A insistência no erro ditará a sentença


Sérgio de Almeida Correia,

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José Luís Carneiro é uma pessoa estimável, afável e séria. Poderia ter chegado à liderança do PS se o grupo de ‘fedayins’,  de acomodados e os habituais vira-casacas do partido não lhe tivessem feito a cama e fugido, como o diabo foge da cruz, de eleições directas e abertas a militantes e simpatizantes depois da saída de António Costa. 

A história não se pode reescrever e foi preciso Pedro Nuno Santos mostrar toda a sua falta de jeito e incompetência para dirigir aquele que era o maior partido da oposição para, finalmente, os seus militantes caírem na realidade. À segunda, perante o desespero da tralha que veio do guterrismo, fez carreira no socratismo e passou animada pelo costismo e o nunismo, deixando o partido no charco, os militantes renderam-se à evidência e escolheram José Luís Carneiro.

Se os tempos já não estavam fáceis para qualquer secretário-geral, as coisas ficaram muito pior depois da copiosa derrota nas eleições 18 de Maio. Mas José Luís Carneiro foi à luta e o poder acabou por lhe ser entregue.

Seria natural que depois de tudo o que aconteceu nos últimos anos as coisas acalmassem, a estratégia fosse repensada, e se desse uma vassourada no interior do Largo do Rato, desinfestando, desratizando e desbaratizando o palacete. 

Nada disso aconteceu.

Se na Assembleia da República o novo líder herdou uma bancada com muitos deputados premiados pela fidelidade ao anterior líder, sem mérito que os recomendasse, e cujo único currículo era o seu activismo nas sacristias partidárias e a devoção ao anterior líder, e a todos os que o precederam, pouco podendo José Luís Carneiro fazer até próximas eleições, sempre poderia, e deveria, ter escolhido alguém mais brilhante e com mais estamina para liderar a bancada parlamentar. Na AR, no interior do partido, e começando pelo Secretariado, seria natural que se impusesse e cortasse a direito.

Também não se passou deste modo. 

Do presidente do partido, que ainda antes da escolha de Pedro Nuno Santos para secretário-geral decidiu violar o seu dever de reserva e aconselhar o voto naquele, contra o hoje líder, a muitos dos que foram agora chamados, salvo uma ou outra excepção, o Secretariado tornou-se num albergue de tendências e de candidatos ao protagonismo que na primeira oportunidade o deixarão cair para logo correrem a apoiar o seguinte, e assim tentarem manter a sua influência e as posições que lhes garantam as tenças nos anos vindouros.

O resultado começa rapidamente a reflectir-se nalgumas posições. A forma como José Luís Carneiro reagiu ao afastamento de Centeno do Banco de Portugal podia indiciar uma saudável mudança de comportamentos e de atitudes. Infelizmente voltamos a ter mais do mesmo. O secretário-geral do PS perdeu uma belíssima oportunidade para vincar a mudança e preparar o futuro. E, ao invés, deixou-se enredar no discurso medíocre e tacticista de antigamente que vem do interior do partido e da suas estafadas luminárias.

Não vale a pena referir o anterior processo de escolha do governador do Banco de Portugal. Tão pouco discutir a qualidade académica e intelectual de Centeno ou a sua disponibilidade para eventualmente continuar no cargo. Nada disso está ou esteve em causa.

Um texto da Rádio Renascença recorda que “Centeno lidou com vários governos: dois executivos liderados por António Costa, com João Leão e Fernando Medina na pasta das Finanças, e dois de Luís Montenegro, ambos com Joaquim Miranda Sarmento como ministro das Finanças“. E embora os primeiros fossem da mesma cor política do governador, “isso não evitou alguma tensão, como quando Centeno e Costa discutiram sobre o orçamento europeu e a regra, introduzida pelo Eurogrupo, que faria com que a dotação de Portugal diminuísse“. Centeno é uma pessoa reconhecida internacionalmente pela sua competência, fez um mandato notável enquanto ministro das Finanças, e não era, nem é, um yes man. Mas como o próprio José Luís Carneiro referiu, o lugar de número um do banco central é uma escolha política e é legítimo a qualquer executivo, cumprido o mandato de quem está, que queira escolher o sucessor. Concordo que, como já se defendeu, que esse lugar fosse de mandato único e por um prazo máximo de sete anos, só que hoje temos de contar com o que há. 

Disse depois Carneiro que a não recondução de Centeno “é uma decisão negativa que quebra um compromisso histórico de reconduzir o titular do cargo“. Inacreditável. E ainda por cima disse-o ao lado de D. Américo Aguiar, bispo de Setúbal, sem saber ainda quem seria o sucessor. O momento não podia ser mais inapropriado. Deveria ter ficado calado depois da forma polémica e muito desastrada como Centeno foi nomeado. 

Os “compromissos históricos” normalmente são maus. Veja-se o que aconteceu com anteriores governadores e a situação de caos, descontrolo e abuso a que conduziram as sucessivas reconduções do passado. Carneiro esqueceu-se dos problemas de falta de supervisão, fiscalização e de regulação da banca a que conduziu esse “compromisso histórico” no Banco de Portugal quanto ao BES, ao BANIF e a tantas outras situações. E aos prejuízos que os portugueses tiveram, ainda têm, e alguns sentem directamente na pele.

