Amália Ontem


Ana Vidal,

 

Acabei de ouvir uma coisa que dá pelo nome pomposo de "Amália Hoje", e fiquei siderada. Não consigo chamar-lhe outra coisa que não seja uma "coisa". É tão mau que dói. Os melhores temas de Amália (a de ontem, a de sempre) são barbaramente assassinados por um trio modernaço, que ainda por cima tem o topete de dizer, no comunicado de apresentação do cd, entre outras solenes enormidades: "(…) atrás das letras, do tom triste e melancólico, havia melodias, que queriam mais espaço que umas tristes duas guitarras". O resto é no mesmo tom altivo e pateta, além de profundamente desconhecedor do que significa Amália, o Fado e a guitarra portuguesa. Para esta gente, só a música pop tem valor.

 

Em "Foi Deus", agora travestido de pop, até a letra está adulterada, ou a vocalista enganou-se e achou que não valia a pena emendar. Canta: "E deus-me esta voz a mim"… Se por acaso é um trocadilho propositado, então, nem classifico.

 

Não me tomem por velho do Restelo: sou pelas fusões e experimentalismos na música, incluindo o Fado. E até penso que a Amália, que tanto inovou e provocou no seu tempo, acharia a maior graça a essas fusões.  Mas o mínimo que se exige é qualidade, palavra que não se aplica a esta "coisa". Ou se inova com qualidade ou é melhor estar quieto, e estes três não tiveram talento para ficar quietos. Só tiveram pretensiosismo e mau gosto. É pena. Resta-me esperar que o ruído deste gift envenenado não chegue ao Panteão.

 

Nota: Parece que não estou sozinha nesta tristeza. Aqui, aqui, aqui, aqui e aqui, pelo menos, também não gostaram.

 

24 comentários em “Amália Ontem”

  1. ”Que queriam mais di que duas guitarras”, que toleima! É uma afronta, já não bastava as marisas e os marisos deste mundo, agora ainda vêm estes armados em INEM a dar respiração aos fados de Amália, como se eles precisassem de alguma coisa, senão de se manterem como ela os deixou. Que pedantismo.
    Fico virada do avesso, quando ousam este tipo de parvoíces, porque isto é só aproveitamento, porque sabem que a malta nova gosta de Amália. Um dia destes um comentador do meu LiveJournal, não sabia que a canção ”L’Important C’est La Rose” é um original do Gilbert Bécaud, ora isto também acontece com os originais de Amália, que muitos nem ouvem.

    1. Lili, eu fico virada do avesso é quando vejo dar-se destaque a estes arrivistas emproados. Cada um tem o direito de produzir o que quiser, mesmo o que não presta. Mas a total ausência de critério de quem promove e divulga é que eu não percebo, nem a ânsia de dar voz a tudo o que soa a “moderno” mesmo que o não seja, como é o caso.

  2. Desculpe a comparação, mas para mim é mais fácil para exemplificar o que pretendo.
    Cecília Bartoli lançou um CD evocando Maria Malibran . Não corre risco nenhum, ninguém se recorda como cantava a Malibran . Mas quando ela canta Bellini , eu só me lembro da Callas , para mim inesquecível, única e irrepetível na interpretação da Norma. Conheço no entanto muito boa gente que não aprecia particularmente a Callas .

    Neste caso o que não gosto e acho abusivo é que utilizem o nome da Amália, é uma estratégia comercial que faz sair o tiro pela culatra. Abstraindo os “conceitos” e “roupagens” dos produtores, gostei da interpretação que por aí anda do tema Gaivota (foi o único que ouvi) e do arranjo que foi feito. Exactamente porque, na minha opinião, não se cola em nada a Amália, não há confusão nem comparação possível. A letra e musica da Gaivota valem por si. Há quem goste e quem não goste. Mas discordo que seja um atentado ao fado e á guitarra.

    1. Ariel, o que mais me irritou neste “Amália Hoje” foi exactamente o abuso do nome, ainda por cima opinando sobre a “pobreza” instrumental e rítmica de alguém que lhes serve de isco comercial. Ficava-lhes bem um bocadinho mais de modéstia, sobretudo quando a qualidade deixa tanto a desejar.

      O resto é uma questão de gosto, e isso não discuto. Pegando no seu exemplo: eu tenho uma enorme admiração pela Callas como personalidade e reconheço o fenómeno ímpar, mas não lhe adoro a voz. Falta-lhe, quanto a mim, macieza e harmonia, embora lhe sobre génio e fascínio.

  3. Ana , estou em desvantagem, não li nada sobre o assunto, a não ser o seu post que tomo naturalmente como bom. Qualificar de “pobreza” instrumental e rítmica qualquer coisa que se relacione com a Amália, aí “zango-me”.

    Quanto à Callas , os defeitos que lhe aponta, são para mim “qualidades”, mas essa é uma discussão que mantenho há muitos anos com uma pessoa querida. Mas também é normal, eu sou Benfiquista e ele é do Sporting….

  4. Ana, concordo plenamente consigo. Uma pessoa que me é próxima costuma dizer, quando me vê indignada com versões más de boas músicas, “Deixa estar, a versão original continua lá, para quem a quiser ouvir, eles não estragaram nada…” E é de facto assim que devemos pensar. Cada um é livre de, dentro dos linites dos direitos autorais e respectivas cedências legais, fazer as versões que muito bem quiser. Foi o caso. Na minha opinião e na de muita gente, o resultado é desastroso. A promoção comercial também é o que é, enfim, faz o seu papel. Cabe-nos a nós, ouvintes e consumidores, não embarcar nesta treta monumental e fazermos se possível promoção contrária, nos blogues, nos jornais, em casa. Liberdade é isto.

    1. Tem razão, Vieira do Mar. Passado o arrepio da indignação, também acho que o tempo se encarregará de separar o trigo do joio. Não digo “o mercado” mas “o tempo”, repare. Porque no mercado português é muito comum vender-se gato por lebre, e mesmo assim a banca ficar vazia…

  5. Não ouvi a “coisa” como lhe chama. Ultimamente seja lá porque motivo for, aparecem umas “experiências” que me cheiram mais a oportunismo do que a projecto artístico.
    :))

    1. A mim também, e isso é o pior de tudo. Mas chego à conclusão de que estou a fazer publicidade à “coisa”, com todo este destaque… e a “coisa” não merece tanto. 😉

  6. Portal do Fado,

    Passado todo este tempo, já se pode dizer que o “projecto Amália Hoje” foi um estrondoso êxito comercial. O que não me admira nada, aliás. De resto, não retiro uma linha do que disse antes: acho tudo aquilo de má qualidade e de ainda pior gosto, para além de oportunista.

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