A ideia é boa, mas…


Carlos Barbosa de Oliveira,

Este post do Paulo Gorjão fez-me recordar uma campanha promovida pelo Estado Novo nos anos 60. “Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses” era o slogan  que incitava os portugueses a beber, para bem da economia nacional.

O convite à instalação dos painéis solares agora feito por Sócrates revela tiques de Estado Novo mas, ao contrário da campanha de Salazar, não incita ao consumo de um produto que pode arruinar a saúde. Pelo contrário, tem como objectivo proteger o ambiente e aliviar os bolsos dos portugueses.

Apesar da generosa comparticipação do governo, não acredito que haja muitos portugueses a investir na compra de painéis solares. É um investimento caro, cujo retorno demora cinco anos. Por outro lado, os portugueses são resistentes à mudança e duvidam da eficácia da energia solar. Preferem  pagar avultadas facturas à EDP e queixar-se do preço da energia. Fazem mal. Como fizeram mal em trocar o consumo moderado do vinho por litradas de cerveja. Mas isso tem a ver com o perfil do consumidor português, que sempre preferiu quantidade a qualidade. Uma característica dos povos subdesenvolvidos inebriados pela sociedade de consumo.

Os portugueses estão mal informados sobre o que os espera e desconhecem que a opção por energias alternativas é inadiável, até porque está relacionada com legislação que entrou em vigor em Janeiro, que obriga os edifícios a ter um certificado energético. Por outro lado, a partir de 2012, com a segunda fase dos acordos de Quioto, o preço do CO2 vai entrar muito  no bolso de cada um de nós.

Na Grécia – um país com o mesmo sol e a mesma população que nós – instalam-se 40 mil painéis solares por ano em habitações. Em Portugal apenas 2500!

A diferença reside na falta de informação prestada aos consumidores portugueses nesta matéria. Não chega dizer “comprem painéis solares que nós até pagamos 50 por cento do investimento”, é preciso explicar aos portugueses o que os espera se não optarem por energias alternativas. E, já agora, que tal  promover a consciência ambiental dos portugueses?

 

15 comentários em “A ideia é boa, mas…”

  1. 1. Além de dizer que se “comprem painéis solares que nós até pagamos 50 por cento do investimento”, é realmente preciso lançar uma campanha (nos tempos que correm, estou mesmo a ver todos a comprar!) e, já agora, dizer se os fornecedores de painéis solares reconhecidos continuam a ser só dois e por que é que os outros foram postos de lado.

    2. Antigamente, quando se dizia que “beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses” havia mais coerência, porque dizia-se também que fumar Kart eram “quilómetros de prazer”!

    1. Em relação ao ponto 1 é uma longa história que talvez um dia cote aqui em episódios…
      Em relação ao ponto 2 lembrei-me de um anúncio que dizia ” Um prazer que pede bis”, mas já não tenho a certeza se era publicidade a uma cerveja. Lembras-te?

      1. Era a um preservativo. Mas a campanha foi retirada prematuramente porque o universo alvo se revelou demasiado restrito. Somos poucos.

        1. Não se trata de investir a 5/7 anos, mas sim de saber o montante do invstimento. Muitas famílias investem em bons carros, outras têm um carro para cada membro da família. Com o apoio do Estado, investimento é inferior ao de um carro de custo médio.

          1. Só para completar. Um automóvel não é um investimento e o seu valor desce drasticamenet desde que sai do stand. Isso não impede que as pax os comprem. Investir em energias alternativas representa também poupança, porque os custos da energia solar são muito baixos ( só de manuteção)e o investimento paga-se a si próprio.

            1. Os últimos dados recentes apresentam grandes quebras nas vendas dos automóveis. E, apesar de eu também gostar muito de transportes públicos, a verdade é que os painéis solares não me levam para o trabalho.

              Voltando ao que interessa, não me parece que incentivar ao crédito num investimento que se paga a médio-prazo seja a melhor solução nesta altura, por dois motivos: a concessão de crédito não é propriamente a mais fácil e os créditos em demasia parecem-me ser um dos principais problemas da economia actual.

  2. E, desculpem se estou a ver mal, mas, por exemplo, no caso dos condomínios, em que qualquer pretexto serve para divisões e conflitos, eles meterem-se numa de painéis solares? Deus te livre, ó Marques.

    1. Esse é efectivamente um dos problemas… apesar de não terem surgido grandes problemas quando foi necessário “plantar” as parabólicas. Os condomínios são o retrato da sociedade portuguesa onde campeia o individualismo.
      No entanto, a instalação de painéis solares num condomínio representa um investimento muito menor, exigindo uam taxa de esforço pouco significativa, se comparada com o retorno ( poupança)

  3. É tudo muito giro, sim senhora. Eu até tenho uns valentes metros quadrados de telhados que dariam para uns bons painéis mas enquanto o processo de venda de energia à EDP e as comparticipações e as burocracias todas não forem agilizadas, os telhados vão servir só de… telhados, muito obrigada.

    1. As burocracias estão já bastante mais reduzidas. O grande problema é, precisamente o processo de venda à EDP dos excedentes. Já deveria estar tudo definido desde 2008 mas, como sempre, parece que valores mais altos se levantam, impedindo o aproveitamento de todo o potencial dessa medida. No entanto, posso dizer-lhe, Blonde, que conheço casos de pessoas que já concluíra o processo e estão a fazer a venda dos excedentes à REN.

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