A ignorância climáxima


João Pedro Pimenta,

O JPT já tinha mencionado neste post, mas estas novas “acções climáticas” têm-se multiplicada de forma particularmente aberrante. Já havia uma líder espiritual, Greta Thunberg, que sabia melhor como governar os povos do que todos os líderes eleitos, conforme se viu naquela reunião da ONU, que a tantos deixou embevecidos (apesar da própria já estar a crescer nalguns aspectos). O seu exemplo de não ir à escola tem feito escola, se me permitem o contrassenso.

Há dias, num especial creio que da RTP, assisti a um conjunto de jovens “activistas” e às suas ideias para aplacar a crise climática. Diziam os frequentadores do ensino secundário que iam fazer jornadas de greve às aulas e exigiam nada menos que a proibição de uso de combustíveis fósseis, imediatamente. Em paralelo, diziam que se o Mundo não tinha futuro, então de nada lhes servia aprender, daí a greve às aulas. E também que o voto era uma coisa desnecessária, que mais importante para a cidadania era “o activismo de rua”. E quando surgiam os seus nomes, reais ou “de guerra”, aparecia também por baixo, à laia de profissão, a palavra “activista”.

Isto preocupou-me, confesso. Sei que dementes, seitas e figuras auto-messiânicas sempre as houve. Como a natureza humana não muda de um século para o outro, a actualidade não havia de ser diferente. A diferença é que a comunicação e as formas de propaganda são hoje infinitamente maiores. E permitem que qualquer grupelho radical espalhe as suas mensagens com o beneplácito de algumas instituições.

Devo desde já dizer que não sou um céptico de mudanças climáticas (embora pense que as previsões a longo prazo são problemáticas e que o homem não é necessariamente o seu único causador) e muito menos da protecção do ambiente. Fiz parte de várias associações ambientalistas e das listas do MPT, justamente o único partido ecologista português sem radicalismos urbanos. Por isso mesmo, sei que as ideias mais nobres redundam normalmente em fanatismos aberrantes. É o caso.

descarregar.jpg

Temos, portanto, jovens do ensino secundário a fazer o elogio da ignorância, da não aprendizagem e da recusa da democracia, ou pelo menos a defender uma espécie de “democracia de rua”. Coisas tão importantes, como o direito ao voto e à escolaridade, pelas quais tantos se bateram, são postas de lado por imberbes que têm tudo por adquirido. Talvez por isso alguns atentam contra obras de arte com perguntas estúpidas como “o que é que vale mais, este quadro ou o ambiente”, como se fossem comparáveis e a destruição da arte de alguma forma ajudasse o clima, mas perguntar isso seria demasiado complicado a semelhantes amibas. E também querem acabar de imediato com os combustíveis fósseis, ou seja, parar por inteiro a sociedade. Como se deslocariam? Como se aqueceriam? Quem lhes traria os seus produtos vegan? “Ah, mas para se deslocarem há as bicicletas, as trotinetes e o metro”. Brilhante, da parte de quem vive nas cidades com alguma dimensão. Vão perguntar aos agricultores de Trás-os-Montes ou do Alentejo se não se querem deslocar dessa forma. Transportar produtos agrícolas de trotinete em Vimioso deve ser espectacular. E também lhes podiam relembrar que existe uma penosa guerra na Ucrânia que está a conduzir a uma crise energética, económica e financeira. Não se terão dado conta disso? Talvez fosse bom olhar para fora da bolha.

Ainda um efeito nefasto destas novas seitas climáticas: o fanatismo vai levar muitos a afastar-se e a recusar práticas mais favoráveis ao ambiente. Numa altura em que pululam as teorias da conspiração de toda a ordem, já se fala da farsa do ambientalismo”, do “great reset climático”, etc. Esta gente, com as suas acções cretinas que apenas prejudicam, ou visam prejudicar, a vida de tantos, só vai dar mau nome à ecologia, afastando potenciais defensores criando novos inimigos e polarizações. Um enorme tiro de canhão no pé. E, no entanto, são razões de magna importância, que não mereciam ser prejudicadas pelos fanáticos climáticos sem mais nada para fazer (ou por oportunistas conhecidos para fazer aproveitamente político, mal começam a fazer misturas com o anticapitalismo, antiracismo, etc). Mas, quem sabe, mais do que proteger o ambiente, a ideia deles seja mesmo causar polarização extrema, ainda mais. Parece que está na moda. E agora noto que utilizei uma palavra, “ecologia”, que passou de moda. E é pena, grande pena.

16 comentários em “A ignorância climáxima”

  1. Tudo isto é cópia do que se faz lá fora, sempre ouvimos esta máxima ao longo dos tempos.
    Realmente, nas manifs de França lá apareceram as mesmas frases em francês agora por cá.
    Por isso vamos criticar o geral, como se enaltesse-se algo que lá fora se faça e por cá não?

    1. Onde é que referi que era só “cá”? claro que é um reflexo do que se passa “lá fora”. Mas em que é que isso altera o sentido do texto? Escolhi exemplos internos porque são os que tenho directamente mais à mão.

