Ontem fui ao São Carlos ver o «Fausto» de Gounod. Uma ópera grande, em cinco actos, baseada na primeira parte da obra homónima de Goethe. Desde que o «Fausto» veio à luz, por assim dizer, nunca mais deixou de inspirar obras, tanto na literatura como na música. Há muitas peças musicais baseadas no poema de Goethe e três grandes óperas, sendo esta de Gounod a mais popular e a que mais vai à cena nas casas de ópera. É uma peça muito melódica e que se desenvolve com muita profundidade.
A peça abre com o Dr. Fausto velho, doente, em fim de vida, a reflectir sobre a falta de sentido do mundo, mas incapaz de se desapegar, revoltado e tentado pelo suicídio, «Nada. Em vão interrogo a Natureza e o Criador», diz Fausto, antes de invocar Satã, com quem fará um pacto de vender a alma em troca da juventude. Este início é muito melódico.
A encenação não começou muito bem, para o meu gosto. Vemos Fausto, já muito velho, entrar numa cadeira de rodas empurrada por uma enfermeira, parar diante de uma banheira gigante no meio do palco (que tem um pêndulo gigante a balouçar para indicar a passagem inexorável do tempo), despir a camisa e ficar nu, de costas para nós. Depois, enquanto ouvimos aquela música impregnante e melódica estamos a ver a enfermeira lavar o rabo do Fausto… não havia necessidade. Percebe-se a ideia do peso da carnalidade humana na superficialidade da vida, mas… enfim, passado este início, foi tudo muito bom.
O tenor, Mario Bahg, cantou a sua parte com muito lirismo, muita sensibilidade, sobretudo nas partes mais íntimas. Mefistófeles, um baixo, Rubén Amoretti, aparece como um dandy fantástico, sempre seguido por dois demónios visualmente insidiosos e maléficos nos seus movimentos (no final, já nos agradecimentos, desmascaram-se e vamos que são duas mulheres) é como um mestre de dança que comanda todas as almas para a perdição eterna. A cena da danação de Marguerite é verdadeiramente impressionante. Num ambiente escuro e fantasmagórico, Marguerite reza, perto de um padre, aos pés de uma pietá. Eis que aparece Mefistófeles e um monte de gente que ele possui, como marionetas momentaneamente animadas, contra ela – a própria escultura ganha vida e Cristo e sua Mãe começam numa dança erótica, bela na sua decadência obscena, tudo cantado com grande beleza e profundidade dramáticas. A cena da dança das bruxas também é impressionante, uma espécie de bacanal dos infernos a acompanhar o enlouquecimento de Marguerite.
Marguerite é a personagem que mais evolui ao longo da peça. Começa como uma donzela cheia de excitação pela vida, pelo amor e pelas riquezas e no fim da obra é uma mulher desiludida, abandonada grávida por Fausto que se esgota -ele, não ela- na busca ávida de prazeres e na satisfação dos desejos.
O soldado, Valentin, irmão de Marguerite que canta uma das árias mais bonitas e famosas da ópera –avant de quitter ces lieux – é um barítono português com uma voz cheia e de grande dimensão, vencedor do prestigiado concurso alemão de Heidelberg, DAS LIED.
Enfim, desde os cenários, muito inteligentes (como têm de ser sempre no São Carlos que é uma casa de ópera muito pequena e não tem espaço para grandes construções em palco), a movimentação das personagens em cena, o coro do São Carlos (excelente), o jogo de luzes que ajudou na perfeição ao ambiente temático da ópera, até à prestação da Orquestra Sinfónica Portuguesa e ao seu maestro, foi tudo muito bom e no fim gritámos todos em ovação como acontece quando as óperas são boas e há um frisson na assistência.
Adoro esta ópera, conheço-a de cor e em casa estou habituada a cantar à medida que ouço música, de maneira que estava a fazer um esforço para acompanhar a melodia só com os ouvidos e a mente.
Para quem gosta de ópera, um espectáculo que quando é bom é insuperável, porque completo, já que inclui tantas artes diferentes, recomendo vivamente uma noite na ópera, no São Carlos, a ouvir o «Fausto» de Gounod.
