamento secular, a prescindir da sua impermeabilidade à nefasta influência estrangeira e abraçar, de peito aberto, a volúpia ocidental. Admito que ainda vá demorar alguns anos a encontrar a resposta.
Não me restam, porém, quaisquer dúvidas de que a China, que visitara pela última vez em 1995, está enterrada. Ou talvez não…

Mergulho na cidade velha de Xangai – berço do capitalismo chinês – e recupero uma parte da China de outros tempos. Naquele espaço respira-se sensualidade, ouve-se o barulho inconfundível das pedras de mah-jong e pairam no ar os cheiros de uma cultura milenar. Mas onde antes estavam casas de chá, se fumava ópio ou jogava xadrez, agora há estabelecimentos de marcas europeias conceituadas, misturadas com aquilo a que se pode chamar comércio tradicional. Apenas as fachadas, hábil e pacientemente retocadas, nos devolvem a poesia da dama de Xangai. Nessa época, porém, Xangai já consumia mais energia eléctrica que Londres ou Paris. Decido ir jantar ao Peace Hotel (talvez o mais emblemático hotel da China) para me deixar envolver pelo espírito dos anos 30, com o som de uma orquestra de jazz em fundo. Azar! Está encerrado para obras e só reabrirá nas vésperas da Expo-2010. Afiança-me o guia que não vale a pena pensar em fazer reservas, porque a lotação está esgotada para todo o período da Exposição.

Há um buraco onde devia haver uma fotografia. O que se passou?
Xangai! Vivi uma odisseia na segunda vez que lá estive, hospedado no célebre Peace Hotel, e que culminou na reportagem da minha vida, escrita na primeira pessoa.
A par de Praga, guardo Xangai num cantinho especial das minhas melhores memórias, lugar íntimo que reservo para as cidades que me preenchem para lá do que é visível, respirável e palpável.
A fotografia é impressionante: autêntico cenário de ficção científica num país que ainda funciona de forma medieval em muitos e importantes vectores sociais.
Estive lá pela primeira e última vez há 13 ou 14 anos também. Escrevi recentemente no meu blog um artigo a esse propósito. A verdade é que a globalização também lá chegou, como não podia deixar de ser, até porque, no fundo, aquilo que se globalizou foi a capitalismo enquanto sistema. As liberdades também chegarão um dia mas o problema aí será a possibilidade de desmembramento com aconteceu com a ex URSS.
Um desmembramento que poderá começar pelo Tibete e Mongólia, regiões pouco povoadas. A China perderá então uma pequena parte da sua população e, com ela, uma gigantesca parte dos seus campos cultivados e gado de pastagem. Um imbróglio de todo o tamanho, para Pequim.
Não consigo ver a primeira imagem, não existe.
Uma nota caro Carlos, escreveu sobre o parque tecnológico de “Zhangjiang”. Suponho que isso tenha sido copiado do termo inglês. Uma vez que os ingleses usam “zh” quando querem ler foneticamente “j” e usam o “j” quando querem ler foneticamente “dj”, suponho que o nome do parque tecnológico, em português, se deva escrever “Jangdjiang”.