A moção de censura: notas soltas


Paulo Gorjão,

1. Subscrevo quase tudo o que escreveu Ricardo Costa na edição do Expresso desta semana.

2. Naturalmente, este não é o momento ideal para o PSD apanhar o comboio da moção de censura de terceiros. Sabemos que o óptimo é inimigo do bom e a questão principal reside em saber se existirá outro momento mais à frente que permita derrubar o governo. Pessoalmente julgo que sim, mas a grande incógnita, antes ou depois da moção do BE, continua a ser o PCP. O PCP é o jogador central neste xadrez e em teoria, refira-se, nada garante que as contas não possam sair furadas ao PSD. É um risco que o PSD terá de correr.

3. No cenário ideal, o PSD gostaria de adiar até ao último momento o anúncio da sua orientação de voto. Como sempre acontece com qualquer opção, há vantagens e inconvenientes. O principal inconveniente é a pressão que se vai gerar à volta do PSD, interna e externa. O PS procurará tirar o máximo partido do silêncio do PSD e é muito provável que diversas vozes na sociedade civil, e mesmo dentro do PSD, por razões diversas, alinhem com a posição do governo.

A principal vantagem é que permite ter uma visão mais actualizada e integrada das diversas variáveis num momento mais próximo da tomada de decisão.

Se o PSD está pouco inclinado para aprovar esta moção, então deve matar o assunto o mais rapidamente possível. Se, pelo contrário, pensa seriamente em alinhar com o Bloco, então deve esperar mais tempo.

Pela parte que me toca, julgo que seria sensato anunciar desde já que o PSD se absterá ou votará contra, dependendo do texto da moção.

4. Se o PSD se abstiver ou votar contra, não faltará quem acuse Pedro Passos Coelho de hipocrisia e de prolongar desnecessariamente a agonia. Acontece que a inteligência deve prevalecer sempre sobre a força bruta. Numa maratona não vence quem corre mais depressa os primeiros 100 metros, mas quem tem uma estratégia consistente, está devidamente preparado e, no momento certo, avaliando as circunstâncias e os adversários, desfere o seu golpe.

5. O PSD deve procurar as circunstâncias que lhe permitam maximizar o seu resultado eleitoral, porque desse resultado depende em parte a sua força para implementar uma verdadeira estratégia reformista. Ganhar por ganhar, sem músculo para mudar nada de forma substancial, então mais vale estar quieto.

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