Alexandra, Abraão e Isaac


Cristina Ferreira de Almeida,

 

O juiz que entregou Alexandra à mãe biológica reconhece que decidiu o destino da "menor" com base em relatórios e pareceres, sem nunca ter falado com nenhuma das partes. Nisso, não difere de muitos juízes, nem o seu processo de decisão difere de muitos processos. A única diferença de Gouveia Barros é que, apesar de tudo, se mostrou incomodado com a evolução do caso e falou com os jornalistas sobre a sentença. Estranhamente, é por ter falado que vai responder perante o Conselho Superior de Magistratura.

Não defendo que as decisões judiciais devam ter por base os sentimentos populares sobre cada caso – até porque, ao contrário do que acontece no futebol, não temos um vídeo que esclareça a justeza de cada acordão. Mas acho que a Justiça não pode viver isolada de um compromisso: o dos valores sociais que entendemos serem comuns.

Barack Obama expôs essa necessidade brilhantemente num discurso que gostaria de lincar mas não consigo. Disse ele que se, à saída da Igreja onde discursava, as pessoas vissem Abraão com uma faca na mão para matar Isaac – em resposta à prova de lealdade que Deus lhe pediu – certamente não ficariam à espera da mão de Deus. Denunciariam Abraão e esperariam que a Comissão de Protecção de Menores lhe retirasse a guarda de Isacc. "Faríamos isso porque não ouvimos o que Abraão ouve, nem vemos o que Abraão vê. Então, o melhor que podemos fazer é agir de acordo com aquilo que todos nós vemos e com aquilo que todos nós ouvimos", disse Obama.

Creio que, neste caso, o compromisso de que Obama fala poderia ter feito toda a diferença na vida de Alexandra. 

 

10 comentários em “Alexandra, Abraão e Isaac”

  1. Concordo contigo, Cristina.

    E quanto ao discurso, deixo o link disponível para o que penso ser o discurso a que te referes (muito embora ele deva ter repetido essa ideia em múltiplos discursos):

    http://back-from.blogspot.com/2006/06/obamas-speech-on-religion.html

    “We all know the story of Abraham and Isaac. Abraham is ordered by God to offer up his only son, and without argument, he takes Isaac to the mountaintop, binds him to an altar, and raises his knife, prepared to act as God has commanded.
    Of course, in the end God sends down an angel to intercede at the very last minute, and Abraham passes God’s test of devotion.
    But it’s fair to say that if any of us saw a twenty-first century Abraham raising the knife on the roof of his apartment building, we would, at the very least, call the police and expect the Department of Children and Family Services to take Isaac away from Abraham. We would do so because we do not hear what Abraham hears, do not see what Abraham sees, true as those experiences may be. So the best we can do is act in accordance with those things that are possible for all of us to know, be it common laws or basic reason.”

  2. Penso que é este, Cristina: http://www.youtube.com/watch?v=eVuOTwlMEjU

    Um discurso notável sobre os perigos do fundamentalismo religioso.

    Quanto ao caso Alexandra, tenho dúvidas. Não conheço bem todos os dados do processo, mas acho que este país está a cair num moralismo insuportável e toda a gente se acha no direito de opinar sobre os filhos dos outros e sobre os defeitos e falhas de todos os pais estrangeiros (e sabe Deus quantas não são as nossas falhas caseiras).

      1. É para complementar. O meu tem a transcrição do discurso completo, o da Ana tem o segmento em vídeo – como os discursos de Obama valem muito mais do que só pelo texto, até é mais apropriado. 🙂

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