A teia de cumplicidades na guerra


Patrícia Reis,

Sem uma profunda teia de cumplicidades pessoais, ao mais alto nível, a II Guerra Mundial não teria sido o que foi. Esta é a tese central do historiador francês Marc Ferro no seu livro Sete Homens em Guerra. As cumplicidades foram simétricas: assentaram, do lado do Eixo, na forte relação pessoal entre Hitler e Mussolini e, do lado ocidental, na firme aliança entre Roosevelt e Churchill. Entre os dois pólos, oscilou Estaline – que em 1939 assinou o pacto de não-agressão com Berlim e em 1941, com os tanques germânicos a acossá-lo, se aliou a Londres e Washington. As restantes figuras históricas que justificam o título do livro são o general Charles de Gaulle, chefe da França Livre, e o imperador japonês Hirohito, aliado de Hitler no Oriente.

 

Ferro revela múltiplos episódios protagonizados por todos eles. Hitler, por exemplo, era um antigo admirador de Mussolini. Quando se encontraram pela primeira vez, o alemão ofereceu ao italiano as obras de Nietzsche, o seu filósofo preferido. Estaline, por sua vez, manteve laços diplomáticos com a Roma fascista durante cerca de uma década. E no início dos anos 30 mandou traduzir para russo o Mein Kampf, de Hitler, obra que leu atentamente. Churchill, embora detestasse o líder nazi, chegou a ser um notório admirador de Mussolini. Roosevelt e Estaline estimavam-se mutuamente. A tal ponto que na conferência de Ialta, quando o presidente americano não compareceu a uma sessão de trabalho por se encontrar muito doente, o ditador soviético teve a preocupação de visitá-lo. “Porque é que a natureza o castiga desta forma?”, interrogou-se no final, virando-se para Molotov e Gromyko, que o acompanhavam.

 

Alguns outros episódios:

– Quando visitou Estaline, em Dezembro de 1944, De Gaulle recusou dormir na Casa de Hóspedes do Kremlin, alegadamente por ter “muitos micróbios”, optando pela embaixada francesa. E enalteceu Estalinegrado como “símbolo da unidade entre aliados”, ignorando o esforço solitário dos russos. Resultado: Estaline reservou-lhe um tratamento glacial.

– Em Ialta, o ditador soviético apresentou o temível Beria, chefe do KGB, a Roosevelt e Churchill. “Quem é?”, perguntou-lhe o inquilino da Casa Branca. “É o nosso Himmler”, respondeu Estaline, deixando os seus interlocutores gelados.

Abril de 1943: Hitler e Mussolini encontram-se em Salzburgo. Estão macilentos, precocemente envelhecidos. “Dois doentes”, arrisca alguém. “Não, dois cadáveres”, corrige o dr. Pozzi, médico de Mussolini. Não se enganava: para os dois tiranos, aquele era o princípio do fim.

 

Sete Homens em Guerra. De Marc Ferro (Bertrand, 2008)

395 páginas

Classificação: * * *

12 comentários em “A teia de cumplicidades na guerra”

  1. Caro Pedro!

    O tempo tem singularidades tremendas, como aliás o seu post prova.
    Por falar em singularidades, permita-me que lhe dê nota do regresso do meu “Latitude 40”.

    Espero voltar a tê-lo como leitor.
    Obrigado.

    Abraço.
    A. Luís

  2. Existe um livro sobre a época da 2ª guerra mundial e mais concretamente sobre o holocausto nazi(lembrei-me por ver a foto do Hitler), já o li e reli e não entendo como foi possível tamanha barbaridade e ainda menos que existam pessoas a negar o holocausto. Este livro é difícil de encontrar mas já o encontrei aqui na net:

    “auschwitz inferno de mulheres”

    1. Há centenas de livros que aqui poderia recomendar, Ana. Este que refiro é muito interessante. Outro é ‘1939 – Contagem Decrescente para a Guerra’, de que falarei um pouco mais acima.

  3. Há qualquer coisa de muito subtil (e às vezes não tão subtil como isso) que é comum às personalidades dos grandes “senhores da guerra”. Por isso se reconhecem como pares, se respeitam e raramente se subestimam. Não é estranho que essa matéria que partilham os faça cúmplices, por mais que se encontrem em campos opostos.
    O livro deve ser bem interessante, Pedro.

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