A deusa não é cega


João Carvalho,

Ao contrário do que é corrente afirmar-se, a Justiça nunca foi cega e deixou há muito de ter os olhos vendados. Témis, a deusa da Justiça, da Moral e da Ordem do Panteão grego, é uma titânide e representa uma herança do mais forte simbolismo em toda a vida judiciária.

 

Conforme a teogonia (ou genealogia dos deuses) na mitologia pagã, titãs e titânides são os filhos e as filhas de Urano e Geia, a mais antiga geração de deuses. Témis possui uma sabedoria superior à das restantes divindades e, por isso, na Antiguidade, os gregos reconhecem-lhe o direito de ter assento ao lado de Zeus, de quem é esposa e conselheira.

Témis é a criadora dos oráculos, das leis e dos ritos, que emite para valerem tanto para os deuses como para os homens, através da grande influência que exerce. A sua acção verifica-se em todas as vertentes da vida, caracterizada pelo papel que lhe é atribuído no domínio moral e no material, simultaneamente.

Mãe de muitos filhos, como as Horas, as Parcas, a virgem Astreia e as ninfas de Eridan, a deusa grega da Justiça assiste aos nascimentos de Artemisa e de Apolo, a quem oferece o oráculo de Delfos. A sua importância coloca-a também entre as poucas divindades ligadas aos Olímpicos, segundo a tradição mitológica.

 

Pese embora ser rara a iconografia que se lhe conhece, Témis costuma ser representada a segurar a balança da Justiça numa mão, ou a «tábua das leis», e com os olhos vendados (para julgar sem distinção de pessoas); também é habitual vê-la com a outra mão a empunhar a espada justiceira, ou a «vara da Justiça» (com o escudo português, no nosso caso). No entanto, nas últimas décadas, a Justiça passou a adoptar a figura sem a venda nos olhos, mais de acordo com o princípio de que ela deve manter toda a atenção e ter presente a realidade envolvente, por forma a ser realmente justa.

Sinal dos tempos e da respectiva evolução social que as leis procuram reflectir e acompanhar, este pragmatismo, associado à consciência e à equidade, é o que prevalece entre nós, onde a imagem da deusa igualmente representa a Justiça: ela passa a surgir de olhos abertos e expressão atenta, retirando todo o sentido à velha máxima tradicional de que «a Justiça é cega».

10 comentários em “A deusa não é cega”

  1. Excelente texto João. Apesar de discordar da conclusão que retiras no fim o toque de erudição que trouxeste (citando o Pedro) deixa-me sem vontade de te rebater. Assim fica perfeito!
    Abraço.

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