Ainda o mau gosto


João Carvalho,

Fui contido, quando ontem escrevi aqui sobre o mau gosto de Saramago. O facto é que ele tem o desplante de expor que «a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana», mas confunde logo a seguir a Biblia com o desempenho da Igreja ao longo dos séculos: «as guerras de religião estão na História, sabemos a tragédia que foram», e as Cruzadas foram crimes do Cristianismo que envolveram a morte de muitos milhares de pessoas, entre culpados e inocentes.

Saramago persegue a religião com tanta raiva que mistura a Bíblia com acontecimentos históricos da Igreja, dos quais só aproveita o que lhe interessa. Para ele, a Igreja é o lado negativo das Cruzadas, é a Inquisição, é o apoio às ditaduras. Para ele, a Igreja nunca arrepiou caminho, nunca reconheceu os erros gravíssimos cometidos por homens que a formam, nunca teve mártires que morreram por grandes causas da Humanidade, nunca teve gente que pagou caro por proteger os fracos dos déspotas, nunca partiu para chegar despojada a todo o mundo com a missão de ajudar, ensinar, curar, apoiar, etc., sem olhar a raças e credos.

Igreja, para Saramago, é golpe. Não o golpe que ele diz, mas um golpe publicitário. Dá-lhe jeito baralhar as coisas. Contudo, sai-se mal, porque era suposto ele mostrar-se mais esclarecido nos conhecimentos, mais claro nas ideias. E esta é a razão pela qual as suas maquinações são de tão mau gosto, além de doentias.

36 comentários em “Ainda o mau gosto”

  1. Já era tempo de ver Saramago, sempre tão preocupado com tantos crimes cometidos ao longo da História, por uma vez preocupado também com os crimes do comunismo. Foram tantos, e em tantos sítios, que lhe daria pano para mangas. Infelizmente, para Saramago, existem crimes de primeira e crimes de segunda. Não é minimamente original nisto. Muitos intelectuais antes dele caucionaram os mais repugnantes crimes cometidos por sistemas políticos totalitários em nome da «liberdade».

  2. E revela ainda maior desconhecimento (ou parcialidade) ao pôr no mesmo saco o cristianismo e o islamismo, a Bíblia e o Corão, e dizendo que estão ambos no mesmo patamar cultural. Se isto não é erro grosseiro – premeditado ou não – então não sei o que será.

  3. Sem concordar com as ideias de Saramago confesso que acho bonito ver os conservadores religiosos usar de argumentos lógicos baseados em factos (históricos).

  4. Parece que é preciso que o livro venda bem!

    Cá para mim é mais uma demonstração de que, simbolicamente, somos todos filhos do Caim. Do Abel não sobrou grande coisa, mesmo para os mortais nobelizados…
    Balhamedeus…

    🙂

  5. E disse.

    O Hezbolah tem uma vertente assistencial reconhecida com a missão de ajudar, ensinar, curar, apoiar, etc. Não me parece que essa seja razão para apoiar a organização.

    A instituição apoiou as igrejas da A. Latina ou tentou calar os seus bispos? Reconheceu o erro que cometeu com Galileu? Reconheceu mas quando não o ter feito a sujeitava ao ridículo.

    Acreditar em deus é coisa comum, para uns encarnam vacas, para outros trovoadas, há até quem adore satã, o crer é livre e a crença em bruxarias e maus olhados está aí para ser consumida. Desde que não me pretendam arregimentar através de espectáculos medievais, não queiram condicionar os meus valores éticos e não me obriguem a assistir na TV publica a ritos próprias, tudo bem.

    A instituição, governada por homens mas inspirada por deus semeou dor, perseguição, torturou. Imagino no que se poderia ter tornado se em vez de ter um deus bom a guiá-la tivesse um qualquer demónio.

    Dos deuses conheço a palavra dos seus seguidores, as suas acções e inacções, porque do próprio só conheço o presumível sadismo da fome, das crianças abandonadas e das que nascem já estropiadas bem como os acidentes que vitimam e matam aqueles que regressam de Fátima.

    E disse.

  6. Para mim a questão é essa.
    Uma coisa que serve para tudo, não serve para nada.

    Ou seja, se a religião tanto serviu para legitimar guerras como a mais generosa das entregas, o que está em causa é que há homens bons e maus que encontram na mesma instituição a força e a aprovação de que precisam para os seus intentos.

    Isto transforma a religião numa coisa Secular, presa ao tempo e ao modo, e esvazia-a de qualquer conteúdo divino que lhe daria constância, coerência e propósito. E como tal torna-a a negação de si mesma.

    1. Deve ser isso. Mas já me disseram que a constância, a coerência… enfim, a perfeição… não existem.

      Portanto, a negação da negação, mais do que anularem-se, é uma impossibilidade. Tudo é positivo, menos a inexistência. A escala de valores, que serve para marcar as avaliações, se contiver o “abaixo de zero”, é apenas por convenção facilitadora.

        1. Se eu concordo ou discordo não tem qualquer interesse. Muitos concordam e muitos discordam. Essa discussão é sempre inacabada.
          Resta a parte de «um Ser Absoluto nunca seria tão relativista». Não entendi o realtivismo: uma escala é infinita, não? E não consigo abarcar o que poderia chamar-se um «Ser Absoluto».

      1. “Mas já me disseram que a constância, a coerência… enfim, a perfeição… não existem.”

        Mas a igreja proclama a sua infalibilidade.
        )seja ela a matar mouros ou a curar doentes?)

  7. Sai-se mal para alguns, João. É-me completamente indiferente o que ela pensa sobre a Bíblia, porque não travo nem com Saramago nem com a Bíblia qualquer relação de proximidade. Nos tempos que correm nem sequer com o catolicismo e/ou com a Igreja Católica. Parece-me óbvio que há intencionalidade em Saramago de levar ao rubro alguns católicos. Claro que conseguiu.

    1. Dele, a única coisa que me irrita é isso mesmo. Pode chamar-se desconsideração pelos outros. Não é desconsideração pelos terroristas, pelos homicidas, pelos carteiristas, pelos corruptos e todas essas coisas. É apenas desconsideração – permanente e cansativa – pelos católicos. Acho doentio. Nem é preciso ser católico para lhe dar para trás.

  8. Há coisa de 40 anos, no jornal onde trabalhava, o Saramago era, pura e simplesmente, odiado pelo resto da redacção. Ninguém lhe falava. Ele, aliás, fora remetido para um gabinete à parte, onde escrevia “editoriais”, que veio depois a publicar em livro.
    Só quem o não conheceu desse tempo e do que viria a fazer depois no “DN” pode ter alguma consideração pessoal por ele.
    Já quanto à sua faceta de romancista, não posso opinar, porque nada lhe li nem conto vir a ler.

  9. O oportunismo publicitário ultrapassando… ainda o mau gosto.

    Neste golpe publicitário
    de puro oportunismo,
    um pensamento sectário
    carregado de cinismo.

    A confusão instalada
    entre credo e instituição,
    uma leitura assolada
    por tamanha aberração.

    A verborreia parcial
    e a falta de dignidade,
    num acto demencial
    de abjecta publicidade.

    Muita história sonegada
    na defesa do humanismo,
    uma verbiagem carregada
    de ignóbil adesionismo.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *