A Emigração foi o assunto do Contra-Corrente da segunda-feira passada na Rádio Observador. Não apenas a emigração dos anos 60 e 70, mas também a emigração da chamada “geração mais bem preparada de sempre”. Além do enquadramento do tema feito pela sempre acutilante Helena Matos, ouviram-se vários relatos contados na primeira pessoa. É muito diferente a situação de quem pretende ter uma experiência internacional para valorização pessoal e aqueles que a certa altura no programa são descritos como sendo refugiados económicos. Nestes casos, ninguém emigra de ânimo leve e foram vários os participantes que assumem a perda, o corte e o desenraizamento, mas esse é o custo para os que ambicionam sair de casa dos seus pais e a ter um plano de vida.
Foram diversos os pensamentos que me cruzaram o espírito enquanto ouvia este programa, mas o que se sobrepôs foi a tristeza pela incapacidade do país em se governar, em zelar pelos seus.
E se nos media nacionais a silly season costuma coincidir com os meses de Verão, a realidade continua a pairar e a dar sinal de si. Ao contrário do que aconteceu durante o período em que fomos intervencionados pela Troika (continuo à espera de uma explicação sobre o motivo que levou o governo socialista de então a ter pedido ajuda), os partos nas ambulâncias já não abrem os telejornais. Agora, só lá pelo minuto 20 ou 28 dos noticiários são abordados os bebés que morrem por falta da normal assistência médica e hospitalar. A mortalidade materna aumentou significativamente, mas isso passou a ter apenas uma importância relativa. A abundância das queixas desta natureza poderia resultar de um grande aumento da natalidade, mas infelizmente além de o país ter bebés insuficientes, ainda se dá ao luxo de não os estimar.
Os media mais gelatinosos sabem bem que quem se mete com o PS leva. Confirmando a teoria evolucionista de Darwin, segundo a qual só quem se adapta pode sobreviver, já passaram a noticiar os serviços médicos que ainda funcionam. Como tudo é muito Simplex e Modernex, o SNS até disponibiliza esta informação on-line. Grande pinta.
O Expresso noticiou no passado fim-de-semana o disparo da mortalidade em Portugal. As estimativas relativas ao primeiro semestre de 2022 foram ultrapassadas em mais de 5.000 óbitos. Os especialistas ouvidos afirmam que o envelhecimento da população já estava considerado nessas mesmas estimativas e as mortes por Covid justificam apenas uma pequena parcela do total. Algo que importa entender está a escapar ao escrutínio político.
Também sobre este tema, João Miguel Tavares no Público acrescenta ainda que as bases de dados públicas, que permitiriam estudar a evolução da mortalidade, estão a ser alvo de um meticuloso tratamento pelos seus responsáveis que impede que se cheguem a conclusões claras.
Entretanto, soubemos que Sérgio Figueiredo, ex-director da TVI, foi contratado por ajuste directo pelo Ministério das Finanças. Podemos desligar esta contratação do facto de o actual ministro das Finanças ter sido remunerado até há pouco tempo como comentador nesse mesmo canal, mas para isso temos de fazer muita força. Sabemos também que Sérgio Figueiredo é amigo da maior referência ética do PS e isso é apenas mais uma coincidência.
Os empresários portugueses são acusados de serem atrasados e incultos, mas a realidade mostra-nos que a mais elevada taxa de IRC dos países europeus da OCDE é afinal um custo que eles têm de suportar para estarem livres de concorrência. Assim, sem investimento estrangeiro e sem a entrada de novos operadores, não têm de progredir, não têm de melhorar os seus métodos nem a qualidade da sua gestão. Também não têm de competir pela mão-de-obra pois enquanto os seus trabalhadores não decidirem emigrar, não terão mais ninguém que venha do exterior para lhe oferecer um salário mais alto.
