Não sei se acontece o mesmo convosco. Comigo é assim: há livros com que me incompatibilizei radicalmente. Um deles é A Montanha Mágica. E nada tem a ver com o tamanho – 749 páginas, na edição dos Livros do Brasil pousada aqui à mão. Tem a ver com o estilo do autor, Thomas Mann, que nunca foi do meu particular agrado.
Tomei balanço para ler o romance há já uns anos e parei a um terço: meteram-se outras leituras pelo meio e esta ficou irremediavelmente para trás. Há três anos, numas férias algarvias, levei só este livro para me obrigar a mim próprio a lê-lo de um assentada, começando novamente do princípio. E lá fiquei, junto à piscina, mergulhando nas neves de Davos: dessa vez parei a 150 páginas do fim, encalhando irremediavelmente num daqueles intermináveis monólogos do Sr. Settembrini a pretender doutrinar o pobre do Hans Castorp, como se não lhe bastasse já a desgraça de estar tuberculoso. Desta vez a culpa foi da excelente livraria de Tavira, onde fiz uma colheita de boa literatura contemporânea espanhola: troquei o Mann pelo Manuel Vicent e pela Rosa Montero, aqui para nós com todo o proveito.
A Montanha Mágina continua a fazer-me companhia na mesa de cabeceira. Já lhe mudei até o nome: passei a chamar-lhe Montanha Trágica. É uma das minhas resoluções de Ano Novo: ler as 150 páginas que me faltam. Até o chato do Settembrini se calar de vez.


Gabo-lhe a persistência, Pedro. Há livros que abandonei (por tédio ou má qualidade de escrita) e nunca mais lhes peguei, nem tenciono. Há tantos outros que quero ler, e tão pouco tempo para isso…
No resto estamos de acordo: a nova literatura espanhola é, como o novo cinema espanhol, de excelente qualidade. Rosa Montero é uma das melhores surpresas dos últimos anos. Já leu “A louca da casa”? Uma delícia.
Já li, Ana. E adorei. Agora quero ler o mais recente dela.
eu gosto muito de Thomas Mann . “A Montanha Mágica” é incrivelmente actual, tem uns diálogos impresionantes, personagens inesquecíveis.Não é um livro fácil, exige concentração, porque filosófico,, mas é muito bom, Pedro!
Dos romances que conheço, é um dos que proporciona mais e melhores citações, Júlia. Dezenas e dezenas. O que me aborre neste livro, como noutros ensaios travestidos de romance, é precisamente o frágil fio ficcional, diluído em “literatura de ideias”. É o que sucede na ‘Montanha Mágica’, obra recheada de páginas intermináveis de diálogos e/ou monólogos sobre a pretensa salvação do mundo.
🙂
é bom ler o que nos dá prazer. eu semppre assim fiz. 🙂
É isso mesmo, compadre. Eu acho que a obra tem mérito, mas não é o que procuramos quando lhe pegamos. Nem é o que queremos, quando estamos disponíveis para um ensaio.
Que paciência, Pedro. Quando os livros não me agradam, largo-os sem mais. Reli Morte em Veneza há uns dois anos, com duas décadas de intervalo e gostei muito. Também gosto da Rosa Montero.
Deste-me uma ideia, Leonor: escrever sobre os livros que deixámos a meio. Aliás, é um desafio que lanço aos colegas aqui do blogue: fazermos um dia destes uma série com este tema.
Óptima ideia, a tua. Alinho, claro 🙂
Boa.
Obrigatório gostar. A ‘Morte em Veneza’ é praticamente um clássico, Leonor.
(Garanto que ainda hei-de aprender a criar itálicos nos comentários…)
Mas olhe que não foi à primeira, João. Dessa primeira vez li-o porque fazia parte do programa de Literatura Alemã na Faculdade. Só vinte anos mais tarde, a propósito de uma escapadinha a Veneza e com outra maturidade, é que consegui apreciar a plenitude do livro (o Pedro que não nos ouça ;-))
Estou a ouvir-vos… Aí, da minha parte, também nada a fazer: nem livro, nem filme. E até acho enjoativa a música do Mahler que associo ao filme. Para cúmulo, quando fui ao Lido e olhei para o hotel, achei-o horroroso. Mesmo nada a fazer…
Prefiro o livro ao filme, sem qualquer dúvida. Do Lido gosto muito da vista para a cidade e da aproximação:
Pensava para consigo que entrar em Veneza por terra, pela estação de caminho-de-ferro, é como entrar num palácio pela porta de trás e que jamais alguém se deveria abeirar da mais inacreditável das cidades de outro modo que não fosse este, por barco, por mar alto.
Thomas Mann, Morte em Veneza
Presumo que gostes da cidade, Pedro…
Gosto é pouco, Leonor. Adoro Veneza. É uma das cidades da minha vida. Já escrevi sobre ela no Corta-Fitas, também hei-de escrever aqui. Outra série: as nossas cidades preferidas. Que tal?
Finalmente entendemo-nos. Faltam adjectivos para qualificar Veneza 🙂 Acho muito bem.
Eu, no vosso lugar, não explorava essa ideia. A avaliar pela amostra, o resultado não será famoso.
Preferir Rosa Montero a Tomas Mann é daquelas coisas que se deveria evitar revelar.
O título do post devia ser “sou cabotino e gosto”.
Você, em compensação, não é nada cabotino. Pena é não saber escrever o nome de Thomas Mann. Tente outra vez. Pode ser que acerte…
Oh senhor!!!! Não leia! Não obrigue o seu cérebro a degustar o que não gosta! Esqueça. Ponha-o no papelão. Queime-o. Whatever.
Há coincidências curiosas. Comecei a ler “A Montanha Mágica” numa viagem de inter-rail, tinha eu uns gostosos 20 aninhos. Ficou a meio, até hoje.
Isto apesar de Thomas Mann ser dos meus autores preferidos (A Morte em Veneza e Doutor Fausto são obras absolutamente notáveis). Não sei bem explicar o que aconteceu, mas a história pareceu maçuda e interminável. Não me cativou, pura e simplesmente. Vejo que não estou só no mundo… é sempre bom saber!
Bem, já somos dois a enfrentar os guardiães do cânone. Paciência: há coisas piores.
De Thomas Mann, « Morte em Veneza» e, acima deste, « Os Buddenbrook»…
que coincidência! A mim aconteceu o mesmo.
Como já reparou não é o único a incompatibilizar-se com um livro. Eu estou encalhada literalmente com o Rinoceronte do Papa, do Lawrence Norfolk, desde 2001.
Não sei se sou eu, se o rinoceronte ou se foi pelo Papa entretanto ter mudado. O que sei, é que o livro me persegue, atira-me bocas parvas, grita-me lá do alto da estante e eu nada!
Mas também não gosto nada da sensação de deixar um livro a meio e hei-de lê-lo, nem que seja na diagonal, disfarçadamente, quando ele não me estiver a ver.
Olá, Patti. Prazer em vê-la por cá. Também eu não gosto de deixar um livro a meio. Mas já me tem acontecido. Às vezes nem é a meio – é logo ao princípio. Hei-de falar aqui sobre isso um dia destes. Mas este livro hei-de acabar. Não faz sentido ler 600 páginas e deixá-lo quando faltam pouco mais de cem.
Estes “encalhes” acontecem a todos.
A mim aconteceu com O diário de Bridget Jones. Não consigo terminar o livro.
Recebi-o de presente, era na altura um bestseller. Há quantos anos… não sei se o irei acabar de ler. Duvido!