Também se esqueceu da vergonha das declarações de Cavaco Silva, do péssimo espectáculo das audições parlamentares de ex-governadores e dos mandatos e das polémicas com Vítor Constâncio e Carlos Costa.

E, por falar em “compromisso histórico” e nos seus resultados, ignorou o que aconteceu em Itália com a implosão do sistema político-partidário, com os escândalos da P2, do Banco Ambrosiano, das ligações à Máfia, da corrupção e de tudo o mais que conduziu ao desaparecimento dos partidos tradicionais e à ascensão naquele país do populismo, da extrema-direita, de Berlusconi, de Bossi, do 5 Estrelas, dos neo-fascistas, e por aí fora, até à senhora Meloni da actualidade.

Desconheço quem está a aconselhar José Luís Carneiro, nem com quem este dialoga, mas as suas declarações sobre a não recondução de Centeno foram mais um desastre político.

Em vez de falar da não recondução de Centeno nos termos em que falou, que como muitos gostaria de ter visto continuar, Carneiro deveria ter aproveitado o momento para se mostrar ao país pelas melhores razões. 

Em vez de se conter, José Luís Carneiro voltou a asneirar quando comparou a decisão de não recondução de Centeno, ainda sem conhecer a nova escolha, com a actuação desastrada, “apeixeirada” e provinciana de Maria do Rosário Palma Ramalho e a salgalhada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, olvidando, de novo, as responsabilidades do PS no estado a que os “compromissos históricos” conduziram aquela instituição e como estava a casa quando Ana Jorge foi para lá.

José Luís Carneiro, em vez de se limitar a mostrar o seu lamento, compreensível aos olhos de todos, pela preterição de Centeno, veio de novo com um discurso para acólitos partidários retomando as ladaínhas do nunismo.

Convirá ainda referir que o facto do titular do cargo ser uma escolha política de quem manda não invalida a criteriosa análise do perfil académico e profissional de quem vai entrar. A opção recaiu em Álvaro Santos Pereira.

Quanto a este, quem tantas vezes, incluindo neste blogue, criticou Álvaro Santos Pereira pela sua inépcia política enquanto ministro de Passos Coelho, não pode deixar de reconhecer neste momento quer a legitimidade da escolha do Governo, concorde-se ou não com ela, quer a valia do seu perfil e currículo para dirigir nos próximos anos o Banco de Portugal.

Seria bom, visto que ainda vai a tempo e sabemos quem é o sucessor, que José Luís Carneiro corrigisse os tiros que deu e desejasse um bom mandato ao futuro governador, sem grandes ondas. Desta vez não se esquecendo que Álvaro Santos Pereira saiu em ruptura com Passos Coelho, diria mesmo que foi maltratado por este, cujas opções criticou, o que poderá na altura ter-lhe valido o cargo.

E ainda que foi ele quem disse que Portugal “foi à falência não só por políticas erradas, mas também por práticas de compadrio e corrupção entre Estado e privados“, sugerindo reforçar os recurso humanos da Procuradoria-Geral da República “e lançar uma política de zero euros de prendas, não só para membros do Governo, mas também na Administração Pública“. Se a PGR tivesse sido reformada e reforçada talvez já não tivesse havido uma Spinumviva, os hospitais não estivessem como estão e não se fizessem adjudicações a empresas sem helicópteros.

Na altura em que saiu do executivo, um ex-assessor de Miguel Relvas e de Santos Pereira, João Gonçalves, chegou a dizer que a sua saída do Ministério da Economia e do Emprego se ficara a dever aos interesses e às negociatas, e que ele cometera o crime da independência

Se assim foi, só poderei escrever que quem com este currículo vem, e não vindo para exercer um cargo político, merece o benefício da dúvida e todo o apoio para fazer um bom mandato e continuar a mudar o que no Banco de Portugal estava, e ainda estará, mal.

Se possível mudando contra os interesses e as negociatas, contra os poderes instalados, mesmo de quem o escolheu, porque só assim poderá mostrar a sua independência, justificar a justeza da escolha e servir o país.

5 comentários em “A insistência no erro ditará a sentença”

  1. Quando vejo os títulos de intervenções ou, como agora, vejo o cardeal D. Américo Aguiar em boa companhia acorrem-me à ideia títulos como “O declínio da Igreja” ou “A herança de Francisco”.

  2. Caro Sérgio
    Trata-se de Álvaro Santos Pereira, eu sei que o espaço público e mediático está saturado de referências ao apelido Santos Silva, perdoa-se-lhe o lapso…
    No mais, estou plenamente acordo com o seu post, Álvaro Santos Pereira foi trucidado pelas máquinas partidárias e, em particular, por um dos maiores cancros da política portuguesa que dá pelo nome de Paulo Portas.

    1. Cara Paula,
      Tem toda a razão. Está corrigido.
      As minhas desculpas pelo lapso. Para si, para os leitores e para o escolhido.
      E também para os “Silva” que surgiram no postal e não têm rigorosamente nada a ver com o texto.
      Agradeço a atenção e o reparo. Bem haja.
      E bom fim-de-semana para si.

    2. Tendo em conta a forma como morreu Miguel Portas, esta frase:
      “um dos maiores cancros da política portuguesa que dá pelo nome de Paulo Portas” diz tudo sobre quem a escreveu. Na política e na mera convivência social não devia valer tudo.

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