Extraordinário. Um deputado, por sinal vice-presidente do grupo parlamentar do seu partido e representante do Parlamento no Conselho Superior de Segurança Interna, apropria-se ilegitimamente dos gravadores de dois jornalistas – que poderão conter matéria protegida pelo sigilo profissional, o que só agrava o seu acto, claramente violador da liberdade de imprensa. Em vez de receber críticas dos seus pares, recebe aplausos e pancadinhas cúmplices nas costas, na melhor tradição do nacional-porreirismo luso. E eis que, como por um passe de mágica, o ónus da culpa inverte-se: o dedo acusador passa a ser apontado aos jornalistas. “Isso é torpe e jornalismo-armadilha“, grita Miguel Vale de Almeida, horrorizado. “Um político prudente não se submete voluntariamente a prováveis emboscadas jornalísticas (a que a imprensa ‘tablóide’ nos habituou)”, adverte Vital Moreira, um pouco mais contido.
Um dos autores da Minoria Relativa, Diogo Augusto serve-se até do episódio para chamar “imbecis” aos jornalistas que fizeram a entrevista. Profissionais qualificados, que bem conheço e a quem de forma alguma encaixam os termos injuriosos do autor daquele blogue, apostado em despejar munições contra a imprensa que não faz vénias ao poder. “Não me parece nada sensato toda a gente estar a atirar-se à garganta do Ricardo Rodrigues sem dizer uma única palavra do comportamento lastimável dos jornalistas tanto na condução da entrevista como na publicação do vídeo tal como está“, refere este bloguista. Que poupa o deputado mas parece achar sensato “atirar-se à garganta” de jornalistas que cometem o pecado de fazer perguntas incómodas. Sem perceber que, com esta atitude, transforma a liberdade de imprensa numa flor de retórica. Coisa de somenos.
Estas almas sensíveis, talvez com saudades dos tempos em que por cá vigoravam mais brandos costumes, gostariam que as entrevistas aos dirigentes políticos fossem tão cordatas como um chá com scones num clube londrino. E no fim de tudo ainda chamam a isso liberdade.
ADENDA. Faça-se justiça: ainda há vozes livres neste PS. A de David Erlich, por exemplo.

Por muito duro e reprovável que tenha sido o comportamento dos jornalistas da Sábado, nada justifica o comportamento do deputado Ricardo Rodrigues, que se tivesse um pingo de vergonha já se tinha demitido. No mais, acho que o mesmo provou não ser muito inteligente ao aceitar dar uma entrevista a jornalistas da Sábado sem sequer se ter preparado para a mesma, porque lendo a Sábado é fácil constatar que aquela revista é mais do mesmo do Correio da Manhã, demasiado sensacionalismo.
Para a próxima, o deputado Rodrigues deverá dar uma entrevista ao jornal ‘Acção Socialista’. Nada sensacionalista, por sinal.
Não posso opinar sobre o jornal “acção socialista”, porque não conheço sequer. Mas, isso não invalida no entanto a fraca qualidade dos profissionais da revista Sábado em relação por exemplo com os seus colegas da revista Visão.
ps: atenção que eu não estou a defender o deputado.
O ideal seria que, antes de entrevistarem um membro do Governo ou da cúpula do PS, os jornalistas submetessem as perguntas, para aprovação, a uma comissão composta, por exemplo, pelos drs. Silva Pereira, Francisco Assis e Santos Silva…
Ou até mostrar o cartão de filiado no partido, para não haver dúvidas.
Pedro não é no conselho superior do Ministério Público que ele é representante?
Do Conselho Superior do Ministério Público não sei. Para o Conselho Superior de Segurança Interna foi designado pela Resolução 38/2010 da Assembleia da República, de 23 de Abril.