(André Baleiro canta aqui bem, mas ontem cantou, ainda, muito melhor)
também publicado no blog azul

Não, beatriz j a, obrigado. Não vejo bacanais, nem com música. Só participo neles. Já agora: Margarida foi para o céu. E eu também vou. Já tirei bilhete, e aguardo que o foguete que o Elon Musk mandou construir para me levar esteja pronto.
Porém devolvo-lhe a gentileza, ofertando o filme 13 dias que abalaram o mundo, aqui: M7Q
https://www.youtube.com/watch?v=hAJj3zWR
Tire as conclusões.
Nota: Vi o filme por recomendação de um assessor de defesa de um país deste mundo. Fidel Castro teria informado que este filme retracta a realidade do que se passou. Eu tive oportunidade de confirmar os dados. Deixo aqui a versão dublada.
Beijufas e bfs
Já vi esse filme.
nesta republiqueta só ouvi ópera no Coliseu dos Recreios.
inesquecível a Aida cantada em 58 ou 59 nos termas de Caracala.
teatro cantado prefiro o Italiano ou o de Wilhelm Wagner
Como é possível quererem ser “Humanos” se não gostam de Ópera?
Quem não vai à “ópera” devia ser multado.
Inacreditável!
Apoiado!
Nos dias de “ópera”, a tertúlia começava com um lauto repasto no “Belcanto” (antes de o terem estragado). Depois íamos discutir o enredo para a “Benard”, lá para o fundo, com uns docinhos. E depois, acabámos no “bairro alto” até às tantas.
O “turismo” e o Siza deram cabo do Chiado e de Lisboa.
Isso de ir para o Bairro Alto era dantes. Ontem, a subir a Rua da Misericórdia, de carro, ia espreitando as ruelas do BA. Amontoados de turistas em pé e no chão a emborcar garrafas de vinho. O turismo tem coisas positivas e coisas negativas. Das negativas o Medina devia ter cuidado mas estava demasiado ocupado a fazer-se ministeriável.
Totalmente verdade!
no final da IIGG os camones frequentavam as casas de meninas e pagavam em camisas
Duas notas apenas.
O primeiro dever de uma ópera é ser de Verdi.
Alguém duvidava que os demónios tinham de ser mulheres?
O diabo é homem.
1 – Confesso, que ao ler este Post de Beatriz, me veio imediatamente à memória o grande (e ignorado) José Marinho (1904-1975).
2 – Porquê? Ora leia-se o que dele disse a revista «Cultura Portuguesa» n.1, Agosto-Setembro 1981 (editada pela Biblioteca Nacional, Lisboa) na p.39:
— “Do atentado político a Salazar decorreu a obrigação imposta aos funcionários públicos de assinarem um telegrama repudiando tal atentado. José Marinho não assinou, e subscreveu sozinho um outro texto, o que lhe valeu a expulsão do magistério oficial em termos tais que ele e um monárquico, foram os únicos funcionários do Estado que, nunca viram publicado um decreto a possibilitar a sua reintegração. Expulso do Magistério, José Marinho também esteve preso alguns meses no Limoeiro. O médico Manuel H. Leitão, contava que Marinho em momento algum deixara de manter a mesma alegre disposição. “Logo de manhã a manifestava, ao fazer a barba à janela de grades, cantando árias de óperas.”
3 – Em 1931, José Marinho escreveu nos seus “Aforismos”: “A experiência não é atributo do ser mas do pensar, não se alcança pela multiplicidade sucessiva, mas pela interioridade unitiva”.
4 – Ora, para os que não gostam de Ópera, diria que este pensamento de José Marinho traduz muito daquilo que a Ópera nos pode oferecer.
Obrigada por este apontamento sobre o seu espírito indomável, cantado ópera na prisão, que não conhecia. Muito bom.
Talvez também não saiba que Guilherme Almor de Alpoim Calvão – o mais odiado militar português depois de Marcelino da Mata(*) – era um excelente cantor amador de ópera.
(*) Guardo recordações e imenso respeito e admiração por ambos.
Não sabia que cantava ópera, não.
1 – O que diriam, Alpoim Calvão e Marcelino da Mata, ao que foi dito hoje na conferência “O Futuro da Europa”, promovida pelos mandantes da UniãoEuropeia (comandados pelos EUA/Nato)? Que, a pretexto desta farsa anti-rússia, a actual “regra da unanimidade” vai acabar, e que basta a “maioria” para imporem aos Estados tudo aquilo que quiserem, inclusive a independência.
