As primeiras coisas que os pedreiros fizeram foi tratar da demolição do telhado, paredes interiores e remoção do entulho. Com uma mini-escavadora teria sido mais rápido, mas só lá entraria depois de mandar o muro abaixo ou teria de se instalar uma grua. Avançou a marreta, pá e carro de mão, alavanca, picareta e chuva de Novembro no lombo. Como esta parte da obra foi negociada à hora, juntei-me ao serviço. Poupei na despesa e ganhei o respeito daquela malta rija, da velha guarda. Ser trolha, apesar de ser uma profissão cada vez mais bem paga, tem um injusto ónus social que não ajuda a atrair sangue novo. Não me surpreende que em pouco mais de uma década a esmagadora maioria dos operários de construção civil sejam estrangeiros.
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Depois de levantadas as paredes e colocado o telhado, era a hora de definir os locais por onde passaria a instalação eléctrica e canalização. Como o projecto não incluía a localização nem a quantidade das tomadas e interruptores, esta parte foi toda decidida e feita por mim. Os pedreiros foram para outra obra e durante algum tempo fiquei eu a tratar de abrir os roços para as tubagens e a chumba-los com cimento.
Sempre fui bricoleiro, mas era reduzido o contacto que tinha tido com coisas como amassar cimento, massa forte, massa fraca, três por um, quatro por um, com ou sem saibro para ter goma ou não (entendedores entenderão). A segunda vez ficou melhor que a primeira e algum tempo depois já podia avançar o electricista e o canalizador. Na parte eléctrica também consegui que o técnico só tivesse metido a mão na massa para a montagem do quadro e da rede informática.
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Aqui chegado, o plano era parar a obra até ter algum interessado na sua compra. A razão oficial era que assim poderia adequar os acabamentos ao gosto do cliente. A razão real era porque a drenagem a que as minhas finanças tinham sido sujeitas até aquela fase da obra aconselhava a não ter pressa. Por sorte, através de um dos mediadores imobiliários com quem tinha fechado contrato, apareceu um casal estrangeiro que, surpresa minha, logo quiseram fazer a promessa de compra e venda, mesmo sem ter posto os pés no local. Nunca seria capaz de sinalizar uma casa sem a visitar primeiro, mas o mundo é diverso e tem mais graça assim.
Daí em diante, já com o folgo do sinal na algibeira e com a massagem à alma por ter conseguido transformar uma ruína em algo interessante, tudo passou a correr mais depressa. A montagem da cozinha, depois de escolhida pelos compradores numa popular loja de mobiliário, ficou também por minha conta.
Para o final estava guardado outro trunfo em que tinha tropeçado ainda há mais anos e que guardara metodicamente para mais tarde. Aquela era a ocasião certa. Uma cerâmica aqui próxima desmontou um forno antigo e depositou os tijolos usados num terreno ali próximo que pertencia ao dono. Muitos anos passaram, a cerâmica faliu e os tijolos ficaram esquecidos debaixo do mato e sobre os quais já tinham nascido vários eucaliptos. Quando numa volta de bicicleta os descobri, não descansei antes de conseguir o contacto do dono, que já nem sabia que ali tinha aquilo. Fiz uma proposta por atacado para o lote completo, fechamos negócio e durante várias semanas andei a transportar tijolos para casa. Em algumas dessas várias idas e vindas fiz questão que o já referido escuteiro me acompanhasse. Além de que assim entretido ficaria afastado dos ecrãs, garanti-lhe que naquela tarefa iríamos verificar sensorialmente uma abstracção matemática. Ele começou por achar que era uma conversa da treta, mas acabou por ficar curioso. Talvez por não estar habituado a que lhe minta, acabou por aceder. E não é que o cota tinha razão? Perante a descoberta, tirou várias fotos para levar para a escola e mostrar ao professor e à turma. Quando começamos a remover os tijolos sobre os quais tinha nascido um dos eucaliptos… ali estava ela… a raiz quadrada!!
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O Paulo Sousa só não nos explicou o mais elementar: qual a área e a tipologia da casa. Tem 30, 100, ou 200 metros quadrados? É só rés-do-chão ou tem andar?
