“A roda dos enjeitados consistia num mecanismo utilizado para abandonar (expor ou enjeitar na linguagem da época) que ficavam ao cuidado de instituições de caridade.
O mecanismo, em forma de tambor ou portinhola giratória, embutido numa parede, era construído de tal forma que aquele que expunha a não era visto por aquele que a recebia. O abandono de bebés nas rodas era considerado como alternativa ao aborto ou ao infanticídio.
Esse modelo de acolhimento ganhou inúmeros adeptos por toda a Europa, principalmente a católica, a partir do século XVI.”
A Wikipédia apresenta a definição acima para o que diz ser um “mecanismo”, reduzindo assim o significado da solução que, em certos períodos da história, a sociedade criou para lidar com os bebés abandonados ou mesmo assassinados. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa tem o maior arquivo do mundo com os sinais e mensagens deixados com os recém-nascidos.
Não sei quando é que esta solução caiu em desuso, nem o que é que a Lei de Protecção de Crianças e Jovens prevê como solução para situações que noutros tempos se resolviam com a entrega do bebé na roda, mas tropecei numa notícia acompanhada com o seguinte vídeo.
Muito resumidamente, Monica Kelsey fundou o que imagino ser uma ONG designada por Safe Haven Baby Boxes e que já instalou 191 destas “rodas” em 14 estados norte-americanos. Como explica, a base deste sistema já existia nos EUA, associado ao que designamos por Quartel dos Bombeiros, mas não garantia o anonimato da mãe. Com as Safe Haven Baby Boxes que criou, a confidencialidade das mães fica garantida. Monica Kelsey explica também que a sua motivação resulta de ela própria ter sido abandonada e de aos 37 anos ter conhecido a sua mãe.
As rodas dos expostas criadas por Monica Kelsey já receberam 180 bebés.

Há um claro desencontro entre a oferta e a procura: em muitos países há casais dispostos até mesmo a pagar dinheiro para adotarem um bebé.
vi antiga roda num hospital perto do Vaticano.
hoje existem as pílulas e a camisa de Afrodite.
para gente descuidada concordo com a iniciativa.
Na Alemanha, também há este género de “boxes”, há vários anos.
Já aqui escrevi sobre isso. Vou ver se encontro o link.
Não encontrei. Antigamente, não assinalava muito bem os meus “postais” e ficam difíceis de encontrar.
Enfim, encontrei um post sobre um meu bisavô, exposto da Santa Casa de Lisboa istoria-viva-11999315
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/h
Que grande pontaria a minha. Nascer e a primeira coisa que me acontece é ser enfiado num caixote a girar.
Não sei se a minha mãe era uma santa ou uma pecadora. Só sei é que me pôs ali, naquele sítio a cheirar a desinfetante e a boas intenções como quem se livra de um problema.
E pronto, o grande dilema moral da minha progenitora ficou resolvido: nem aborto, nem infanticídio. Fiquei na box das “alternativas”.
Chamaram-lhe mecanismo. É um nome tão querido. Parece uma peça de relojoaria, não um sistema para despejar gente minúscula. A confidencialidade era mais importante que a dignidade.
A minha vida não começou no berço, mas numa espécie de máquina de vending de bebés.
180 bebés. É o número da minha turma. Somos uma estatística feliz da Monica Kelsey, a heroína que foi enjeitada e agora é a Rainha dos Caixotes.
É giro, a senhora foi abandonada, conheceu a mãe e, em vez de se zangar, montou uma franquia de abandonos anónimos.
É o capitalismo enjeitado: transformar a tua tragédia num modelo de negócio.
Ainda hoje, quando ouço um bip de alarme ou vejo uma porta a girar, sinto-me um embrulho esquecido. E tudo por causa de um “mecanismo” em forma de tambor.