Existem várias formas de paralisar a argumentação sobre questões religiosas. Desde logo, há quem defenda que a religião não se discute. Esta posição vem, normalmente, de quem professa uma determinada religião. E significa, na verdade, que não se discute essa determinada religião que é professada. Já todas as outras são passíveis de discussão. Do alto da superioridade moral da religião que não se aceita discutir. Uma outra forma consiste em manifestar uma intransponível equidistância relativamente a todas as religiões. É uma posição própria de quem está ou quer colocar-se fora do círculo religioso. Dela decorre, por exemplo, que quando existe um conflito extremado entre correntes religiosas, se possa sair airosamente dizendo que estamos perante radicalismo de ambas as partes. O que nos alivia do pesado fardo de tomar partido por uma delas. Ora, parece-me que nenhuma das duas posições é aceitável. Explico. A religião, para os que a professam, não constitui um mero caminho interior, individual, de ligação com o divino. A religião apela a uma ideia de comunidade e de prática. Nessa medida, de exteriorização. Que tem impacto na sociedade dos Homens. O respeito pela fé professada por cada um não pode ser entendido como dirigido à religião em si mesma. Pelo contrário, resulta do respeito pela radical liberdade e dignidade do indivíduo nas suas múltiplas expressões: artísticas, culturais, profissionais e, naturalmente, religiosas. Daí que a religião possa e deva ser discutida sempre que as suas manifestações contendam ou se desviem do projecto social comum. Por outro lado, a equidistância acaba por levar à mesma consequência de não questionar o essencial. Queira-se ou não, o fenómeno religioso é uma das manifestações mais evidentes do ser humano. Mesmo os que se colocam de fora, devem admitir este facto como dado histórico inquestionável. Como dado inquestionável é a importância da religião na conformação do substrato social de valores. Deste modo, não se deve prescindir de comparar religiões pelas consequências que estas têm nas sociedades humanas. Como não se pode deixar de comparar o estado de evolução das diversas sociedades, sempre tendo presente que a sociedade perfeita não existe e que o valor fundamental é a dignidade humana. O que está aqui em causa é que a única forma de dar resposta a quaisquer actos de violência religiosa é uma intervenção que garanta a liberdade e a igualdade dos cidadãos. De todos eles. Mas, isto não significa neutralidade. Significa uma defesa sem quartel de todos os que são acossados pela sua crença religiosa. E um ataque igualmente intransigente a todas as formas de perturbação da liberdade de expressão, religiosa ou outra, dos cidadãos. Neste particular, não podem ser colocados em pé de igualdade os que condenam qualquer forma de violência e aqueles outros que, perante actos violentos como os ocorridos em Alexandria em 31 de Dezembro de 2010, se remetem a um ensurdecedor silêncio. Da mesma maneira que não merecem o nosso silêncio todos os que têm da convivência religiosa a interpretação estrita que resulta do versículo 5:5 do Corão: O you who believe! do not take the Jews and the Christians for friends; they are friends of each other; and whoever amongst you takes them for a friend, then surely he is one of them; surely Allah does not guide the unjust people. Precisamente a interpretação que é negada por tantos muçulmanos mas que se ouvia nos últimos tempos na boca de certos Imãs em algumas mesquitas de Alexandria. Tal como não se pode calar a condenação a representantes da Igreja copta que afirmaram que os muçulmanos são convidados no Egipto. Perante situações como estas, ou quaisquer outras em que seja questionada a tolerância e a convivência pacífica, não serve calar. Importa afirmar os valores da dignidade humana. Os únicos relativamente aos quais se justifica uma defesa activa e radical. Que deve sobrepor-se a uma certa moda do religiosamente correcto. E que, se não vejo mal, só podem ser protegidos no contexto de uma organização social laica e interventiva em que, como diz Savater, as crenças filosóficas ou religiosas sejam um direito de cada um. Mas, não o dever de ninguém e menos ainda a obrigação geral da sociedade no seu conjunto. O que é precisamente o contrário de ser-se anti-religioso.
A propósito do atentado de Alexandria: é urgente discutir religião e sociedade
Rui Rocha,

Assumo-me como cristão, mas não tenho complexo em assumir que o direito de defender a minha crença termina quando o outro é descrente da minha e não deseja mudar essa situação.
Que a minha religião deva ser discutida em sociedade e internamente para o bem colectivo é um facto, caso contrário nunca teria sido possível terminar com a inquisição.
É esse o ponto, Carlos. Não enquanto crença em si mesma, mas enquanto exteriorização que pode contender com a sociedade.
Concordo em absoluto, Rui. E também acho que é urgente discutir-se as consequências da intolerância religiosa, porque o ódio está a alastrar e a fazer cada vez mais vítimas. Não é uma questão de discutir a crença, mas o que se faz com ela.
Volto a recomendar o filme “Dos homens e dos deuses”, que, de uma forma sublime e serena, nos faz reflectir nestas questões.
Tenho muita curiosidade em ver, Ana.
Portugal é uma Nação de Matriz Cristã! e a organização social, só pode ser tambem Matriz Cristã!
Concretizando…