A minha preferência: o Nobel para Atwood


Pedro Correia,

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Dizem-me que o Nobel da Literatura adoptou na última década “quotas de género”: passou a premiar, alternadamente, escritores de ambos os sexos. Não sei se já vigoram também quotas étnicas – como nos Óscares de Hollywood – ou geográficas. Pouco me surpreenderia se assim fosse.

Quero lá saber. Como leitor, escolheria sem hesitar Margaret Atwood – autora de extraordinários romances, como Ressurgir ou O Assassino Cego. O primeiro, incluído por Harold Bloom no seu imprescindível Cânone Ocidental; o segundo justamente galardoado com o Pulitzer de 2000.

No ano passado o Nobel coube à coreana Han Kang: isto indicia que desta vez o galardoado será do sexo masculino, segundo determina a severa lei das quotas. Mas laurear duas mulheres em anos consecutivos seria verdadeira inovação: nunca o mais cobiçado prémio das letras mundiais se atreveu a tanto.

Deixo, portanto, a minha preferência – repetindo um voto já aqui feito em 2019: o Nobel para Atwood, que nesse ano recebeu o Booker, em jeito de compensação. Falecidos Rubem Fonseca, John Le Carré, Javier Marías e Milan Kundera, que também o mereciam, seria hoje um dos mais justos.

Preferência, não prognóstico. Porque Atwood estará excluída, in limine, por ousar dizer aquilo que realmente pensa. Contra os torquemadas do momento e as novas censuras. Tal como Salman Rushdie, neste caso por veto explícito do islamismo radical perante a cobarde complacência dos profissionais da indignação selectiva.

Pouco importa. Tanto a escritora canadiana como o romancista anglo-americano nascido na Índia já receberam o melhor dos prémios: a admiração e o respeito de milhões de leitores. De todos os cantos do planeta, sem anátemas nem exclusões.

 

Leitura complementar:

Os meus 50 livros preferidos escritos por mulheres (2 de Setembro de 2023)

34 comentários em “A minha preferência: o Nobel para Atwood”

  1. Não deram o Nobel à Agustina. Não deram o Nobel ao Aquilino. Não deram o Nobel ao Rulfo. Não deram o Nobel ao Borges. Não deram o Nobel ao Cortázar. Não deram o Nobel ao Céline. Não deram o Nobel ao Proust. Não deram o Nobel ao Joyce. Mas, acima de tudo, não deram o Nobel ao Tólstoi!

    Haverá alguém, de entre a lista de premiados, que esteja ao nível do Tólstoi? Está tudo dito. Esse prémio é patético. Até lhe vou tirar a maiúscula.

    Se houvesse nobel no século oitavo antes de Cristo, aposto que não o teriam dado àquele aedo que diziam ser cego e cantou pela primeira vez a fúria de Aquiles e o regresso de Ulisses.

    (Duas honrosas excepções: premiaram o García Márquez. Premiaram o Knut Hamsun. E premiaram o Saramago – que é português e muito nos honrou.
    Afinal foram três!)

      1. Estou de acordo consigo, quanto ao Faulkner. E também deram o prémio ao Hemingway. Cinco honrosas excepções, afinal.

        Mas não premiaram o Ibsen, a Virginia Woolf, o Tchekov (!), o Kafka, o Pessoa. No entanto, premiaram o Patrick Modiano e a Annie Ernaux (talvez maiores do que o Tolstói, naquelas cabecinhas suecas). Enfim…

        Vamos lá ver se dão um prémio ao Gonçalo M. Tavares. Nem sou especial apreciadora da obra dele, mas seria uma risota ver a súbita quantidade de comentadores televisivos que, afinal, eram especialistas insuspeitos de literatura portuguesa, sem que ninguém se tenha apercebido.

        1. Kafka e Pessoa não podiam, pois quase toda a obra de ambos é póstuma.
          Quanto ao Modiano (e, acrescento, Le Clézio), concordo. Ernaux, não conheço.

          Merecem destaque positivo também os prémios entregues a Milosz (autor de uma das obras-primas do século XX, “A Mente Aprisionada”), Canetti e Herta Müller.