Eu ainda tinha uma réstia de esperança que todo este esforço do Paulo Sousa fosse para contribuir para acabar com a crise da habitação… mas não: é só para mais uma segunda habitação turística. É pena…
Cheguei a pensar nisso, mas como o Governo Costa já tinha agarrado nesse problema, considerei-o resolvido.
Também me parece que seria melhor o Paulo ter deixado a casa ficar em ruínas. Assim evitava-se esse flagelo conhecido por casa para segunda habitação…

Por acaso passou mesmo a ser habitação principal. Os meus clientes também contam para as estatísticas, que desconhecemos, dos estrangeiros entre nós.
Ah, se é assim, então retiro o meu comentário anterior. Se a casa serve para alojar imigrantes, ainda bem, isso é ótimo! Bom uso lhe dão!
Uma casa reconstruída é sempre melhor do que uma casa em ruínas, e louvo o Paulo SOusa pelo seu trabalho e investimento. (Que eu também já fiz.)
Mas uma casa habitada em permanencia é sempre melhor do que uma segunda habitação.
Na foto parece-me ver uma casa velha encostada à sua.
Por herança de família directa – que eu saiba pelo menos há 150 anos – em meu nome 1987, tenho um terreno com 12.000 m2 com uma casita em ruínas só com paredes de barro contígua e encostada a um barracão de outro proprietário. Não é que há 6, 7 anos pela Internet vim a descobrir que a casita e 30 ou 40 m2 estava na propriedade do vizinho?
Nem Câmara, Finanças, Conservatórias e por fim a Direcção Geral do Território que ( limpou as mãos, embora eu lhes propusesse a ir lá com testemunhas que lá trabalharam) corrigem o erro feito quando pelos encartados desenhadores dos mapas topográficos feitos não sei em que ano, talvez 15 anos.
Cumps.
Só lá vai com uns milhares de Euros e Justiça.
O inferno burocrático português não é restrito ao mundo dos imóveis, mas o dos imóveis é exemplarmente kafkiano. Boa sorte nisso.
Se está na propriedade de outra pessoa, registada como tal na conservatória predial, se é ela que paga o IMI, então já foi; provavelmente através de uma acção de usucapião.
O IMI é referente a cultura arvense ( oliveiras e figueiras), a Casita ( em ruínas só paredes de barro) com 15 ou 16 m2 deve ter uns 150 anos. Naquele tempo não havia as modernices do IMI para este tipo de casitas.
A minha também é muito antiga mas nem por isso deixo de pagar IMI. Paga IMI do prédio? Senão, quem paga?
Essa da “raiz quadrada” é de mestre. Parabéns!
Depois da dor nas costas alcançadas, ele acabou por reconhecer que preferia as da escola.
Muito bom, divertiu-se e ganhou dinheiro. Eu ando a ver casas no interior e digo-lhe que descobri uma pérola. Como não tenho recursos financeiros nem tempo, deixo o link, é um sonho com 4.5 hectares e casa de campo:
https://www.idealista.pt/imovel/34369864/
Parece bom, sim senhor, mas também muito valente para consumir investimento.
Tenho um fraquinho por tudo o que é antigo, sobretudo se estiver bastante maltratado, seja casas ou móveis. Apaixonei-me por uma ruína na serra da Lousã que depois transformei na minha casa de campo (uma casa onde poderia viver gente, como diria o Balio). Já tinha renovado apartamentos, mas uma obra daquela complexidade e dimensão foi outro campeonato. Deu imenso trabalho, mas foi muito compensador ver as entranhas da construção, e casa a tomar forma. Estou cheia de curiosidade para ver o resultado da sua reconstrução.

PS- Muito boa essa da raiz quadrada.
A logística da distância eleva ao quadrado as complicações de um restauro. Isto na senda das metáforas matemáticas…
“…ali estava ela… a raiz quadrada!!”
Em vez de tentar cativar o puto para a matemática não será melhor mostrar-lhe a energia verde e dizer antes que são tijolos biológicos.