A vaia


Adolfo Mesquita Nunes,

Houve um tempo — há sempre um tempo destes em cada Governo — em que José Sócrates julgou ter tudo sob controle. Houve um tempo — há sempre um tempo destes em cada Governo — em que José Sócrates viu em cada má notícia um pretexto para sacar um coelho na cartola. Houve um tempo — há sempre um tempo destes — em que José Sócrates se convenceu que o país inteiro se importunava com as perguntas da oposição e apreciava o silêncio da governação. Houve até um tempo — há sempre um tempo destes — em que José Sócrates acreditou que as trapalhadas podiam ser apagadas pelas atrapalhadas intervenções de Augusto Santos Silva. Houve um tempo — para quê insistir? — em que José Sócrates acreditou que os portugueses eram suficientemente distraídos para se deixarem comandar pelas técnicas de propaganda.

E há sempre um momento — há em todos os Governos — em que o primeiro-ministro se apercebe que as tácticas do costume já não resultam nem permitem vencer. Não sei se a vaia sofrida por José Sócrates marca, como diz o Pedro Picoito, o princípio do fim ou o fim do princípio. Mas sei que marca o momento a partir do qual José Sócrates percebeu que a maioria absoluta já não permite más notícias, arrogâncias gratuitas e disparates de Santos Silva.

A vaia pode marcar qualquer outra mais. Mas marca seguramente — e já não é pouco — o momento a partir do qual José Sócrates se viu forçado a mudar de estratégia. Veremos se muda, intensificando o controlo que exerce sobre o Governo e o espaço público ou se muda, começando a tratar o sistema político com o institucionalismo que lhe tem faltado.

6 comentários em “A vaia”

  1. Não sei se a vaia tem mais importância que ene expressões de desagrado e até indignação popular com que já deparou.

    Só se for por na citada vaia não poder haver qualquer dúvida sobre a genuinidade e espontaneidade. Mas muitas manif’s contra ele também não foram manipuladas barra orquestradas.

    1. O que acho interessante é que nunca vi tantos comentários ou anónimos ou de Nicknames pouco legíveis a defender o primeiro-ministro…

      Andará o pessoal da Central da Imagem em pleno Contra-ataque pelos Blogs ?

      Outra coisa interessante é a comparação dos Posts da Câncio com as suas intervenções na TVI24… Deu-lhe para a timidez ao vivo e a cores ou não aguenta o J. Pereira Coutinho e o F. J. Viegas ? Para quem se toma como assanhada… (Obrigado J. A. Saraiva!)

      1. Desconhecia que da leitura do meu comentário que deu origem a uma resposta de autor devidamente identificado se pudesse concluir que sou apoiante do licenciado por fax.

        O autor da resposta devia concorrer a repórter da TV, daqueles que têm sido aqui trazidos pelo João Carvalho.

  2. Os truques de magia
    em tons de rosa encenados,
    são cristalina demagogia
    de socialistas empanados!

    O descontentamento é geral
    por um espectáculo delirado,
    este política visceral
    deixará o país irado!

    O mexilhão insatisfeito
    neste jardim ensolarado,
    sente o seu dinheiro desfeito
    por um “socialismo” desvairado!

  3. A vaia foi apenas mais um sintoma, Adolfo. Longe até de ser o mais significativo. A descida à rua de cem mil professores fartos de ver o seu poder de compra depreciado, as suas condições de trabalho aviltadas, a sua autoridade diluída e o seu estatuto social em queda para níveis impensáveis foi o princípio do fim – e não a vaia no CCB. No dia da manif dos profes, JS terá percebido que a maioria absoluta socialista terminará sem apelo nem agravo nas próximas legislativas.

  4. A vaia não foi ensaida, nem planeada, nem comandada. Foi um sentimento geral e não instrumentalizado entre pessoas que se afastam um pouco da ideia de sindicalistas manietados pela CGTP. Esta é a mudança.

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