Desde o início da legislatura, houve 244 mudanças de deputados no Parlamento. O que transforma o voto numa fraude.
Ainda vale a pena votar?
Patrícia Reis,
Desde o início da legislatura, houve 244 mudanças de deputados no Parlamento. O que transforma o voto numa fraude.
Não é só no parlamento, na Câmara Municipal de Santarém só o presidente se mantém, os vereadores do poder já sairam todos…
Passar pela Assembleia da Republica, dar um jeito nuns diplomas e regressar ao negócio mais folgado, ou adquirir alguma notoriedade, fazer uns ‘serviços’ e ser recompensado na gestão de empresas publicas. Nas autarquias ser deputado autárquico ou edil e simultaneamente arquitecto, engenheiro ou advogado, é o sonho de qualquer cliente partidário.
Círculos uninominais, senhores ou em alternativa (susto para muitos) novas formas de democracia directa.
Alguma reforma é precisa.
Alguma?, upa, upa!… toda!
Por outras palavras, a AR precisa de ir toda para a reforma. Mas uma reforma não remunerada, óbviamente!
Fraude não, eu diria “dinamismo” de tachos.
Aquilo faz-me lembrar um bocado a Casa de Irene de que falei aqui há dias. “Hay gente que viene, hay gente que va”. Também servem cocktails?
Confesso que não vejo onde está a fraude, Pedro: é-me indiferente que estejam lá os actuais ou aqueles que foram substituídos. É tudo boa malta.
A mim não, caro Joaquim. Porque, apesar de tudo, ainda me dou ao trabalho de ler as listas dos deputados do meu círculo eleitoral e não é indiferente que estejam lá uns ou outros. Sinto-me defraudado se votar em deputados que meses depois estão tranquilamente a cuidar dos negócios fora do Parlamento mas mantendo um pé em São Bento: suspendem funções e voltam a retomá-las sempre que lhes convém. Esta é a reforma parlamentar mais urgente a fazer em Portugal: quem é eleito deve manter-se em funções na AR salvo nos casos em que passa a desempenhar funções noutro órgão de soberania – o Governo nacional ou os governos regionais.
Ah, percebo-te. Mas deves ser dos poucos que lêem. Além disso, estarem fora ou dentro é indiferente. Acho que já escrevi por aqui que o que está a dar é ter um escirtório de advogados com gente de todos (dos maiores?) partidos. Ora estão lá uns, ora estão lá outros. O resultado vai dar ao mesmo
E olha que nas autarquias, como bem sabes, passa-se o mesmo. É inaceitável. Trata-se de uma exigência de cidadania.
Nas autarquias o problema parece-me mais grave, Pedro.
Mas, como verás, o meu comentário está carregado de ironia mal conseguida. Como é evidente, eu também preferia que não fosse assim em ualquer circunstãncia. Só que eu estou naquela fase em que tanto me dá… Mas estou a perder a paciência.
Também eu já estou a perder a paciência, meu caro. Apesar de conhecer bem os cantos à casa, onde trabalhei durante cinco anos, e saber que isto não é de hoje, fiquei indignado com esta notícia do CM. Sobretudo porque me lembrei das promessas, feitas pelo PS no inicio desta legislatura, de que o mau hábito do entra-e-sai e de deputados iria acabar. Viu-se…
Eu não gostaria de ser o “amigo americano” aqui do blogue, mas vocês já olharam para o Congresso dos EUA? Não há ninguém que deixe os cargos a não ser para ocuparem lugares no Governo. Há casos de absoluta dedicação (anos na CR ou no Senado), mesmo de políticos com currículo para ganharem vinte vezes mais no privado. É uma questão (também, mas sobretudo) de decência política.
Precisamente.
Pedro, não sei se será fraude, mas que é uma enorme falta de respeito e de responsabilidade, disso não há dúvidas. Nos EUA (por exemplo) os congressistas e os senadores têm enormes deveres e obrigações para com os seus “constituintes”, os seus eleitores do seu Estado. Cá não. Cá é a rebaldaria que se sabe e se vê e ninguém faz anda, porque os que podem fazer são os que beneficiam dessa rebaldaria. É como os interesses cruzados, entre o cargo de deputado e a profissão que exercem fora da profissão, porque deveriam existir ainda mais incompatibilidades, como por exemplo, entre advogado e deputado, exemplo que defende há bastante tempo. Claro que um terço dos deputados iam à vida, mas seria o correcto. Evitaria que alguns fizessem figuras tristes a defenderem os interesses de clientes do seu escritorio como se fosse do interesse dos portugueses.
Abraço e boa semana.
Caro Ricardo,
Há muito também que defendo a incompatibilidade cara entre o exercício da função parlamentar e a actividade num escritório de advocacia. Os exemplos vigentes, só na altura legislatura, são suficientes para devermos exigir esta reforma imediata no Estatuto do Deputado e na Lei das Incompatibilidades.
Abraço e boa semana.
Pedro:
Claro que devia ser incompatível. Mas, na prática, talvez não resulte. Porque os escritórios dos advogados – sobretudo dos que navegam na área dos governos – não são de prática solitária – são grandes plataformas. Basta ter os ponta-de-lança no Parlamento para se conseguir o mesmo.
Eu tenho tanto sono que nem reparei que o Ricardo já tinha escrito sobreo caso americano. Peço desculpa pela ideia repetida (no meu caso, menos cuidada, ainda por cima).
bem lembrado!
Bem, 244 substituições davam para outro Parlamento. E ainda ficavam suplentes no banco dos dois Parlamentos.
Digamos que ficava um banco um bocado «rapado»…
Só 14? É muito pouco… Pelo menos que fosse como no futebol, quase tantos no banco como a jogar…