
Ando sempre à procura da crónica perfeita. Por vezes encontro-a: só acontece em ocasiões raras. Aí celebro, com júbilo de leitor veterano e exigente.
Ontem encontrei uma dessas preciosidades. Num histórico jornal espanhol, o ABC. Assinada pelo poeta e romancista Ángel Antonio Herrera, sob o título “Perderlo todo”.
Gostei tanto que faço questão de a reproduzir aqui, com a devida vénia, partilhando-a convosco. Tendo arriscado eu próprio traduzi-la nos parágrafos que vão seguir-se.
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Perder tudo é uma experiência extrema que imaginamos impossível até ao dia em que toca ao vizinho. Aconteceu, nestes dias sombrios. De repente há quem perca a casa onde nasceu, o relógio do pai, a cadeira de baloiço da mãe, o álbum onde ainda se vislumbrava um menino de calções no recreio com o coração cheio de esperança inocente — um menino cujo nome poderia ser o nosso.
Há objectos que só valem dez euros e outros que não têm preço, pois contêm uma vida inteira. O fogo é democrático na sua ferocidade: não faz distinções. Para as labaredas, uma tela de Velázquez e uma fotografia de Primeira Comunhão valem exactamente o mesmo.
Existe algo obsceno na contemplação de uma casa em chamas. Ardem uns móveis, mas sobretudo queima-se o próprio tempo. Isso não aparece nos telediários: há sempre uma história dentro da história que não contamos pois o que é destruído inclui segundas-feiras, aniversários, vésperas de Natal, reconciliações, sestas de Agosto, luas românticas e aquela marca de um lápis na porta onde um pai costumava medir o tamanho dos filhos.
A arquitectura invisível de uma família é consumida pelas chamas: nenhuma apólice de seguro pode remendar ou atenuar isto.
A dimensão de um incêndio não se mede por metros, mas em memórias. Em rigor, a vida vai-nos incinerando com lentidão. Primeiro perdemos os pais, depois a casa da infância, a seguir dois amigos que sabiam quem um dia fomos. Surge então um pirómano para completar o serviço. Tarde ou cedo damos por nós a viver entre ruínas invisíveis, com a inabalável obstinação de quem vai deixando flores numa janela, mesmo sabendo que nada é tão precário como uma janela.
Talvez viver consista nisto: aceitarmos que somos uma fogueira invertida. Vamos perdendo tudo aos poucos — juventude, pais, amigos, certezas, o corpo que tivemos. Apesar disso, mantemos o hábito de acender uma lâmpada em cada noite.
O fogo não destrói paisagens ou lares, mas biografias. Cada homem com um incêndio na sua existência é um exilado de si próprio.
Já sabemos que o negro é também a cor do Verão. Todos somos ricos até ao dia em que a chama da desventura trata de nos acertar as contas.

Há textos que falam do incêndio e há textos que, a pretexto do incêndio, acabam por falar da vida. Este pertence à segunda espécie. Começa entre cinzas, mas não termina nelas.
Uma casa pode desaparecer numa noite, mas não desaparecem necessariamente as histórias que lá viveram. O relógio do pai pode deixar de existir, a cadeira da mãe pode virar carvão, as fotografias podem reduzir-se a uma mancha irreconhecível. Mas há qualquer coisa que permanece: a lembrança de quem fomos, o amor de quem nos ensinou a sê-lo, a memória das pessoas com quem partilhámos aqueles objectos.
É certo que o fogo não faz distinções. Uma obra de arte e uma fotografia de infância ardem com a mesma facilidade. Mas a vida humana tem uma capacidade admirável para contrariar essa igualdade das chamas. Aquilo que o fogo leva pelo lado de fora pode, muitas vezes, ser reconstruído por dentro.
Uma casa refaz-se. As paredes levantam-se. Recomeça-se. É verdade que nada substitui exactamente aquilo que se perdeu, mas talvez essa seja uma das grandes virtudes humanas: não precisamos de recuperar o passado para voltar a ter futuro.
A crónica fala da arquitectura invisível de uma família. Mas essa arquitectura não depende apenas das paredes. Está nas pessoas. Talvez por isso a imagem da “fogueira invertida” possa ser lida de outra maneira.
Sim, vamos perdendo coisas ao longo da vida. Mas também vamos ganhando. Perdem-se os pais, mas ficam os ensinamentos. Partem os amigos, mas fica aquilo que vivemos com eles. A juventude termina, mas começa a experiência. O corpo muda, mas a pessoa pode tornar-se mais inteira.
A vida não é apenas uma sucessão de incêndios. É também uma sucessão de reconstruções.
Há uma tendência para pensarmos que recomeçar é voltar ao ponto de partida. Não é. Quem reconstrói uma casa depois de um incêndio já não é exactamente a pessoa que vivia na casa anterior. Levanta-se com outras mãos, outras precauções, outra consciência do que importa. E talvez descubra, nesse processo, que algumas coisas que julgava indispensáveis eram apenas coisas.
No fim, aquilo que importa não é impedir todas as perdas, mas conservar a capacidade de acender a luz depois delas.
É por isso que a imagem mais bonita deste texto não é a da casa em chamas. É a da lâmpada que continua a acender-se todas as noites.
Amanhã logo se verá. Hoje, porém, há luz.
E talvez a esperança seja precisamente isto: saber que, mesmo depois de perdermos muito, ainda poderemos construir alguma coisa.
Às vezes uma casa. Às vezes uma família. Às vezes uma vida inteira.
E quase sempre, contra todas as previsões do fogo, uma janela por onde volta a entrar o sol.
É de facto um belíssimo texto – muito obrigada pela partilha.
Mas também é uma melancólica constatação.
Viver é ir perdendo tudo aos poucos, sem dúvida, e acabar a acender a luz apenas por hábito – e mesmo isso quem tenha a sorte de ter escapado minimamente incólume aos incêndios que lhe foram tocando…
Podemos ser fugazmente felizes, e até muito felizes, e até sucessivamente felizes.
Mas o sentido da vida, a existir, só pode estar fora de nós próprios, ser externo a este ciclo inevitável de perdas e subtrações acumuladas, a esta “insustentável leveza do ser” a que estamos por natureza condenados.
Zebra, quanto mais estivermos conscientes disso tanto mais apreciaremos os fragmentos de felicidade que nos vão cabendo ou sobrando no decurso dos dias.
Sabedoria é isto também. Direi até: é sobretudo isto.
Nem mais. Parece contraditório, mas é isso mesmo.
Muito bom, de facto.
Obrigado, Pedro.
Obrigada, Pedro.
Bela crónica!
É, na realidade, um texto excelente, Pedro. Já li, reli, e voltei a ler e o seu encanto aumenta a cada leitura.
Um excelente texto, que podia ter como fundo musical o “La casa se queda sola”, do saudoso Paxti Andion.
Forte abraço
No meu comentário impõe-se a correcção, Patxi(Andion) e não Paxti.
Abraço