  2. “…que sabia melhor como governar os povos do que todos os líderes eleitos, conforme se viu naquela reunião da ONU..” e por cá com honras Ministeriais!. Entretanto, como é usual em quem padece de aquele mal, mudou de ladainha e papagueia sem que os seus acólitos notem!.

    Idiotas úteis versão actualizada e piorada.
    Tribus etárias, rebanhos sem pastor, á mercê de um qualquer idiota-mor.

    1. Talvez lhe esteja a acontecer o que acontece a milhões de jovens: cresceu e com o tempo amadureceu as ideias. Se lhe contasse a quantidade de parvoíces que imaginava quando era adolescente…

  3. Não basta criticar essas criaturas imberbes. A mim, até me parece que lhes estamos a dar demasiada importância. Censurável é, isso sim, o palco que a comunicação social lhes dá. Nessa tecla é que devemos carregar o mais possível. As crianças, o que precisam é de crescer – quando forem grandes, a esmagadora maioria estará curada dessas maluquices.

  4. Há dias ouvi uma breve entrevista com uma das miúdas que fez o protesto do quadro – muito longe de uma “amiba”, soou-me articulada e inteligente ao enunciar o propósito da acção e a causa que defende. E não só a causa é justa como também a acção foi de facto inteligente: não estragou nada (a pintura estava protegida e elas sabiam-no), serviu para mostrar a face de muita gente que se diz civilizada mas que com um pequeno estímulo vira talibã, e coloca uma questão desconfortável: como sociedade, exaltamo-nos mais pelo dano a um quadro do que pela extinção de uma espécie. Eu trocava de bom grado o quadro do Van Gogh pelo rinoceronte negro africano, pela ararinha azul ou pelas várias espécies de rãs que têm desaparecido; infelizmente, tal não é possível.

    Como é que está o MPT nestes dias? Se calhar fazia-lhe bem algum activismo…

    1. O MPT está de molho, infelizmente. Deixou-se ultrapassar pelo PAN (que também já viu melhores dias). Quanto aos autores, se sabem o que dizem pior ainda. Não se pode comparar uma obra de arte pintada e uma espécie em perigo nestes termos. O ataque a uma em nada vai beneficiar a outra. E como concluo, só vai fazer com que mais gente se volte contra as causas ambientais. É bom não nos esquecermos que qualquer causa, por mais nobre que seja, produz sempre os seus fanáticos.

  5. Os novos bolcheviques… são uteís, ajudam o sistema político – incluíndo a sua burocracia – a controlar ainda mais vastas areas da actividade humana transformando a Democracia em Democracia Totalitária.
    São também os resultados esperados da reeducação criada pelo jornalismo e educação neo marxista, sendo a censura à História do Clima uma das componentes principais da propaganda e da manipulação das mentes jovens.
    O verniz do Método Cientifico estala com mais facilidade que o Civilizacional é só imaginar o que se diria e escreveria no “Jornalismo de Referência” se por exemplo as tempestades mortiferas do Mar do Norte da Idade Média se repetissem, ou por exemplo o ano 1540 climático.

  6. Embora não concorde com tudo, tem alguma razão, isto é muito preocupante. Este post devia estar em destaque pois é importante, mas parece que o que é importante não interessa mas o que é fútil.

    Não concordo com tudo e parece que dizem-lhe umas coisas bonitas e você acredita. Devia pensar em que tem de facto poder?
    Quase ninguém se preocupa com os outros, há muita hipocrisia.

    Não há problema com o clima, o problema são alguns que são manipuladores e outros que são idiotas. E são tão idiotas que não percebem que mesmo que houvesse um problema, ele não afetaria a eles mas a gerações futuras.

    Disse bem, a natureza humana não muda de um século para o outro. Sim, a natureza humana é um problema. A humanidade tem uma tendência para a estupidez e os media aproveitam-se disso para incentivar mais a estupidez e ganhar com isso.

    Os principais culpados não são os jovens pois têm pouca cultura e são facilmente manipulados. Os principais culpados são os que passam constantemente certas mensagens. Interessa a alguns destruir e estupidificar ainda mais a sociedade. Com tantos problemas que temos, resolveram criar esta diversão.

    E nisto os políticos de vários países também ficam mal.

    Antes o importante era ser ativista pelos direitos humanos, agora é ser ativista pelo ambiente. Veja o retrocesso. E essas grandes figuras atuais têm tempo de antena nos media.

    E este é um outro problema, os media. Num especial!
    Há dias, num especial creio que da RTP, assisti a um conjunto de jovens “activistas” e às suas ideias para aplacar a crise climática.

    Há os fanáticos climáticos, os fanáticos ambientalistas, os fanáticos animalistas e também os fanáticos pelo desporto em especial o futebol. Mas devem haver outros.

    1. Acha mesmo que não há um problema com o clima? Os glaciares não derretem por dá cá aquela palha. Se isso é intervenção do Homem ou ciclos naturais, ou ambos, já é outra conversa. De qualquer modo, as ameaças aos ecossistemas e espécies ou a poluição do ar e dos oceanos, entre outros, são bem visíveis e têm culpados. Não é por certas causas terem defensores idiotas que deixam de ser relevantes.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *