A primeira casa que reconstruí – 2


Paulo Sousa,

Entrar lá dentro era um perigo. O chão de madeira tinha zonas completamente podres e ameaçava ceder na próxima passada. Parte do forro do tecto já tinha caído e nos poucos metros quadrados não construídos a erva era da minha altura.

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É nesta altura que talvez faça sentido falar sobre a solidão de quem decide meter-se num negócio. Tudo à minha volta era mato, tábuas velhas e podres, utensílios queimados pelos anos que ficaram para trás no dia em que aquele sítio deixou de ser um lar. Um sofá podre, uma gaiola enferrujada, um capacete de motorizada que já tinha servido de ninho de ratos, cacos de faianças partidas e inúmeras provas de que quem ali tinha vivido, sofreria de um certo grau da patologia designada por acumulação compulsiva. Perante aquele cenário, quase assustador, senti que estava a observar um diamante em bruto. A orientação solar da casa era perfeita, a marca Aljubarrota garantia-lhe pedigree, a reduzida dimensão era à medida da minha capacidade de investimento, os muros que a rodeavam garantiam a privacidade e à frente da casa havia sempre estacionamento. Talvez eu estivesse errado e aquele monte de entulho nunca iria valer a energia necessária para o recuperar. Poderia ficar encravado sem dinheiro para conseguir acabar as obras e naquela altura nem sabia que valor seria necessário investir nem como aproveitar o espaço. Mas as dúvidas nunca deixam de pairar sobre a cabeça de quem mergulha num negócio, especialmente se não o dominar. Estás a meter-te nisto para quê? Podias ser funcionário público, daqueles que dizem que trabalham em casa, ou mesmo que tivesses de ir à repartição, às cinco da tarde já estavas naquele sofá onde nunca te sentas, mas que serve de metáfora ao não fazer nada. Porra, raio de comparação! Vou a jogo e pronto. Se não correr bem, cá me hei-de arranjar. Pago para aprender e fico com mais uma história para recordar. E não gozes com os funcionários públicos, que também podias ter nascido assim!

O assunto estava em marcha e, tal e qual como as rodas de entrada, já não iria andar para trás.

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Continua

13 comentários em “A primeira casa que reconstruí – 2”

  1. Fico sempre impressionado com a capacidade das famílias de destruirem o património herdado. Como os bens continuam indivisos o comportamento comum é o não: não deixo, não autorizo, não assino, que é como quem diz, quero mais, dá-me mais ou não há nada. E vai de palacetes a casebres, tudo deixado ao abandono décadas a fio. Ainda por cima é fácil de resolver: se não se entendem fora do tribunal então é enviar o caso para processo de inventário ou de divisão de coisa comum. Mas como dura tempo, leva dinheiro e ficam todos à briga preferem ir deixando andar. Por isso defendo que a lei passados X anos, eventualmente cinco, deve punir pelo fisco quem faz isto, tanto que os obrigue a largar o osso. Sem duvida, é propriedade privada mas esta não é um bem absoluto. Há também o direito relacionado com o urbanismo. Tudo isto, em todo o lado, porque um mano, um cunhado, quer ir ao bolso do outro mano ou do cunhado. Pior, a partir da segunda, terceira geração, é quase impossível de resolver porque cada um foi para seu lado e não há maneira de ter um papel assinado.

    1. Depois de ter ganho o hábito de observar casas velhas, confirmo o que diz. A esmagadora maioria delas ficam abandonadas e em ruínas em resultado de problemas de partilhas.

    2. Se mão estou em erro, em vários municípios, por exemplo o de Almada, prédios devolutos e/ou em ruína sofrem uma taxação bem mais elevada ao nível do IMI. Inclusive, vi na Caparica uma vivenda perto da praia nessas condições que tinha as devidas placas a informar quem por lá passe do agravamento, quanto mais não seja para vergonha dos proprietários. Penso que são medidas urgentes, não só para os prédios em ruína mas essencialmente para os prédios devolutos nos grandes pólos urbanos. Se um imóvel não tem contrato de luz e água e de gás (nas zonas onde este é canalizado) deve o IMI subir exponencialmente, visto que na prática os proprietários assim fomentam a especulação e contribuem de forma ativa para a gravíssima crise de habitação em que vivemos.

      1. Sei de um caso em que após diversos agravamentos de imi, lá se avançou com um projecto. Agora é a câmara que não deixa construir. Aventuras na República Portuguesa.

    3. Em Portugal é o pão nosso de cada dia. Aqui na Áustria passados 5 anos a “birra”acabava.É como os arrendamentos,há um teto para cada zona das cidades.

  2. O lixo no interior da casa é o menos, o construtor civil retira-o depressa. O problema é quando há paredes interiores de pedra que seja necessário retirar: acarretar pedras custa muito.
    As casas que eu recuperei também estavam assim, cheias de lixo e com os telhados e placas parcialmente caídos.
    Um problema são as autorizações camarárias. Para alterar o interior não são necessárias, mas para fazer platas e telhados novos, são. O meu construtor civil fez tudo às escondidas, porque se não as coisas teriam ficado empancadas na Câmara.

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