A sedução do poder


Patrícia Reis,

 

 

 

Juan Luis Cebrián é uma referência importante no jornalismo europeu. Pelo papel que teve na fundação e consolidação do El País como principal jornal espanhol – e também pela sua acção como pedagogo, revelado enquanto autor de obras como Cartas a um Jovem Jornalista. Por tudo isto, foi enorme a minha decepção ao ler ontem, no El País, um texto dele sobre Nicolas Sarkozy que mais não é do que um desabragado panegírico ao Presidente francês. Um texto que descredibiliza a reputação de Cebrián, a tal ponto que pode apresentar-se, em futuras cartas a jovens jornalistas, como exemplo evidente do que não se deve escrever.

Seguem alguns trechos desta longa conversa entre Cebrián e Sarkozy, intitulada ‘O Poder e a Felicidade’:

 

"Estamos en los jardines del Elíseo en torno a un café y en mangas de camisa, bajo un sol de primavera del que se defiende con unas rayban de cristales ahumados que ocultan sus ojos claros, transparentes, embaucadores hasta la seducción. Es fácil sucumbir a ella."

– "De acuerdo al catecismo, mentir es decir a sabiendas lo contrario de lo que uno piensa con intención de engañar o confundir al prójimo, convencido estoy de que Nicolas Sarkozy no es, desde luego, de los que mienten."

"El es ahora dueño de su tiempo, lo regula, lo ordena, discurre por él con un aire de seguridad que no exhalaba cuando era candidato. El poder le ha cambiado, para mejor, como si le hubiera incitado a transcurrir la distancia que media entre el homo faber y el homo sapiens.

"Vi al presidente francés más sólido, más tranquilo, más seguro de sí mismo, más decidido que nunca a implantar sus reformas. Más contento también."

 

Leio esta autêntica peça de propaganda ao Presidente francês e questiono-me, como outras vezes já fiz, sobre o que levará tantos profissionais da informação – incluindo alguns dos mais conceituados – a sucumbir com aparente facilidade aos mecanismos de sedução do poder. Por cada Bob Woodward, que se mantém como jornalista tantos anos depois do caso Watergate, surgem oito Cebriáns – ou nove, ou dez, que cedo trocam as redacções pelas administrações de órgãos de informação e passam a encarar o poder político com olhos cúmplices, perdendo a perspectiva crítica que outrora cultivavam.

Há muitas formas de desprestigiar a profissão. Esta é uma das mais eficazes. E uma das mais letais – por vir de dentro.

22 comentários em “A sedução do poder”

  1. Infelizmente, desta feita concordo consigo: o poder corrompe e a sedução do glamour dos poderosos, pelo lido, corrompe absolutamente.

    Boa noite.

  2. Se o jornalista fosse uma mulher, eu arriscaria dizer que tinha sucumbido não só à sedução do poder como à sedução “no” poder, tendo em conta o charme de Sarko…
    O que só desculparia em parte a atitude, naturalmente, mas não te tiraria nem um pingo de razão.

  3. Deste trecho, notoriamente infeliz, logo a seguir a algumas declarações polémicas de Sarkozy nos últimos dias, senão de sempre, percebi que es fácil sucumbir a ella …. La seducción del presidente francês!
    Muito antes de ter lido este texto notável, vi algures uma noticiazinha sobre a visita do Presidente Francês Empieza la visita de Estado de Nicolás Sarkozy y Carla Bruni a España. O presidente galo …..
    Achei bem. Apropriado. O presidente galo. Melhor, é impossível.

  4. O Cébrian estará desiludido com o socialismo, como é natural em Espanha, e se calhar apeteceu-lhe dar fôlego ao homem que disse que o chefe de governo espanhol parece pouco inteligente, mas nada justifica esta graxa. Parece a introdução do Salazar à entrevista de Ferro… a Salazar. Prefiro pensar que é Alzeimer…

        1. Alguém em declínio, a ficar no anonimato, ficaria muito seduzida pelo atraente status quo ….
          Repare que status quo não é o primeiro nome do presidente francês!

  5. Sabe como se chama “moçoila” Directora de programas da TVE? Um doce para quem…………..
    Não se iluda com os Cebrians deste mundo.

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