
Ontem a rainha Elizabeth II deu posse a Liz Truss como primeira-ministra, o 15º chefe de governo do seu reinado. A relevância da rainha assentará no estatuto da Grã-Bretanha, à época do seu nascimento o maior império mundial, mas acima de tudo na sua extrema longevidade e na magnífica hombridade com que tem reinado – verdadeiramente credora do epíteto “Serena” – ao longo de tamanhas transformações, no seu país e no mundo. Decerto que por tudo isso assistimos, há poucos meses, a uma generalizada, global mesmo, homenagem aquando da celebração do seu 70º ano como monarca. Neste mundo turbulento ela é, julgo, o liame que ainda nos liga ao século XX.
Há dias recebi os dois últimos caixotes de livros provenientes da minha mãe. E se já me havia convocado para uma profunda rearrumação das minhas estantes, assim mais fiquei pressionado. Encetei a vasculha, predisposto que estou a prescindir – mais uma vez – dos livros, revistas e documentos que considero impertinentes ou anacrónicos, por mais que alguns tenham (mero) valor sentimental. Uma das caixas, escondidas em divisões de dessarrumadas “arrumações”, contém a colecção de livros e folhetos de viagens dos meus pais, deliciosas relíquias oriundas daquelas décadas entre 1940 e 1980. O meu pai estagiou (hoje diríamos “fez o mestrado”) em Inglaterra no final de 1940s, a minha mãe lá completou os seus estudos de inglês na década seguinte. Dessas estadas ainda restam algumas brochuras, mapas e guias de cidades e museus. Uma delícia, de várias das quais me fui livrando com pesar, saudade mas também prazer – pois deixando-me imaginar o como teriam aqueles jovens (que, como é óbvio, só vim a conhecer bem mais tarde, e já casados) vivido essas experiências.
Mas aludo a tudo isto devido a esta pequena pérola que ontem (re)descobri. Em 1956 a minha mãe estava em Inglaterra estudando. E assistiu à celebração do aniversário de Elizabeth, esta mesmo que hoje recebe Truss em Balmoral, quando o primeiro-ministro era Anthony Eden.
E como tal aqui reproduzo a deliciosa brochura que recordou aquele momento, uma verdadeira peça etnográfica:











(Postal ontem colocado no Nenhures)

Ainda pouco relíquia, relacionado com a Rainha Isabel II, tenho um periscópio, ou para o mesmo efeito, feito em cartão com um espelho na extremidade superior para ver a Rainha passar no Rossio quando em 1957 visitou Portugal.
Nesse mês de Fevereiro de 1957 houve um desfile desde o Terreiro do Paço, Rua Augusta e no Rossio, com uns taipais devido às obras do Metro, lá apareceu um vendedor ambulante com uns periscópios para se espreitar o desfile por cima dos taipais.
Que dizer de uma mulher que fez do serviço à Pátria o seu sentido de vida? Honra lhe seja feita. Serviu o Reino Unido.
E serviu-se a si própria.
Agora é chegado o tempo de ver se os britânicos partilham a sua opinião. Paz à sua alma.
Nem mais, Albino Manuel (e nem vale a pena argumentar com gente deste registo)
Como monárquico convicto e racional, familiarizei-me com expressões como: –o Rei é um fantoche, não serve para nada.
A minha observação ao longo dos meus 63 anos é de que nas repúblicas europeias, excepto a França, o Presidente da República é que não está a fazer nada, para além de ocupar o Palácio Real com todas as mordomias de um Rei.
Nas repúblicas ao estilo EUA, o PR é o chefe do governo, equivalente aos nossos primeiros ministros.
Dá-me razão Karl Popper ao elogiar a monarquia pelo seu efeito psicológico. Guardiã do passado e do futuro. Qualquer coisa como um sentimento ecologista de não viver apenas o presente.
Faltam-lhe algumas mordomias, a parentela não tem toda direito a viver à conta do contribuinte, incluíndo filhos adultos, noras irmãs, tios e quejandos.Têm de prestar contas regularmente e o cargo não é vitalício.
O problema das monarquias constitucionais é que só são democráticas se o monarca não intreferir na vida pública, nomeadamente na política. Mas se não intrevém na vida pública o monarca transforma-se num “bicho de estimação” do país extremamente caro e inútil.
Excelente. Toda uma tradição que se perdeu.
pensa-se que o Reino Unido está por um fio
Não me parece que a Monarquia sobreviva depois ou mesmo com William.
Então se fosse Harry nem tinha dúvidas.
A tendência para Marcelização da Monarquia é real. A Rainha protegeu a Monarquia abstendo-se de dar as suas opiniões pessoais. Os que aí vêm não sabem estar calados.
A rainha é ótima porque não intrevém no país e já viveu muitos anos.
É verdade que poderia ser pior, mas parece pouco ter uma vida longa e o melhor que se tem a dizer dela é que não estragou. E fez o quê, além de filhos?
Não fazer também é fazer. Mas um progressista como jo não entende sequer a manutenção do que está.
Note-se que o Reino Unido teve políticas muito dispares no seu reinado.
https://youtu.be/cIYfiRyPi3o?t=304
Não fazer também é fazer. Nesse caso bastava deixarem uma estátua no lugar da senhora. Era mais barato e sempre servia de poleiro aos pombos.
A estátua não ocupa espaço politico. Passa de não fazer para não existir.
O espaço político que a rainha ocupa está todo nas imprensa “do coração”. Passavava-se bem sem isso.
Está no não Presidente que assim não existe, na camara dos lordes, na Marinha Real, na Real Força Aérea, e nas inúmeras instituições.
E assim nos preparamos para lhe dizer adeus.
Maravilha, esta recordação.
E um dos postais mais premonitórios publicados no DELITO.
Infelizmente assim foi. Que coisa, confesso que me sensibilizou este tétrica coincidência. Grande Senhora.