É verdadeiramente extraordinário que os que ponderam ponderar candidatar-se a Presidente do PSD continuem sem explicar ao certo ao que é que vêm e o que é que correu mal nestes últimos anos no partido e prefiram análises estratégicas e não programáticas. Poderia tratar-se de táctica, o que torna este meu post precipitado, mas a verdade é que tudo parece passar-se como na última disputa pela liderança, tempos em que reinava a ideia de que o PSD falhava apenas pelo líder e pela sua circunstância.
Ora, como na altura disse, nos idos tempos de Abril de 2008, é finalmente a hora de o PSD descobrir qual o seu espaço na nova década. Qual o seu papel. Se é que tem algum. Ora, essa descoberta será difícil enquanto o PSD estiver dominado não só por quem não vê para além dos dois meses que sucedem à manchete do jornal como também por todos aqueles que insistem e continuam a insistir que o PSD se deve posicionar no centro esquerda e a defender o modelo do Estado social.

Eu acho que o Adolfo tem essencialmente razão. O problema do PSD é falta de uma ideologia. E nestas últimas eleições os partidos sem substrato ideológico firme foram severamente castigados – veja-se o MEP e o MMS e, precisamente, o PSD.
O problema do PSD não é a social-democracia nem o seu excesso. O problema do PSD é que nele se misturam social-democracia, conservadorismo e municipalismo em grandes doses, com uma pequena dose de liberalismo nalguns sítios. Esta mistura de quatro ideologias torna o todo completamente incoerente.
Este problema, em minha opinião, é insolúvel. Não há solução ideológica para o PSD que não tenha que obrigar o partido a cindir-se. Não pode haver um partido ideologicamente coerente e que abarque todas as pessoas que atualmente se acolhem ao PSD.
É por isso que todos os candidatos a líderes se assumem em termos estratégicos ou pessoais, jamais em termos ideológicos. Porque sabem que, se se assumissem em termos ideológicos, teriam que partir o partido.
“O problema do PSD é falta de uma ideologia”
Caro Luís Lavoura, se me permite, o problema não estará antes na apropriação de algumas linhas mestras historicamente do PSD pelo PS? E, sendo assim, o argumento da perda de ideologia não seria mais aplicável ao PS?
Ainda em meados dos anos 90 o PS digeria mal a entrada de privados em áreas como a banca, por ex.
No entanto, em Portugal os rótulos “esquerda” e “direita” têm um efeito enorme…e não é só (como seria normal) sobre as pessoas com menor formação.
Cumprimentos,
vap
Concordo com ambos. Não vejo solução para uma possível unidade do PSD, tendo um ADN com tal cruzamento genético.
Se formos olhar para os programas dos partidos nas últimas eleições são muito mais nítidas aproximações entre o PSD e o CDS do que entre o primeiro partido e o PS. Tanto na estratégia de crescimento económico assente nas PME e na rejeição das grandes obras públicas, como na rejeição de um Estado motor do crescimento através dos grandes investimentos públicos. Por isso, vindo do Adolfo, este post não faz grande sentido, a não ser de um ponto de vista estratégico.
Compreende-se e é lógico que o post do AMN se insira na estratégia do CDS de tentar aproveitar o bom resultado e afirmar-se como o partido da direita portuguesa à custa do PSD. Mas se formos ver os programas eleitorais vemos que o CDS nem é liberal, nem conservador. Basta ver que as propostas mais ideológicas do partido (por exemplo, em matéria de liberdade de educação) estiveram ausentes dos debates televisivos, predominando nessa sede, em que realmente se vê a firmeza ideológica de um partido, o discurso social do combate ao desemprego, partilhado por todos, em especial, pelos partidos da extrema-esquerda.
Daí que, se formos pelo prisma da análise, pura e dura, o CDS tenha de ser qualificado como um partido semelhante ao PSD e não como um partido de direita, seja a conservadora ou a liberal. De diferente apenas a lógica de pequeno partido por oposição a um catch-all party que o PSD tem necessariamente de ser; e por isso também a lógica de apelar a nichos do mercado eleitoral (agricultores, pescadores, polícias), ainda que a expensas de alguma descaracterização ideológica.
Numa altura em que a tendência é para considerar que tudo correu mal no PSD, eu pessoalmente acho que o que falhou redondamente foi a capacidade de assentar o discurso de oposição nos números da economia e na demonstração de que o país está pior hoje do que estava em 2005. De resto, o programa era aceitável, a líder – com todos os seus problemas de comunicação – também. Se o PSD pensa que tem de inventar a roda nos próximos tempos, arrisca-se a perder votos à direita e à esquerda; se preservar na estratégia que definiu, o tempo dar-lhe-á razão. Mais rápido do que se pensa.
Caro José Barros,
O meu post não se insere em qualquer estratégia do CDS. É algo a que resisti sempre, na minha presença de 5 anos na blogosfera, isso de usar os meus blogues para puxar a brasa à minha sardinha. Por isso verá várias e bastas críticas ao meu partido, mais até do que elogios. Críticas essas que vão muito no sentido do que o José Barros aqui refere: desnorte ideológico, demasiado socialismo cristão, resistência ao liberalismo, etc (sendo certo que nestas eleições, apesar de tudo, muitas dessas críticas puderam ser atenuadas). Escrevi aliás um ensaio, publicado, precisamente sobre esse assunto.
O que o meu post quer referir, e nesse aspecto ele toca na estratégia actual do CDS, é que o PSD de MFL parece achar que apenas os restantes partidos têm de assegurar a governabilidade, algo que ela ainda ontem repetiu em Bragança. E utiliza um só argumento: o PSD é que é a alternativa ao PS.
Ora, sendo certo que os programas do PSD e do CDS se associam em muitos pontos, outros há, essenciais, em que o PSD está mais próximo do PS do que o CDS. Fiscalidade, segurança, leis penais, segurança social, imigração. Ou seja, nesses pontos, a alternativa ao PS é o CDS. Noutros será o PSD. É tanto quanto baste para dividir o ónus da governabilidade pelos vários partidos.
Um abraço,
a.
Fui militante do PS durante a juventude onde sempre me coloquei na ala mais à direita do partido. Fui, progressiva e naturalmente, afastando-me de um socialismo latente. Depois de deixar o PS tive imensa dificuldade em encontrar o meu espaço político. O PSD sempre me pareceu uma amálgama de “barões e baronetes” sem norte ideológico que sustentasse as suas opções políticas. E, claro, votei conscientemente no CDS para estas eleições, precisamente porque à direita, o CDS é a única alternativa.
A sua análise do PSD é aquilo que tantas e tantas vezes se diz à boca pequena, até no seu interior. Se ainda existe é graças ao “centrão”. Mas o Portugal de hoje não é o Portugal de há 30 anos e o fantasma de Salazar está quase tão enterrado como o de O Desejado.
Na verdade na verdade no PSD a direita nunca existiu. Deus queira que o CDS continue o seu caminho de afirmação.