Um em cada cinco de nós vive na pobreza e ao mesmo tempo sabemos que os patrícios que estão bem estacionados na pirâmide do estado, que vivem de rendas e não da riqueza que não produzem, não toleram qualquer reforma ou mudança. Perante a evidência gritante dos factos que aqui muito resumidamente enumero, todos eles transportam consigo, bem memorizadas e na ponta da língua, uma lista de ditos e esconjuros a que recorrem amiúde. Isto está mal por causa do Passos, da direita, das gasolineiras, da pandemia, dos privados, dos liberais, da guerra, tudo serve. Mas a falência evidente dos serviços do estado faz com que apenas os lunáticos fervorosos e os que confundem a realidade com aquilo que observam a partir do seu umbigo, ainda acreditem que está tudo óptimo.
Quem quiser desligar tudo isto dos números referentes ao consumo de psicofármacos, que o faça, mas para mim esse é apenas mais um indicador do nosso tremendo insucesso social deste início de século.
É tudo demasiado triste.

Sim, demasiado triste. Deprimente. Expectável. Infelizes os que precisam do SNS e de outros serviços públicos em notável processo de decomposição.
Estamos tramados!
Catarina Silva
Nem mesmo os que têm familiares ou conhecem alguém dentro do SNS (outra miséria nacional, o ter de conhecer alguém) não se safam. E sei do que estou a falar.
Não sei por quê, fala-se muito de emigração mas pouco de imigração.
É que, há muita gente que imigra para Portugal. E são cada vez mais. E cada vez mais até acabam por pedir a nacionalidade, e alguns até ficam por cá.
Convém também ver isso.
Já percebi que quando os seus dois filhos resolverem emigrar não lhe vai custar tanto porque imigraram os filhos de outros para cá.
Estranhos sentimentos esses.
Se os meus dois filhos tiverem oportunidade de emigrar, melhor para eles.
A emigração é geralmente boa para quem emigra. Felizes aqueles que podem emigrar. Não os lamentemos a eles, lamentemos somente aqueles que não o podem fazer.
Sobre isso basta ouvir o que os nepaleses dizem sobre as condições dos contentores onde vivem em Odemira. Em casa é bem pior.
Pode querer misturar esse tipo de imigração, mas só serve para desviar o assunto.
Não há somente nepaleses a imigrar para Portugal. Há muitos europeus, israelitas, brasileiros (muitos deles educados e ricos), etc. Não resuma a imigração para Portugal ao seu nível economicamente mais baixo. Há muitíssima gente instruída e profissionalmente bem colocada a trabalhar em Portugal.
Os nepaleses, tal como eles próprios dizem, estão melhor em Portugal do que estavam no Nepal. Progrediram na vida. Subiram. Ainda bem para eles, felicitemo-los por isso. Ainda bem que imigraram para Portugal: isso foi bom para a qualidade de vida deles, e para a nossa.
Exportamos gente com cursos públicos caríssimos e de cujo conhecimento não beneficiamos — e importamos uns tipos esquisitos e analfabetos para andar de bicicleta em contramão e entregar pizzas. Negócios à PS.
Eu também ouvi o programa (oiço sempre em podcast; sou fã do José Manuel Fernandes, e sobretudo da Helena Matos) e fiquei bastante deprimida.
A vida já foi, sem dúvida, mais difícil em Portugal do que é hoje. Mas agora perdeu-se totalmente a esperança. Os mais novos perderam a esperança no país e fogem. E os mais velhos arrependem-de de não ter emigrado. É um triste fado.
PS- Se estivesse no governo um partido de direita já tinha caído o Carmo e a Trindade com este colapso do SNS.
Com muito menos, o governo já teria caído. E isso já é de há muito. Basta imaginar se o Sócrates tivesse sido PM pelo PSD.
Para cair teria de ter acontecido aquele infeliz atropelamento no rally da Madeira, por falta de segurança.
