Ainda há heróis


Patrícia Reis,

  

 

No coração da remota China muçulmana, pelo menos 156 pessoas foram abatidas por balas governamentais em nome da sacrossanta ‘unidade’ do Estado e da estabilidade ‘socialista’. Que crime cometeram? Procurarem manter a identidade cultural, falando a sua língua e professando a sua religião no país mais populoso do mundo, onde a norma é esmagar toda a diferença. Acontece hoje no Xinjiang, acontece há meio século no Tibete, aconteceu em 1989 na própria sede suprema do Império do Meio. Sei bem do que falo. Há vinte anos, vivi em Macau um dos períodos mais tristes de que me lembro, quando vi esmagar a Primavera com que milhões de chineses haviam sonhado – a Primavera política, após quatro décadas de ditadura, afogada em sangue naquela trágica madrugada em Tiananmen. Recordo as expressões festivas nos rostos de muitos chineses semanas antes, dias antes, horas antes, quando toda a esperança parecia possível. Recordo as figuras dos principais dirigentes estudantis, imagens que galvanizaram toda uma geração – jovens como Wang Dan e Chai Ling. Recordo o impressionante instantâneo daquele homem anónimo, de braços nus, enfrentando uma fileira de tanques, imortalizado pelo clique da máquina fotográfica de Stuart Franklin. Símbolo máximo da dignidade humana perante a força bruta – há duas décadas em Pequim, hoje no Xinjiang que teima em ser diferente.

Quando ouço dizer à minha volta que já não existem heróis, lembro-me sempre daquele homem sem medo. Que outro nome haveremos de dar-lhe senão esse – o de herói?

24 comentários em “Ainda há heróis”

  1. Excelente texto, Pedro. Um herói, sem dúvida. Por muito que o regime chinês tente adulterar o significado de herói, relegando-o ao papel daquele que se sacrifica em “nome da sacrossanta ‘unidade’ do Estado chinês”. Tentativa essa que está bem presente no filme “Herói” de Zhang Yimou.

    1. Tens razão, Jorge. Gostei que tivesses lembrado aqui o Zhang Yimou, um dos meus realizadores favoritos – e um dos intelectuais chineses que melhor encarnou o espírito da Primavera de Tiananmen.

      1. Também gosto muito de Zhang Yimou, Pedro. Mas é impossível não notar a aproximação que fez ao regime comunista chinês. Se o “Esposas e Concubinas”, que a ariel refere num comentário mais abaixo, originou problemas com o regime chinês (muito a propósito dos acontecimentos de Tiananmen), a mensagem de “Herói” só pode ter agradado ao regime. A tal ponto que nele encontra-se a justificação para as atrocidades que o regime continua a cometer.

        1. Jorge: não sei se viste um filme do Zhang chamado ‘Ju Dou’. É um filme com a Gong Li, passado na China rural do início do século XX que tem muito a ver com o espírito de Tiananmen. Gostei também muito deste filme. Recomendo-o sem qualquer reserva.

          1. Nunca vi, Pedro. Mas é um filme que já está no radar há algum tempo. Quando descobri Yimou, através do “Herói”, aproveitei para ver parte da obra dele, mas o ‘Ju Dou’ não foi incluído nas escolhas.

  2. Estupendo texto, compadre. Muito a propósito, quando Pequim nega agora a Primavera a Xinjiang ceifando vidas.
    Fico à espera da indignação dos enviezados ‘heróis’ da enviezada política dos enviezados partidos que temos, aqueles para quem os direitos humanos costumam ser uma espécie de pastilha elástica.

  3. Fantástico, Pedro.
    Parabéns pela reflexão e pela qualidade do seu resultado.
    Digo-te hoje o que o João Carvalho dizia ontem quando comentava um texto do Tomás Vasques.

  4. Respeitar as minorias não está no ADN dos estados totalitários. A propósito da referencia a Herói de Zhang Yimou que me escapou, dos filmes dele que vi a temática tem sempre a ver com a intolerância do poder absoluto que está enraizada na tradição chinesa . Para mim, Esposas e Concubinas é uma obra prima.

    1. É, sem dúvida, Ariel. A China comunista, que prometia o ‘homem novo’, nada mais tem a oferecer, 60 anos depois, do que os mil pecados do homem velho, ampliados pela extensão do território e pela enorme dimensão populacional. Racismo, xenofobia, intolerância e força bruta. Tudo velho como o mundo.

    1. Pois. Há quem lhe chame ‘realpolitik’. É como aqueles blogues, que gritam aos quatro ventos quando morre uma só pessoa num certo país e mergulham no silêncio quando morrem centenas de pessoas noutro país. Critérios…

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