A Saúde necessita de cuidados intensivos


Pedro Correia,

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O Serviço Nacional de Saúde, peça central da narrativa propagandística do Governo, está a precisar de cuidados intensivos. Não é de agora, mas a situação agrava-se a ritmo acelerado. E o rosto desta crise, com picos caóticos que levaram ao encerramento de diversas urgências hospitalares nos últimos dias, é o da ministra da tutela. Que por vezes fala como se fosse recém-chegada ao cargo. Mas não é: Marta Alexandra Fartura Braga Temido de Almeida Simões, 48 anos, conduz o Ministério da Saúde desde Outubro de 2018. Recebeu elogios pelo combate à pandemia, a mesma lógica leva-a ser criticada neste momento de notório desgaste do SNS, incapaz de dar resposta aos problemas que se acumulam sem solução à vista.

Nenhuma máquina de propaganda oculta as evidências. «Existe um problema estrutural sério no SNS, que se está a agravar muito, de incapacidade de planeamento e gestão de recursos», declarou há dias Adalberto Campos Fernandes, antecessor de Marta Temido, pondo o dedo na ferida em entrevista à CNN portuguesa. É médico, foi ministro, sabe bem do que fala.

A profissão está envelhecida, o sector público há muito deixou de ser aliciante. Cerca de 40% dos clínicos de medicina geral e familiar têm mais de 65 anos. Os serviços de atendimento permanente revelam incapacidade de organizar escalas face aos recursos disponíveis. Os médicos somam mais de oito milhões de horas extraordinárias no SNS, tendo atingido em Maio o limite máximo previsto para o ano inteiro.

Metade dos obstetras já transitou para o privado. E a situação agrava-se neste período em que todos os dias recebemos milhares de turistas. O caso de uma grávida que perdeu o bebé por aparente falta de especialistas no hospital das Caldas da Rainha introduziu uma componente de tragédia num quadro que se tornou dramático. Desmentindo a imagem de inefável modernidade que o Governo tenta exibir ao mundo para atrair visitantes.

A ministra, que parecia desaparecida, falou enfim esta semana. Mas quase nada disse, refugiando-se numa oratória sem conteúdo, truque retórico que aprendeu com António Costa quando nada há de concreto para anunciar.

Não adianta iludir a questão, ocultando-a com torrentes de palavras. Os extenuados profissionais do SNS exigem de Marta Temido a revisão das carreiras, a garantia de melhores remunerações e a existência de condições de trabalho que lhes permitam exercer com eficácia a relevante missão que desempenham. Caso contrário, a sangria para os hospitais privados prosseguirá. Ou até o recurso à emigração.

Há em Portugal 1,3 milhões de cidadãos sem médico de família, contrariando todas as promessas feitas pelo primeiro-ministro em campanha eleitoral. Isto ajuda a perceber por que motivo 4,5 milhões de portugueses já optaram por seguros de saúde ou subsistemas como a ADSE.

Todos fazem um diagnóstico preciso da situação. E sabem que nenhum problema sério nesta área se cura com ideologia ou hossanas incessantes a um serviço público que necessita de atendimento urgente. Para não sucumbir de vez.

 

Texto publicado no semanário Novo.

38 comentários em “A Saúde necessita de cuidados intensivos”

  1. Tudo se resume a compreender o que seja a remuneração de pessoal dependente em situação de concorrência.
    O Estado sente-se confortável assalariando serviços com que ninguém concorre, em que os utilizadores ou têm por eles pouco interesse ou são obrigados a usá-los sob risco de penalidades.
    Mas se à exigência dos utilizadores e à ausência do imperium estatal acresce a concorrência, a burocracia sente-se ameaçada e o pasmo das categorias universais e suas pasmosas equivalências entram em rutura.
    Reformas? Só com menos Estado.
    Dinheiro? Ainda nem começaram a fazer contas…

  2. Marta Fartura Temido, é ministra do SNS.
    Sugiro que Costa crie mais um ministério para o SPS (Serviço Privado de Saúde).
    Tudo isto com um Super Ministro a coordenar os dois ministérios, por exemplo o Cabrita que está disponível.