Mas, por aqueles lados qual maioria, qual quê, nem as cheias, os fogos, as quedas das árvores são por faltas dos governantes, isso são coisas para o continente.
teria de ter acontecido aquele infeliz atropelamento no rally da Madeira
Muito mais que infeliz: revoltante.
Não conheço o local, mas como é possível que se façam ralis no meio de zonas povoadas, numa estrada que tem casas à sua esquerda e à sua direita, e passando por um sítio que até tem – uma passadeira para peões?!
Como é possível que uma menina seja atropelada numa passadeira de peões, e que isso não seja imediatamente motivo de um processo-crime a quem promoveu o atropelamento?
É inacreditável, tudo isto.
o governo já teria caído
Houve uma eleição legislativa há sete meses, que colocou no poder o atual governo. Não acha que é um pouco cedo de mais para que ele caia? Se ele caísse, seria substituído – por quê?
um belo retrato , sem dúvida . e sabendo-se que a demência está associada ao consumo regular de psicofarmacos , nem sei que diga
Parte da mansidão nacional que permitiu suportar 48 anos de ditadura pode ser explicada com o elevado consumo de vinho. O regime publicitava então, beber vinho é dar o pão a 1 milhão de portugueses. Os tempos são outros e as substâncias também. O resto é igual.
“beber vinho é dar o pão a 1 milhão de portugueses” pode ser assim atirado aos salazaristas.
Eles ficam sem resposta, bem podiam dizer que aquilo querer dizer que dava a ganhar o pão/chouriço/queijo/batatas/couves ao 1 de milhão de portugueses que trabalhavam na produção de vinho. O mesmo aconteceria em França, Itália e Espanha.
O cartaz é da Junta Nacional do Vinho, não sabemos como passou na comissão de censura.
Provavelmente a ideia era chamativa a beber uns copitos e não substituir o vinho por pão.
Estranho como o Presidente, o Primeiro Ministro, os Jornalistas não falam de gritante escassez “estrutural” de Capitalismo no País.
Errata: onde aparece a tag “socialismo” deve ler-se “capitalismo”.
Acredita mesmo que a mais alta taxa de IRC dos países europeus da OCDE não é socialismo, mas sim capitalismo. E também acredita que nos paraísos socialistas não há emigração. O Muro de Berlim entra nessa sua lógica palerma, certo?
Num país que privatizou tudo e mais alguma coisa ao preço da uva mijona há “mentes brilhantes” que vêm falar em socialismo. Não conheço nenhum “paraíso socialista”, mas também não conheço nenhum “paraíso capitalista”, aliás, eu vivo num “inferno capitalista” onde as maiores corporações estão a aproveitar-se do sofrimento do povo ucraniano, que está a defender-se heroicamente do psicopata capitalista Putin, para aumentar os preços de tudo e mais alguma coisa. Já ouviu falar nos lucros extraordinários da GALP? E o “palerma” sou eu?
As pessoas não votaram no PS para ficar melhor, as pessoas votaram no PS para não ficar pior, são coisas diferentes.
A sede de ir ao pote do governo anterior foi tanta que não olharam a meios para atingir fins e o maior erro que fizeram foi ter roubado os pensionistas que eram a sua base de apoio.
Faz-me rir. São uns risadas tristes, mas faz-me rir.
Não tem de responder à seguinte pergunta: “quantos anos/décadas de governação do mesmo partido e segundo as mesmas políticas e práticas, seriam necessários para que concluísse que o país está mal, por falhas desses mesmos governos e políticas e não por culpa dos que não governam?”
Pode rir à vontade mas pode crer que enquanto os pensionistas se lembrarem do roubo que tiveram nas pensões, o PSD tão cedo não vai ao pote.
Vive mesmo obcecado com o PSD.
E os jovens que se amanhem. O acesso ao futuro está bloqueado pelas forças conservadoras. Somos realmente governados pelos inimigos do futuro. Há por aí um texto meu sobre isso.