2 – O que diriam, Alpoim Calvão e Marcelino da Mata, a esta venda da independência e soberania de Portugal, primeiro feita por Mário Soares e Cavaco Silva, e agora por António Costa e por todos os actuais partidos com assento parlamentar?
3 – É uma guerra civil generalizada na Europa, que vocês estão a preparar com o anti-putinismo? É isso que querem?
4 – Sim à Ópera, não à Guerra.
Não à guerra de Putin. Não a Putin. Não ao imperialismo de Putin. Não aos criminosos a mando de Putin. Não aos déspotas como Putin, ladrões decadentes e assassinos depravados.
Sim à luta da Ucrânia pela liberdade. Sim à independência dos povos.
A beatriz não pode ver ópera que sai de lá envenenada. Tão o Putin não está a levar na tromba? Tão não perdeu todos os generais? Tão a Rússia não está numa situação miserável devido às altas e inteligentes sanções? Tão a Rússia não perdeu o exército e não está a rapar o barril para colocar meios militares no terreno? PDA
Não percebo tanto ódio para com alguém que está arruinado e nas ruas da amargura e completamente derrotado.
Já percebi, é somente Phantasia:
https://www.youtube.com/watch?v=P69Z7hmC
Porém deixe-me dizer-lhe que Putin na realidade percebe da arte, e demonstra-o com uma valsa fantástica: 6q8
https://www.youtube.com/watch?v=O8aPJdrl
Beijufas
Não tenho ódio, mas nem sou admiradora de ladrões déspotas (não procuro ídolos nem deuses), nem sou cobarde de fingir que não percebo o que uma pessoa faz de mal e como acredito no dever cívico de denunciar o que é mal por muito pequena que seja a nossa voz (muitas vozes juntas tinham impedido Putin de se tornar o déspota que é) é isso que faço.
Aproveitando seu enaltecimento sobre o dever cívico de denunciar, permita usar dessa prerrogativa para dizer:
Os criminosos da administração Bush, Clinton, Obama, Biden deveriam ser julgados em tribunal marcial por terem perpetrado o caos mundial e a matança, por terem colocado em 2013, com o golpe de estado levado a efeito na Ucrânia, o mundo próximo do abismo de uma III guerra mundial, por desafiarem Putin para uma guerra que lhes salve a perda que já ocorre de sua unipolaridade mundial e da miséria que semearam contra o povo americano e os demais povos do mundo.
Adicionalmente, deveriam ser juntos nesse mesmo tribunal os demais títeres que na Europa e Inglaterra se submeteram à mentira e que a propagam e semeiam o caos.
Mais ainda, Zelensky deverá vir a público justificar a perda dos 50.000 soldados ucranianos que já tombaram em vão. E ainda mais: justificar o porquê de um exército composto por 600 mil homens, que era o 4º maior da Europa, e receber injecções de armamento desde que iniciou os crimes no Donbass, não ter sido capaz de enfrentar uma força de somente 80.000 homens russos. A questão é esta: porque teima Zelensky em não reconhecer a derrota, em alimentar a indústria bélica americana (que agora, com a Grécia falida, fechou com este país um negócio de 13 BILIÕES DE USD, sabendo-se que na Europa, América E Inglaterra JÁ EXISTE FOME) e pretender arrastar os povos da Europa e Ásia para um conflito que é dele ele mesmo deveria ter sabido evitar?
Ainda a título de dever cívico, acrescento: brevemente os povos europeus despertarão e haverá nova tomada da bastilha.
Beijufas
Que grande salganhada que aí vai. Esqueceu-se de mencionar as cruzadas e os espanhóis na América quinhentista.
Sua agilidade de raciocínio continua a deixar-me maravilhado. Já agora, beatriz j a, só como quem não quer a coisa:
Por que motivo os ingleses (que incentivaram e coordenaram o plano) e Zelensky não se pronunciaram ainda pelos fortes tabefes que levaram há pouco menos de 2 semanas nas ilhas Zmeiny? Os generais ingleses não dizem nada?
A beatriz já ouviu falar destas ilhas? O que sabe sobre elas sem ter de consultar a wikipédia?
