Primeiro foram-se embora os chineses. Partiram de repente, numa noite, deixando ocas as grandes lojas, antes cheias de tarecos coloridos. Depois foi-se embora o merceeiro, numa tarde o senhor Ildefonso despediu-se das velhas chorosas e partiu para a terra na carrinha Ford vermelha a deitar fumo pelo escape. A dependência do Deutsch Bank, que enchia a rua de orgulho com o seu toque cosmopolita, passou a estar de porta fechada; é preciso bater para ver assomar a cabecinha da funcionária que depois vem a chinelar, em soca de descanso, com um molho de chaves a rodopiar na fechadura. Por isso, quando se viu que uma nova loja abrira as cabeleireiras brasileiras pararam de esticar o cabelo umas às outras, as velhas enxugaram as lágrimas pelo senhor Ildefefonso e a rua toda foi espeitar a abertura da boutique dos angolanos. Espero que o facto de ao cabo de uma semana ninguém ter comprado uma capulana sequer não os faça desanimar, porque estou cansada de metáforas.
A economia na minha rua
Cristina Ferreira de Almeida,

Cristina, as coisas são o que são: há quatro anos vivíamos melhor.
É certo, Pedro, mas eu não me lembro de ver tanto desânimo à minha volta.
Uma verdadeira delícia, Cristina. Parabéns.
Obrigada, João.
Eu diria mesmo mais: Uma verdadeira delícia, Cristina. Parabéns. 🙂
Cristina,
Eu ainda sou dos que acreditam que da crise pode nascer uma rua melhor. http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/0 2/rahm-emanuel-you-never-want-serious.ht ml
Fui ver, Carlos Santos. Aprendi algumas coisas e ganhei novo fôlego. Quem me dera que também nós tivéssemos um Obama para termos a ousadia da esperança.
é por todo o lado Cristina .. e são as pequenas ruas e os pequenos bairros os mais lesados .. e mais anónimos também.
Excelente metáfora 😉
Beijinho
Texto delicioso. Registo exemplar.
A’ousadia da esperança’ é concepção individual e tem de ter génese veemente e íntima.
Um líder é o corolário, o farol, a alavanca, de algo que já tem de germinar dentro de cada alma.
Ou chega-se a este estado. Irremediavelmente.
O ‘nosso Obama’ será sempre D. Sebastião.
Vivemos bem na sombra, a murmurar um fado.
Ele chama-se mesmo Ildefefonso?
Admito que seja com “H”…