A Lista de Sendler


Ana Cláudia Vicente,

[Foto: Irena Sendler e filha Janka, quatro anos após o fim da 2ª Guerra Mundial]

 

Aconteceu-me saber da extraordinária história de Irena Sendler poucos dias antes de se completar um ano  sobre a sua morte, ocorrida em 12 de Maio de 2008. O percurso de vida desta assistente social polaca apresenta vários pontos comuns com o do diplomata português Aristides de Sousa Mendes, sendo com toda a probabilidade o mais marcante aquele em que ambos arriscaram a vida desobedecendo, fazendo das suas profissões instrumento concreto de defesa de uma certa ideia de civilização. Tais acções, reforçadas pelas de vários outros homens e mulheres dos quais nunca ouviremos falar, traduziram-se na preservação de milhares de vidas. Resultaram também em custos pessoais elevados (no caso de Aristides, o termo da sua carreira e a  remanescente vida próximo da pobreza; no caso de Irena, a prisão e a tortura durante a ocupação, seguida da hostilização pelo  regime polaco do pós-guerra) que tanto um quanto outro tiveram oportunidade de antecipar. Como disse noutro dia a Carla Quevedo, o heroísmo não é para todos, que a coragem não é  virtude vulgar. Irena Sendler não gostava daquela palavra, não se reconhecia nela, descreveu o auxílio à fuga das crianças judias do guetto de Varsóvia como um simples imperativo de consciência, passando anos angustiada pelas que não conseguiu pôr a salvo. Não fossem alguns miúdos do Kansas no final da década de noventa, ainda hoje o seu legado – feito de uma lista de nomes verdadeiros e fictícios escondida sob uma macieira  de quintal – estaria por divulgar.

Por esta altura muito se fala e ouve falar em Europa. Mas pouco no difícil  que foi torná-la o que é (e como é). Há algo de muito imprudente em tomá-la por garantida, essa certa ideia de civilização.

3 comentários em “A Lista de Sendler”

  1. Dizes muito bem, Ana Cláudia: a civilização, que todos julgamos de pedra e cal, demorou milénios a construir e é muito frágil. Pode bastar um sopro para derrubá-la. Convém termos isto sempre presente. Quanto a Irena, é a prova de que existem heróis, ao contrário do que às vezes ouvimos apregoar por aí. Não só existem como precisamos deles. E os maiores heróis são precisamente os que não fazem gala do seu heroísmo.

  2. O verdadeiro heroísmo, creio, é sempre isso mesmo: um imperativo de consciência que se sobrepõe ao medo, à prudência, aos interesses pessoais. São muito poucos os heróis e quase todos são anónimos, porque não o são pelo estrelato nem pelo reconhecimento público.
    Não conhecia esta figura nem a sua história. Obrigada por dá-la a conhecer por aqui.

  3. Pedro,
    de facto, parece-me que se dá uma situação duplamente curiosa, na contemporaneidade: não só se conhecem mal os actos de coragem de cidadãos comuns em circunstâncias incomuns (muitas vezes o seu rasto é de custosa investigação), como frequentemente se tentam ‘desmontar’ as figuras heróicas já consagradas, sublinhando as falhas (culpas, defeitos, atribulações pessoais) na sua conduta, ou mesmo nas suas motivações. É como se a dada altura tivéssemos passado a achar que o heroísmo é supra-humano (portanto impossível).

    Ana,
    Sendler impressionou-me particularmente por se tratar de alguém que, não tendo (como outros protagonistas da época) qualquer tipo de imunidade (diplomática, política, financeira) coordenou um processo duríssimo (a separação de crianças judias dos seus pais em ordem à sua sobrevivência, com escassa probabilidade de reagrupamento familiar) num contexto em que o auxílio à comunidade judia implicava a pena de morte (caso incomum nos países ocupados pelas forças nazis). A coragem física aliada ao discernimento moral é e será sempre impressionante.

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