Por favor, chame o polígrafo para se pronunciar sobre minhas afirmações.
lol, como se eu pautasse a minha vida pela opinião de pessoas que têm um site que chamam polígrafo como se fossem a boca da verdade, qual sacerdotes para papalvos. Sim, já ouvi falar dos russos dizerem que a capturaram e que umas dezenas de soldados ucranianos se renderam. Sabe o que me parece fantástico? Ucranianos renderem-se é considerado uma coisa tão extraordinária e invulgar, que a notícia faz capas de jornal. Já dos russos, nesta guerra, não se pode dizer o mesmo…
beatriz j a, voltei a enamorar-me de você com a resposta que deu sobre o polígrafo. Obrigado por confirmar o que eu pretendia. M-84_Harpoon) para que fosse atacada a armada russa estacionada no mar negro. Sim, esses mesmos misseis que o pobrezinho Zelensky pedia que Portugal também fornecesse. É um doido. Portanto, os ingleses têm alucinações e o alucinado Zelensky também. E os harpoon continuam quietos.
Agora sobre o restante: Nã, beatriz. Nã. Isso que refere ocorreu há mais de 2 meses. Eu referia-me ao que ocorreu em Zmeiny há pouco menos de 2 semanas.
Mas eu não a quero na ignorância e vou explicar brevemente o enredo:
os extraordinários generais ingleses bolaram um plano juntamente com Zelensky para reocupar a ilha Zmeiny. A ilha Zmeiny tem uma extraordinária importância estratégica. Acontece que os rapazes de Putin deram tanto, mas tanto mesmo, na corneta aos atrevidos que a ilha mantem-se na posse dos bravos russos. Mas a história não acaba aqui. Como levaram na corneta, os ingleses pediram que os ucranianos fossem fornecidos de misseis anti-navio Harpoon (https://pt.wikipedia.org/wiki/Boeing_AG
Beijufas
Vou procurar ler sobre isso quando tiver tempo. Quanto à armada russa estacionada no mar negro, estão a impedir a entrada e saída de toneladas de alimentos da Ucrânia.
1 – A minha incredulidade, e meu sentimento de nojo, é este apoio cego a um «regime zelensky&azov» totalmente fascista, xenófobo e cobarde.
2 – Zelensky é como aquele miúdo que provoca e ataca a mesa onde está sentada outra família na mesma esplanada. Porque acredita que o pai (EUA/Nato), lá atrás, o vai defender se essa família (Rússia) lhe der uma bofetada e o parar. O problema, é que na mesa dessa família atacada pelo fedelho está alguém que dá uma tareia no pai dele que o incita e o deixa atacar a mesa dos vizinhos.
3 – Foram 8 anos a torturar, perseguir, violar e matar os vizinhos e concidadão ucranianos que tiham amizade à Rússia. Morreram mais de 13 pessoas. Os que agora se escandalizam, são os cúmplices dessa ignomínio, os que foram criminosos pelo silêncio de deixarem o «regime zelensky&azov» cometer esse genocídio.
4 – A minha pergunta é sobre o direito a viver na terra onde se nasceu, onde se tem família, e onde se quer continuar a ser “ucraniano” lá.
5 – Mais de 5 milhões de «ucranianos pró-russia nascidos na Ucrânia» queriam continuar a ser “ucranianos”, não queriam ser “russos” nem viver na Rússia. Até tinham representação parlamentar (eram 11 partidos, resultantes do voto popular, que zelensky aboliu e proibiu).
6 – Esses «ucranianos a favor de uma relação fraternal e amiga com a Rússia» não queriam ser “russos”, queriam ser “ucranianos”. Nem sequer impediram que o «regime zelensky» ganhasse as eleições e governasse.
7 – A minha pergunta é, por isso, a seguinte: — Porque «zelensky&batalhãoAzov» necessitava de os perseguir, violar e matar durante 8 anos? Por se achar com mais direito a ser “ucraniano” do que eles?
8 – O que «zelensky&batalhãoAzov» fez, com a cumplicidade da Nato/Eua, foi um acto criminoso de genocídio e xenofobia, que o coloca na categoria de anti-democrático e fascista.
9 – E vêm para aqui exaltar um regime destes; enviar-lhe armas para fazer a guerra; e imporem sanções à Rússia para os nossos filhos e as nossas famílias pagarem inflação, desemprego e mais pobreza?
Não diga estas coisas que fica mal… Zelensky um cobarde? Quer dizer… isso é abaixo da crítica séria… ainda mais quando vemos que Putin já quase só aparece em versão holograma.