Bandidos! Bandidos estes jornalistas! É evidente que foram os gravadores, chocados com as perguntas, que saltaram para dentro dos bolsos das calças do deputado, que depois se levantou e foi embora. Ou então isto é uma campanha negra-inventona-cabala contra os Açores e contra este deputado, desencadeada pelo Alberto João Jardim, para ajustar contas com o orçamento da Madeira.
Jardim deve aplaudir Rodrigues. Só pode.
Vale de Almeida talvez venha a provar do amargo que distribui. Não lho desejo, mas há muito que me cheira que vai acabar mal a sua experiência ‘contra natura’: ou vai desiludir-se, como outros antes dele, de se ter metido com quem se meteu, ou vai perceber que, em política, os ventos são imprevisível e transformam os “grandes princípios” em ‘boomerangs’. Especialmente para os que acabam de aterrar e julgam estar em terra firme.
Ok, agora que já deitou tudo cá para fora, aproveite o seu próprio link e vá lá ler o que eu escrevi antes que diga mais disparates.
Agora, até eu me senti tentado. Mas, se é só por causa disso, é capaz de não valer a pena.
Uns são “imbecis”, outros só dizem “disparates”. Aconselho-o a não chamar isso ao deputado RR, pelo menos com um gravador à frente.
Irra! Que mania irritante de distorcer as coisas. O post ainda percebo que tem mais do que 5 linhas, mas conseguir deturpar um comentário de 2, é obra.
Da facto, tenho dificuldade em entender quando vejo alguém defender o indefensável.
Embora correndo o risco de fazer figura de urso perante a suprema elevação dos frades do convento incluindo o papa Soares faço 3 perguntas: Alguém obrigou aquele marginal a dar a entrevista? Alguém o obrigou a responder às perguntas? Não podia esse exemplar refugo retirar-se quando bem entendesse? Por Assis me fico com a mão na carteira.
Os jornalistas são uns marotos. Não fossem os nossos deputados, e nem sei o que seria de nós. Não merecemos o Parlamento que temos.
Se o deputado Rodrigues fizesse desaparecer o défice com a rapidez com que surripia gravadores, Portugal estava agora ao nível da Alemanha.
Ao nível da Alemanhã? Com aquele gesto perfeito? A esta hora estava a Alemanha a pedir-nos um bail out.
*Alemanhã, ou seja, eu a escrever com sotaque.
O pior cego afinal não é o que não quer ver: é o que finge não ver para defender o indefensável. Já lá fui fazer o comentário que acho que aquele senhor precisa de “ouvir”. mas duvido que acorde desta espécie de hipnose que está a afectar a capacidade de pensarem
Pedro, a cosa nostra socialista é para levar a sério.
Protegem-se acirradamente para além do Certo e do Errado, para além do Justo e do Injusto, para além do Bem e do Mal. Exemplifica-o bem o célebre Mega-SIS de bolso dos assessores do primeiro-ministro. Eles perscrutam diligentemente no histórico político e até íntimo dos oponentes o mais ínfimo detalhe de contradição e fragilidade. Depois espetam-no-farpa oportunamente no costado adversário.
É dirigente socialista? Prevaricou? Pois está automaticamente absolvido. Receberá um bónus da trupe protectora, cujas figuras aparecerão nos media naturalíssima e alternadamente. Desenrolar-se-á uma torrente diogos augustos opinadores a babujar insultos à parte fraca, invertendo o ónus.
Nada como ficar assim à parte. Escapar fedendo. Beneficiar de almofadas de penas e colchões de água, mesmo quando se cai grosseiramente.
Entretanto, o País, a Ética, a Verdade, que se danem.
Como é óbvio, assino por baixo.
A sede de aparecer, de se mostrar, de ser notado, de dizer umas coisas, pode ter estas consequências.
Os jornalistas, esses malvados!, fazem perguntas chatas.
A solução, óbvia!, é roubar-lhes os instrumentos de trabalho.
Quem faz isso, pelos vistos, até merece aplauso na Assembleia.
Como dizia o Jô Soares – “Você não quer que eu volte!”