          1. Tenho de ler a Herta Müller e Milosz, que confesso desconhecer. Vou seguir a sua sugestão.
            Julgo que foi o Leonard Cohen, quando premiaram o Dylan, quem disse: é querer dar uma medalha ao monte Evereste.
            Eu não diria melhor.

  2. Viva, Pedro.
    Eu continuo à espera de Rushdie, que muito bem citou no seu texto. Como é óbvio, não conheço toda a literatura contemporânea! Mas Salman Rushdie é o melhor autor vivo que conheço. Já noutra altura aqui notei que duvido muito da coragem do comité que decide este prémio. Ainda assim, mantenho a esperança. Seria um prémio justíssimo, desde logo, e também uma afirmação política muito relevante, nestes tempos conturbados.

    1. Admiro a sua persistência. Eu já advoguei aqui, em três anos diferentes, o Nobel para Rushdie – e não mudei de opinião. Mas hoje reconheço que ele é vítima de um veto perpétuo na Academia Nobel. O extremismo islâmico tem muita força e actua cada vez mais em conúbio com a intelectualidade pseudo-progressista que domina os bastidores do prémio.

      1. Também eu “nomeio” o Rushdie – estou como o PNFerreira, dos autores que conheço, é dos melhores e dos que mais tem para nos contar. E como insiste em continuar vivo, talvez o Comité se tome de brios e dê um estaladão no focinho da manticora fanática, que bem anda a precisar. Seria justo e higiénico.
        O mesmo para a M. Atwood, embora não esteja entre os meus favoritos. Que diabo, também não é propriamente o Matzneff, que tão incensado foi nos círculos intelectuais da “gauche” francesa, condecorado e premiado.

        Por falar em higiénico, ainda não há muito tempo (2018) se deu o escândalo de braguilha na sacrossanta Academia Sueca, o que poderá ajudar a explicar a treta remendona e branqueadora das quotas. Ideia ainda mais peregrina, mas talvez mais coerente, só se fosse repor a equiparação desde o início da atribuição do Prémio: 121 homens para 18 mulheres… Ia ser uma festa durante um século! É só cretinices.

        1. A seguir virão as quotas de “género”, depois as quotas “raciais”, depois as quotas geográficas abarcando dos bosquímanos aos esquimós e depois… o Nobel valerá o mesmo que hoje vale o Óscar: quase nada.

          1. O Trump é um surrealista integral: escrita só automática e para cada assinatura usa uma caneta gigante que depois lança à plebe… Também blasfema em funerais e autografa Bíblias.
            Nem ao Dali lembrava nenhuma destas, quanto mais todas juntas.

  3. Zora Neale Hurston ,
    Toni Morrison,
    Chimamanda Ngozi Adichie,
    Maryse Condé,
    Banana Yoshimoto

    Notei uma lacuna ….Arundhati Roy não chega

      1. eu nunca li nenhuma embirei com lista etnocêntrica. deu-me para aqui , mas a do Haiti vou ler, gosto da coisa do vudu. e de tudo que não conheço.
        e a mary shelley ?

          1. certo. as minhas joias nobel:
            platero y yo
            memória das minhas putas tristes
            ratos e homens
            a jangada de pedra
            a família de pascual duarte
            os cadernos de don rigoberto

            tudo homens
            e o boris vian , sem nobel, mas com o arranca corações

            1. duvida da minha natureza intrinsecamente amorosa? acha que sou sarcástica porquê?
              e o livro da minha vida ? as mil e uma noites

  4. Não tinha ainda lido Margaret Atwood, mas ofereceram-me “Olho de gato” estou a gostar bastante. É antigo, data de 1990. Escreve bonito, esta senhora. Apetece lê-la. Vou ver se encontro esses dois que refere.

        1. Está a ver? Dou-me conta de que não vou mesmo para mais nova quando alguém escreve “É antigo, data de 1990”. Mesmo tratando-se de um livro, dói um bocado…
          Eu sei que este comentário está um bocado fora do sítio, mas decerto perdoará a uma velhinha já meio balhelhas, para quem 1990 parece ter sido ontem, eheheh.

  5. Em conclusão: a alternância cumpriu-se mas o Rushdie não ganhou. Nada de novo no Reino dos Pragmáticos. E pensar que já foram vikings…
    Mas não perco a esperança, a injustiça é demasiado flagrante.

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