A era da pós-verdade


jpt,

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Muito se fala agora da “pós-verdade”. Já não apenas referindo a diversidade opinativa como efeito da pluralidade de pontos de vista e interesses. E também não só a tradicional desinformação interesseira, propalada por políticos e imprensa avençada/subsidiada. Mas muito devido à relativa novidade dos anunciados efeitos das mensagens robóticas (“bots”) que procuram “fazer a cabeça” dos incautos.

 

Sempre vivi espartilhado por essa pós-verdade: desde novo que recebo mensagens sanitárias contraditórias sobre se devo cozinhar com óleo, manteiga, margarina ou azeite. As instruções variam com a época. Opto pelo preço!

 

Enfim, a realidade é que se vem escoando o conservador (mas talvez mítico) valor da Verdade. As coisas (já) não são o que parecem. E, pior ainda, o que deveriam ser.

 

Nos últimos dois dias vi isso, envelhecendo-me. O escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa narra um triste exemplo da pós-verdade: havia sido escolhido para júri de um concurso literário brasileiro, Oceanos. Um dos finalistas era o escritor angolano (e julgo que também moçambicano) Agualusa, ao qual no ano passado Ungulani criticou as suas declarações apoiando sem reservas o regime político vigente em Maputo. Como resultado disso houve pressões para que Khosa fosse afastado do juri e assim aconteceu. Uma pós-verdade literária!

 

Ontem houve uma greve geral em Portugal. As centrais sindicais anunciam ter sido a maior greve de sempre. E o governo declarou-a praticamente inexistente. É uma “Concertaçao Social” de patranhas, a velha pós-verdade nada robótica, excêntrica às malvadas redes sociais. Acompanhada de alguns dislates: na televisão uma jovem senhora, bem apessoada, comenta dizendo não perceber porque protestam os funcionários públicos se as alterações propostas na lei laboral não incidem sobre eles. Convém estudar antes de ir à tv. Faz-se uma manifestação diante da Assembleia, “ordeira” como se dizia. Quando a hora de jantar se aproximou os manifestantes foram para casa. Ficou um punhado de mariolas, fazendo alguns dislates de pouca monta, menos do que os holigões das claques sempre fazem. Tudo acicatado por estarem no “breaking news” das impunes estações televisivas. Entre os defensores das propostas ali contestadas, logo emerge um coro de republicanos “aqui d’el-rei” como se aquilo fosse o significante. É o reino, republicano repito, da pós-verdade!

 

O prémio Pessoa – que bem me lembro ter sido inaugurado com a atribuição a Mattoso, exactamente quando eu lia o seu deslumbrante “Identificação de Um País” – foi dado a Lídia Jorge. É uma consagração de carreira, quem sou eu para cutucar os méritos da autora do “A Costa dos Murmúrios”. Mas atribuí-lo exactamente no ano em que a escritora proferiu um medíocre discurso de 10 de Junho, a suprema honraria nacional dada a um intelectual? (No qual, entre outras coisas, truncou a “Crónica…” de Zurara, uma malevolência lesa-majestade). Enfim, é, pelo menos, uma pós-verdade relativa!

 

Mas o pior, a mais escandalosa pós-verdade, o derrube dos símbolos, a devastação das identidades, aconteceu na Alemanha. No muitíssimo visto debate entre o agrupamento em que me filio e os representantes da Baviera, estes surgiram como sempre, orgulhosos de serem os “vermelhos”. Os meus surgiram “filisteus”, vendilhões do templo, abandonando o verde-e-branco que lhes é matriz, e durante um século foi alma. Sendo assim uma pós-verdade.

 

Perderam o debate. Ainda bem!

7 comentários em “A era da pós-verdade”

  1. Para mim, o discurso de Lídia Jorge foi o melhor, que ouvi num 10 de Junho e já tenho 70 anos. Talvez por não ter complexos neocolonialistas. Vejo com outros olhos e estou a anos luz das suas ” pós-verdades”. É a vida.

