Ao contrário do que é corrente afirmar-se, a Justiça nunca foi cega e deixou há muito de ter os olhos vendados. Témis, a deusa da Justiça, da Moral e da Ordem do Panteão grego, é uma titânide e representa uma herança do mais forte simbolismo em toda a vida judiciária.
Conforme a teogonia (ou genealogia dos deuses) na mitologia pagã, titãs e titânides são os filhos e as filhas de Urano e Geia, a mais antiga geração de deuses. Témis possui uma sabedoria superior à das restantes divindades e, por isso, na Antiguidade, os gregos reconhecem-lhe o direito de ter assento ao lado de Zeus, de quem é esposa e conselheira.
Témis é a criadora dos oráculos, das leis e dos ritos, que emite para valerem tanto para os deuses como para os homens, através da grande influência que exerce. A sua acção verifica-se em todas as vertentes da vida, caracterizada pelo papel que lhe é atribuído no domínio moral e no material, simultaneamente.
Mãe de muitos filhos, como as Horas, as Parcas, a virgem Astreia e as ninfas de Eridan, a deusa grega da Justiça assiste aos nascimentos de Artemisa e de Apolo, a quem oferece o oráculo de Delfos. A sua importância coloca-a também entre as poucas divindades ligadas aos Olímpicos, segundo a tradição mitológica.
Pese embora ser rara a iconografia que se lhe conhece, Témis costuma ser representada a segurar a balança da Justiça numa mão, ou a «tábua das leis», e com os olhos vendados (para julgar sem distinção de pessoas); também é habitual vê-la com a outra mão a empunhar a espada justiceira, ou a «vara da Justiça» (com o escudo português, no nosso caso). No entanto, nas últimas décadas, a Justiça passou a adoptar a figura sem a venda nos olhos, mais de acordo com o princípio de que ela deve manter toda a atenção e ter presente a realidade envolvente, por forma a ser realmente justa.
Sinal dos tempos e da respectiva evolução social que as leis procuram reflectir e acompanhar, este pragmatismo, associado à consciência e à equidade, é o que prevalece entre nós, onde a imagem da deusa igualmente representa a Justiça: ela passa a surgir de olhos abertos e expressão atenta, retirando todo o sentido à velha máxima tradicional de que «a Justiça é cega».

Este toque de erudição veio muito a propósito, compadre. Muito mesmo.
Ainda bem, Pedro.
O João Carvalho errou a profissão. Com tantos juízes que nada percebem de Justiça, muita falta fazia este homem numa Magistratura onde impera a falta de cultura…
Isso não é um comentário, João. É amizade…
Não, não! Se fosse amizade não te queria em juiz… safa!
Nunca seria juiz dos amigos. Como não sou.
Gostei muito.
Parabéns
Obrigado, Karocha.
Excelente texto João. Apesar de discordar da conclusão que retiras no fim o toque de erudição que trouxeste (citando o Pedro) deixa-me sem vontade de te rebater. Assim fica perfeito!
Abraço.
Obrigado, André. Mas… no fim?