SAP3i, não sinta nojo, mas regozijo. Biden, Zelensky & Cia. estão a levar das boas. Era preciso que tudo isto acontecesse. Fique satisfeito porque, depois desta curta paragem, a festa vai ser ainda maior. É realmente provável que num futuro muito próximo Putin envie não o aviso mas a confirmação nuclear, táctica. E não será na Ucrânia que isto se fará sentir.
A “Menina da Brasileira” e a Ópera…
1 – Uma história verídica ocorrida em 23 de julho de 2019… Nesse dia, como habitual, antes da horda desenfreada de turistas assaltar (assassinar) a “Brasileira”, lá tomei o café (naquele sítio do balcão antigo onde se conseguia ver uma nesga do Tejo).
2 – A “Menina da Brasileira” (como a própria insiste em dizer, aquela Senhora que costumava estar no quiosque) tinha regressado de um longo calvário de problemas de saúde, com origem na tiroide. Ficámos à conversa, apenas interrompida por outro habitual, que também lhe deu as boas-vindas. “Já somos dois”, dissemos.
3 – São cinquenta e seis anos de “Brasileira”. O filho e o neto vão-lhe sucedendo no quiosque (situado lá dentro, à direita de quem entra) nos intervalos das maleitas de saúde. Três gerações sempre ali (avó, filho e neto).
4 – É uma história de Lisboa e da Ópera, que está prestes a perder-se. Um tesouro, ali, escondido pelos talibãs do turismo; e por aqueles que fingem trocar de sorrisos e afetos, tal é a pressa com que o fazem.
5 – Nesse dia, 23 de julho de 2019, contou-me mais uma “história da Brasileira” (uma história de Lisboa e da Ópera):
5.1 – Contou ela: — “Todos os dias um Senhor, que se sentava na mesa em frente ao meu quiosque, recebia uma chamada de telefone, que eu fazia o favor de lhe passar.” (ainda não havia telemóveis, e a Menina da Brasileira nessa época vendia café, no lado oposto ao atual quiosque, nem havia o atual balcão corrido, era tudo cadeiras e mesas até ao fundo).
5.2 – “O que me intrigava, nessa repetição diária de passar-me o telefone, era saber que o Senhor cantava ópera no São Carlos, não percebendo porque lhe telefonavam todos os dias, estando ali tão perto”.
5.3 – “Eu tinha 17 anos. E tive que dar à luz o meu filho, sem cesariana, e a sangue frio, na Maternidade Alfredo da Costa. O meu filho nasceu grande. Esvaí-me em sangue, e a enfermeira estava em pânico, sem saber como conter a situação. Tive a sensação de que era ali o meu fim”.
5.4 – “De repente, abriu-se uma porta, e um médico abeirou-se de mim. Na aflição, nem olhei para a sua cara. Mas ele reconheceu-me. Apenas ouvi uma voz forte ordenar: «O que se passa enfermeira? Porque a parturiente está nestas condições? Façam já uma transfusão de sangue!»”.
5.5 – “Mais tarde, no recobro, a enfermeira perguntou-me: «Então a menina conhece o nosso Diretor? Sabe, ele salvou-lhe a vida»… “Não, não conheço”, respondi eu. Entretanto, o médico entrou…”.
5.6 – “Era aquele Senhor que todos os dias se sentava na mesa à frente ao meu quiosque, aquele que recebia todos os dias um telefonema, e que eu, intrigada, fazia o favor de lhe passar o telefone!”.
6 – Sim, era o cantor lírico Álvaro Malta. Aquele que contracenou em 1958 com Maria Callas no Teatro Nacional de S. Carlos. Que também era médico, e diretor na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa. E lhe telefonavam da Maternidade, para os casos mais graves, enquanto estava a ensaiar no S.Carlos…
7 – Histórias da Ópera… digo eu.
E ainda há alguém aqui, com desplante, que ousa não gostar de Ópera?!
Essa história é fantástica. Dantes, quando as pessoas tinham o mesmo emprego durante muito tempo, no mesmo sítio, conheciam muita gente e se eram observadoras, tinham sempre histórias para contar.
O tempo em que não havia telemóveis e internet agora parece tão distante. Era outra vida. Era preciso saber esperar horas, dias e às vezes anos, sem notícias das pessoas.
Excelente SAP3i