  2. “O prémio Pessoa – que bem me lembro ter sido inaugurado com a atribuição a Mattoso, exactamente quando eu lia o seu deslumbrante “Identificação de Um País” – foi dado a Lídia Jorge. É uma consagração de carreira, quem sou eu para cutucar os méritos da autora do “A Costa dos Murmúrios”. Mas atribuí-lo exactamente no ano em que a escritora proferiu um medíocre discurso de 10 de Junho, a suprema honraria nacional dada a um intelectual? (No qual, entre outras coisas, truncou a “Crónica…” de Zurara, uma malevolência lesa-majestade). Enfim, é, pelo menos, uma pós-verdade relativa!”

    Peço desculpa pela longa citação.
    Lídia Jorge (segundo o Público) terá ficado surpreendida com a atribuição do prémio e terá dito à jornalista Daniela Felício: “é uma conquista do rosto das mulheres”.
    Algum homem diria tamanha estupidez?
    Imaginemos Saramago (ou Valter Hugo Mãe) a receber um Nobel ou um Pessoa e exclamar: “é uma conquista do rosto dos homens”.
    Quanto ao último parágrafo, subscrevo e apoio mas com uma ressalva, há cem anos éramos verde e brancos mas com a camisola bipartida (o equipamento Stromp) as riscas só se tornariam “definitivas” a partir de 1928 após duas vitórias frente aos vermelhos (portugueses) como se explica aqui:
    “No regresso do Brasil, a equipa de futebol voltou a utilizar as camisolas habituais, mas a 23 de Setembro de 1928, num jogo a contar para a Taça Preparação, o Sporting voltou a usar as camisolas listadas e derrotou o Benfica por 3-1. Duas semanas depois, a 5 de Outubro de 1928, num novo jogo frente ao Benfica disputado sob temporal, os jogadores entraram com as camisolas bipartidas, mas mudaram de equipamento ao intervalo e regressaram para a segunda parte com as camisolas listadas do Râguebi. O Sporting ganhou o jogo por 3 – 1 e ganhou um novo equipamento principal, que se tornou definitivamente popular e se estendeu a todas as modalidades do Clube” um wiki Sporting
    Tudo pela verdade, nada pela pós-verdade.

  3. Não é de admirar aquilo que refere do escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa ter sido afastado do júri de um concurso literário brasileiro em que um dos finalistas era o José Eduardo Agualusa (escritor angolano embora vivendo na Ilha de Moçambique).
    Ungulani Ba Ka Khosa – uma das vozes mais importantes da literatura contemporânea de Moçambique e considerado um dos 100 melhores autores africanos do século XX, mas sobretudo um moçambicano livre, bastas vezes crítico do regime, não é reconhecido em Portugal/Brasil devido precisamente às editoras estarem dominados pelo triângulo literário (Organismos Cultura Portugal-Brasil, Mia Couto e Eduardo Agualusa).
    Há muito que com os seus romances “Ualalapi”, “Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador”, “Orgia dos Loucos” (largamente premiados nos países anglófonos ou em Itália) merecia o Prémio Camões.
    O artigo de Ba ka Khosa repudiando a interferência de Agualusa no processo eleitoral moçambicano “Basta, Agualusa não pises os nossos calos”:
    https://www.facebook.com/ungulani.ba.ka.khosa.2025/posts/494858050219884?ref=embed_post

  4. Este prémio Pessoa consiste em “quem manda” querer que toda a gente perceba quem manda. É o tipo de arrogância que tende a acabar mal. Ou seja, mais uma ajuda que as nossas inteligentíssimas “elites” dão ao Dr. Ventura. Quanto ao que sucedeu diante da AR, peço ao jpt um exemplo de uma claque de futebol ter ocupado uma rua ou praça durante um par de horas, e aí destruído e incendiado o “mobiliário urbano”, atirado garrafas e insultos à polícia de choque, enquanto esta assistia serenamente, como sucedeu com aqueles “jovens revoltados” (dos quais, aposto, nenhum trabalhou na véspera nem tinha de ir trabalhar no dia a seguir). Como diria o outro, “diga-me um!”. Eu já tive de fugir de uns canitos, já levei com gás, e já vi amigos levar umas bordoadas só porque sim, e nunca fui de uma claque, tal como não era aquele nosso consócio que ficou sem um olho na festa do título. PS: estas camisolas, ainda vá. Agora aquelas cor-de-rosa…

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