Anatomia do crime


J.M. Coutinho Ribeiro,

 

Há dias, num alargado grupo de amigos, a conversa descambou para a criminalidade em Portugal. Atirava-se a estatística. Nenhuma hipótese de chegar a um consenso. Os números davam para tudo, dependendo da vontade quem os lia.

Não sendo um especialista da matéria – ninguém ali era – achei que não estavamos a tocar o ponto importante: o número de crimes será sensivelmente o mesmo em cada ano da última década, com pequenas variações. O problema é que o figurino do crime se modificou drasticamente.

Se bem repararmos, são cada vez mais raras as notícias dos homicídios "tradicionais", aqueles que têm a ver com a honra, as partilhas, o uso da água, as demarcações dos terrenos. Este era o tempo em que quem se "metia nelas" arriscava-se.

Contudo, são cada vez mais insistentes as notícias dos homicídios "modernos". Nos tempos que correm, já não é preciso que alguém se "meta nelas" para arriscar cair baleado. Basta andar de carro e resistir a um carjacking; basta estar numa bomba de gasolina no momento errado; basta ir ao banco em hora de assalto; basta estar em casa e ter um gesto mais suspeito perante os assaltantes.

Antes, o crime violento era uma forma de lavar a honra ou de salvaguardar a propriedade. Um impulso que, mais tarde, trazia arrependimento. Era o tempo em que o homicida não reagia quando perante a autoridade. E assistia ao seu julgamento de cabeça baixa.

Agora, o crime violento é um modo de vida, calculado, organizado em bando que age com frieza e não se arrepende, porque não distingue o bem e o mal e não se ensaia nada em disparar contra a autoridade. E que encara os seus julgadores com a arrogância de quem sente que detém o supremo poder de ditar quem vive e quem morre.

Mais do que concluir se há mais ou menos crimes violentos, o que importa é perceber que o crime mudou. E que exige novas respostas. Antes que se torne ingovernável.

 

P.S.: Na altura, fundamentei o meu ponto de vista na experiência de quem anda pelos tribunais. Mas esta notícia parece confirmá-lo.

 

 

2 comentários em “Anatomia do crime”

  1. Estás cheio de razão, Joaquim. O tempo dos crimes passionais, da defesa da honra e outros que tais já lá vão. Quem não quiser perceber isto, nunca há-de perceber coisa alguma até ser muito tarde. Quem quiser insistir que Portugal continua a ser um país de baixa criminalidade, nunca há-de entender que a velha anatomia do “nosso” crime, aquele que não atravessava a sociedade e o seu comportamente, já era…
    Continuarmos a olhar para os crimes como números é abeirarmo-nos do abismo como se fosse tudo planície.

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