A moldura do trato


João Carvalho,

Ainda há pouco tempo, tive ocasião de assinalar a chamada de atenção que o presidente da Assembleia da República fez a um secretário de Estado, quando este se dirigiu aos deputados tratando-os por «vocês». Esteve bem Jaime Gama, ao ensinar o tal secretário de Estado a portar-se com educação e respeito naquele órgão de soberania.

Ontem, de novo com o Governo presente no Parlamento, na sequência de uma cena acalorada entre Paulo Rangel e José Sócrates, ouviu-se alguém gritar: «Palhaço!» Pelas imagens, a intempestiva interjeição (?) pareceu partir de um deputado, pareceu saída de quem estava ao lado de Rangel e pareceu dirigida a Sócrates. Foi bem sonora e não constituiu um bom exemplo da elevação que devia caracterizar o hemiciclo. Jaime Gama deixou passar aquilo em claro, o que também não foi um bom exemplo.

O caso dá que pensar. Entre os habituais protagonistas das discussões mais acaloradas (membros de órgãos de soberania que até cultivam um linguajar apropriado), veja-se como José Sócrates, Paulo Rangel, Francisco Louçã, Paulo Portas, etc., se tratam entre si e se dirigem aos demais parlamentares e membros do governo: «é da sua competência», «cabe-lhe a si», «chamo a sua atenção», «fiz-lhe uma pergunta» e por aí fora.

Há tempos, este tratamento era impensável. Dizia-se: «é da competência de Vossa Excelência», «cabe a Vossa Excelência», «chamo a atenção de Vossa Excelência», «fiz uma pergunta a Vossa Excelência», etc., o que contribuía para um trato elevado, por mais aceso que fosse o tom da discórdia.

É mais ou menos como termos uma gravura pouco vistosa, mas razoavelmente interessante, ou talvez só uma mera reprodução que nos agrada, e decidirmos torná-la mais vistosa através de uma boa moldura. O resultado satisfaz o objectivo, que é valorizá-la e dignificá-la.

Ora, a crescente ligeireza no trato, ao invés de valorizar o confronto e dignificar o lugar, tem o resultado deplorável que se vê. Primeiro, dispensa-se a gravata; depois, vai-se discursar na tribuna em camisolinha de algodão de gola em colar e sem camisa por baixo; finalmente, passa-se à linguagem brejeira, à gíria e (quem sabe?) ao calão. Como se a vida em sociedade não tivesse regras e como se estar na Assembleia da República fosse o mesmo que ir comer uma sardinhada no tasco ali ao lado do mercado.

É grave não usar gravata? Sei lá se é grave. Grave é a camisa aberta e o que se lhe segue. Se a camisa ‘à padre’ sem colarinho e fechada em cima ou a camisola de gola alta não servem, como farão os da postura inadequada perante uma recepção em traje de noite, por exemplo? Imagino: «A esta palhaçada não vou! Cambada de palhaços!»

Palhaços? Talvez, sim. A juntar aos malabaristas, acrobatas e contorcionistas da nossa política. Se querem que o hemiciclo seja um circo, acho que já faltou mais…

14 comentários em “A moldura do trato”

      1. Hum…, mas então achava que pudesse não partilhar?
        Fruto de uma educação mui ‘ancien régime’; respeitinho e genuflexório…
        (“maisoumenos”…)
        Nã…; nada substitui a urbanidade e o decoro.
        Por estas e outras é que a cultura nipónica me encanta…

    1. Tem toda a razão.
      Há “pequenos” detalhes que são eloquentes e nos dão uma extensa lista de informações sobre o seu autor
      (embora haja quem considere que a urbanidade é uma mera convenção e lhe chame mesmo ‘questão de estilo’, como se a truculência malcriada tivesse o monopólio da sinceridade e da eficácia na comunicação…).

      (infelizmente, nada de novo, cf. actas das sessões da AR na I república!)

  1. Essa do palhaço se calhar foi de algum deputado da Madeira, já que no parlamento regional é que estao sempre a chamar palhaço e fascista uns aos outros…
    E isto vai piorar ainda mais. Os cartazes são apenas o inicio. O “malhar neles” sao palavras. Oo pior ainda pode vir, como na Coreia ou no Japao e na Malasia, onde saltam uns para cima dos outros e toca tudo à batatada. Isso sim, é um verdadeiro “combate politico”.
    Abraço.

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