A memória através dos “grafitti”


Carlos Barbosa de Oliveira,

Ontem à tarde tive de me deslocar à Junta de Freguesia da Ameixoeira. Quando de lá saí, dei de caras com um grafitti onde se lia:  “Soares+ Pinto, RUA”.

Não pude evitar um sorriso e recuar ao período de 1983-85, quando um governo de coligação traçava os destinos do país. O tempo era de vacas magras, havia uma D. Branca que prometia juros elevados e acabou na cadeia, a AD tinha dado o último suspiro, PS e PSD coligavam-se para formar governo, no intuito de cumprir os objectivos que permitissem a entrada de Portugal na CEE.

Mário Soares e Mota Pinto eram alvos de fortes críticas pelas medidas restritivas que foram obrigados a tomar, sendo talvez a mais recordada a que se reflectiu no corte de 2,8% no subsídio de Natal.

Nos gabinetes ministeriais vivia-se com contenção e houve mesmo um secretário de estado que foi demitido por não cumprir as regras. O governo acabou devido à morte súbita de Mota Pinto, pretexto aproveitado pelo PSD para exigir eleições antecipadas. Foi então que Cavaco decidiu rumar à Figueira da Foz para fazer a rodagem ao Citroen. Saiu de lá candidato a PM…

Quase 30 anos depois, ao ler a mensagem  “Soares+Pinto, RUA”, sinto uma certa nostalgia. Porque era então um jovem mas, principalmente, porque não desdenharia ter dois políticos com a estatura de Mário Soares e Mota Pinto a dirigir os destinos do país.

Só de pensar na possibilidade de as eleições de Outubro virem a resultar num governo de coligação PS/PSD, com  Sócrates e Ferreira Leite ao leme, sinto um enorme calafrio.  Entristece-me  pensar como se deteriorou a qualidade dos políticos portugueses em três décadas e que os portugueses, em vez de mandarem ambos para a rua, se percam em discussões sobre qual deles será o mal menor. Irra!!!

9 comentários em “A memória através dos “grafitti””

  1. Há uma dezena de anos, enquanto passeava à noite em Almada, encontrei esta velha frase (ou algo parecido):

    “O povo saberá partir os dentes a quem se virar contra ele”.

    Fantástico. Imagino que fosse da mesma altura em que se ameaçava “partir os dentes à reacção”.

  2. Perto de casa dos meus pais, numa casa em ruína, quase apagado pelos anos, ainda se consegue ler:
    “Votai no Humberto”!
    Quanto a “Soares+Pinto RUA” faz jus ao velho ditado:
    “Atrás de mim virá, quem de mim bom fará”!

    1. Esse Humberto era o Delgado? Fantástico!
      Nem imagina como me assusto com esse ditado… quando penso que já batemos no fundo em termos de falta de dignidade na política. Teremos ainda de aguentar um duo pior do que este?

      1. É verdade! Era o Delgado!
        Quanto ao ditado… como batemos no fundo em termos de falta de dignidade na política, só resta aparecer algum ‘milagreiro’ que nos faça voltar a ter confiança na política e nos políticos.
        Se aparecer, o que temos neste momento não deixará saudades, “Pior é impossível”!
        Aguardemos com fé e esperança!

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