Viver é um direito, não uma obrigação. A frase foi retirada de um excerto do filme Mar Adentro, um dos filmes mais perturbantes que vi e a que regresso amiúde sempre que se me colocam as questões inerentes à eutanásia ou ao suicídio assistido, mas que poderia aplicar-se ao caso de Eluana Englaro, uma mulher de trinta e oito anos, em coma desde 1992, em sequência de um acidente de viação. Depois de interposto um recurso pelo pai de Eluana para que o seu corpo possa finalmente descansar e de ter sido autorizada pelo Supremo Tribunal Italiano a suspensão da alimentação e hidratação artificial que prendem Eluana à vida, o executivo de Berlusconi prepara-se para passar um decreto-lei proibindo a interrupção da administração de água e alimentos a doentes em estado de morte clínica. Alega que o “Governo não pode ignorar as pressões da Igreja Católica”, cujas vozes se têm feito naturalmente feito ouvir em Itália manifestando o seu óbvio desacordo. A questão não é pacífica, a vontade do doente deve ser respeitada até à última instância e neste caso, sabe-se através do pai de Eluana, que seria de sua vontade morrer, dada a situação que se prolonga há dezassete anos. Acredito que viver assim não deve nunca ser uma obrigação nem jamais servir propósitos políticos e religiosos. Respeite-se a vontade de Eluana, refém do seu próprio corpo há dezassete anos, e a vontade do pai de Eluana que apelou ao silêncio nos últimos dias da filha.
A fronteira da dignidade
Leonor Barros,

Não consigo ter uma opinião definiva sobre estes casos. Se calhar, também não preciso, porque sou muito tolerante em relação a eles, seja qual for o ponto de vista. Portanto, posso não tomar posição, mas acato com o maior respeito quem a tomar.
Opinião tenho em relação a um aspecto lateral. As máquinas que prendem à vida estes doentes não abundam. São sofisticadas e caras e costumam fazer falta aos doentes seguintes, nos quais ainda são depositadas esperanças de recuperação.
Estamos a falar de Itália. Aquela aparelhagem não terá feito falta a outros? Em quantos países ela faria realmente falta? E em quantos nem existe tal maquinaria? Entre nós, por exemplo, as famílias de doentes já sem esperança de recuperação não são confrontadas com a necessidade de retirar a aparelhagem para utilizá-la em quem precisa?
Acho isto tudo inquietante, pelo lado aparentemente arbitrário de decisões tantas vezes simplificadas à luz da capacidade financeira da sociedade e das famílias. A dúvida que se instala parece reflectir uma espécie de crise da fartura. Na maior parte do mundo, desligar ou não é uma dúvida que nem existe. Corrijam-me, se puderem.
Situações destas são tudo menos pacíficas, João. Seja como for, não entendo que se prolongue o sofrimento além da vontade do próprio e, neste caso, dos que lhe são próximos, e estamos a falar de 17 anos. Em Espanha, existe a possibilidade de se declarar que não se quer prolongamento da vida em situações extremas e irreversíveis, o que me parece muito bem.
Também não consigo ter uma opinião definitiva. Cada caso é um caso, parece-me, e embora seja preciso legislar, será sempre difícil que a lei seja justa para todos.
Mar Adentro é também um filme de referência para mim, por ser tão sóbrio, elegante e sério a tratar de um assunto tão delicado como este.
Mar Adentro é um dos meus filmes de sempre. Só mais tarde o entendi na sua plenitude e pelas piores razões. Acho que legislação como existe em Espanha pode ser útil.
Beijinho, Ana
Pois eu, Leonor, nem dividida me sinto. Simplesmente porque não concordo que se prolongue o sofrimento de um ser humano, contra sua vontade, quando não há esperança de recuperação. Considero desumano negar a possibilidade de pôr termo à dor em casos desesperados como os que foram citados aqui.
Eu também partilho dessa opinião, Teresa. A única coisa que me inquieta neste caso é vai ser retirada a alimentação e hidratação mas certamente a medicina tem uma resposta para que o processo seja pacífico. O que discordo em absoluto é o aproveitamento religioso e político que está a ser feito em Itália.
Irritam-me os que defendem encarniçadamente a vida no abstracto e depois a desvalorizam no concreto. Relativizar o sofrimento humano é sempre fácil quando se trata do sofrimento dos outros. E revela, em última análise e na minha opinião desprezo pela própria vida.