A economia na minha rua


Cristina Ferreira de Almeida,

Primeiro foram-se embora os chineses. Partiram de repente, numa noite, deixando ocas as grandes lojas, antes cheias de tarecos coloridos. Depois foi-se embora o merceeiro, numa tarde o senhor Ildefonso despediu-se das velhas chorosas e partiu para a terra na carrinha Ford vermelha a deitar fumo pelo escape. A dependência do Deutsch Bank, que enchia a rua de orgulho com o seu toque cosmopolita, passou a estar de porta fechada; é preciso bater para ver assomar a cabecinha da funcionária que depois vem a chinelar, em soca de descanso, com um molho de chaves a rodopiar na fechadura. Por isso, quando se viu que uma nova loja abrira as cabeleireiras brasileiras pararam de esticar o cabelo umas às outras, as velhas enxugaram as lágrimas pelo senhor Ildefefonso e a rua toda foi espeitar a abertura da boutique dos angolanos. Espero que o facto de ao cabo de uma semana ninguém ter comprado uma capulana sequer não os faça desanimar, porque estou cansada de metáforas.

11 comentários em “A economia na minha rua”

  1. é por todo o lado Cristina .. e são as pequenas ruas e os pequenos bairros os mais lesados .. e mais anónimos também.
    Excelente metáfora 😉
    Beijinho

    1. Texto delicioso. Registo exemplar.
      A’ousadia da esperança’ é concepção individual e tem de ter génese veemente e íntima.
      Um líder é o corolário, o farol, a alavanca, de algo que já tem de germinar dentro de cada alma.
      Ou chega-se a este estado. Irremediavelmente.
      O ‘nosso Obama’ será sempre D. Sebastião.
      Vivemos bem na sombra, a murmurar um fado.

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