    1. António Costa em Setembro de 2016:
      «2017 é, de uma vez por todas, o ano em que todos os portugueses terão um médico de família atribuído.»
      https://www.jornaldenegocios.pt/economia/politica/detalhe/costa_promete_medico_de_familia_para_todos_os_portugueses_em_2017

      António Costa em Janeiro de 2022:
      «Não vou assumir outra vez uma data de calendário. (…) Não foi possível, vamos fazer de tudo para o conseguir. Nós não desistimos de que todos os portugueses possam ter médico de família.»
      https://www.jornaldenegocios.pt/economia/saude/detalhe/antonio-costa-nao-se-compromete-com-data-para-que-todos-tenham-medico-de-familia

      Realidade actual:
      Há 1,3 milhões de portugueses sem médico de família
      https://www.rtp.pt/noticias/pais/13-milhoes-de-utentes-sem-medicos-de-familia_v1402743

      António Costa,

  3. Permitir a formação ou a contratação no estrangeiro de mais médicos também ajudaria, mas isso não, que temos médicos a mais,

    1. Nunca houve tantos médicos, o problema é a recusa dos recém-licenciados em ingressar no SNS.
      https://expresso.pt/sociedade/2022-05-12-Portugal-nunca-formou-tantos-medicos-de-familia-mas-grande-parte-deles-nao-concorre-ao-SNS.-Porque–b7489369

      Talvez porque o SNS está muito longe de ser aquilo que a propaganda governamental pinta. O problema vai-se agravando cada vez mais, à vista de todos.
      Daí metade dos portugueses ter já seguro de saúde ou acesso a algum subsistema.
      Para evitar situações como a que é descrita aqui:
      https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/o-joao-e-um-militante-da-direita-14227797?thread=109668949#t109668949

      1. Vamos por partes. Não há médicos que queiram entrar no SNS mas também não há médicos desempregados.
        Das duas uma: ou os que estão na clínica privada não estão a fazer nada que seja útil, ou há mais médicos que vagas.
        Se por acaso o SNS passase a pagar 10 000€/mês aos médicos, as vagas eram preenchidas, mas então as instituições privadas ficavam com falta de médicos. A menos que sejam elas que não fazem falta nenhuma e só existem neste momento para “secar o SNS”, ao mesmo tempo que são pagas, não diretamene pelos doentes mas por convenções, com dinheiro que vem do SNS.

        1. Já percebi que, pela sua lógica, a culpa está muito longe de ser do Governo que perdura há quase sete anos.
          A culpa deste caos no SNS é dos próprios médicos.
          E, claro, também do Passos.

  4. Metade dos obstetras já transitou para o privado. E a situação agrava-se neste período em que todos os dias recebemos milhares de turistas.

    Quer dizer que as turistas vêem a Portugal para dar à luz?

    1. É proibido as estrangeiras grávidas visitarem Portugal ou existirá algum apartheid no SNS que impeça uma grávida não-residente no País de receber assistência médica num hospital público?

      1. Estrangeiras gravidas devem ficar em casa nos seus respectivos países. Se querem laurear a pevide que venham enxutas.

  5. Há muito que a Direita quer acabar com o SNS. Aproveita tempos difíceis para atacar o governo de todas as maneiras e feitios. A saúde é cada vez mais para ricos e todo o tipo de negócios fajutos. O Chega fascista é cada vez mais a voz da oposição que conduz o rebanho dos descontentes no logro da mentira de mil aventuras . Acorda Salazar, o povo chama por ti!

      1. Fraquinha?
        A quem é que mais interessa um SNS em estado colapso. A resposta é fácil curta e sintética camarada Correia. Os privados que facturam e querem facturar ainda mais as custas do orçamento dos portugueses. Liberalismo selvagem é somente exploração e apenas isso.

        1. Outro disco rachado a debitar a cartilha do partido.
          Na hora do aperto, estes metem a cartilha no bornal e são os primeiros a recorrer aos seguros de saúde e aos hospitais privados. Sem se sujeitarem às listas de espera para exames e cirurgias – essa gloriosa conquista do socialismo sanitário.

          1. Tem razão, a cartilha socialista é prometer tudo e mais alguma coisa, quando acaba o dinheiro dizem que o mundo mudou.

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