Antoninho, terra e água


Marta Caires,

  

 

Descansou a foice e limpou o suor da testa, havia dias que o ar custava a entrar e o coração batia descompassado. Antoninho tirava o chapéu e sentava-se. Ficava ali, a ouvir a água da levada a correr para o poço, a deitar os olhos ao mar e à cidade, ao porto e ao Canberra. A moer, pior do que o coração desgovernado, era a culpa que, sem perceber, lhe chegava com 30 anos de atraso.

Estava no feijão a tratar das estacas quando o mau pensamento pesou pela primeira vez. Ao sair de casa, dois poios abaixo, Ezequiel olhou-o de frente. O sobrinho tinha esse costume. Vira-o, fedelho de oito anos, a assumir a responsabilidade no funeral do pai. O rapaz nunca foi de baixar os braços e, quando Augusta, a mãe, não teve remédio senão ir trabalhar para a casa de bordados, tomou conta da horta e das galinhas.

A casa e a horta escaparam à gula de terra de Antoninho que, sempre de olho em Ezequiel, via-o chegar da escola, cuidar das abóboras e das couves, assobiar ao ‘Lobo’ e sumir-se nos pinheiros à procura de lenha. O rapazinho carregava para si e para quem pagasse, era rijo e atinado, brilhava ao domingo na missa e ainda mais se por perto estivesse o desalmado do Francisco, o filho que Agostinha lhe dera depois de perder uns cinco ou seis.

Antoninho não tinha amor à mulher e o filho parecia-se muito com ele. Reconhecia-lhe a avidez, aquela alma amputada de sentimentos que torturava largatixas e jogava perdas aos cães e gatos, a tudo o que mexesse e tivesse vida. Quando Agostinha se foi, pele e osso, depois de duas pneumonias, suspirou de alívio ao ouvir o rapaz anunciar que ia clandestino para a Venezuela.

Ficou só e, uns meses mais tarde, Augusta, com os pulmões consumidos pelos gases de petróleo da casa de bordados e pela tuberculose, juntou-se ao marido. Ezequiel chorou, com aquele aprumo que o tio cobiçava. Antoninho era o Antoninho, os leiteiros na venda diziam que era ladrão e a língua afiada da Rosarinho enchia o sítio com a história do roubo das terras. E era verdade, era um ladrão de viúvas e órfãos, mas em 30 anos nunca isso lhe tirou o sono.

Agora andava maniado, o dia em que enfiara nas mãos de Augusta o papel da doação, forjado no advogado da Rua da Carreira e pago com o cordão de ouro da mulher, não lhe saia da cabeça. Ficou pior quando Ezequiel bateu à porta, naqueles modos de fidalgo, a dizer que lhe queria falar, assunto importante, coisas de família. Antoninho quase o enxutou, disse que era tarde e tinha umas horas de água de giro que não podia perder, o feijão ainda secava com o calor.

Ezequiel voltou no domingo, cabelo lambido de brilhantina e barba feita. Estava no terreiro, de camisa lavada e olhos postos no seu meio hectare de terra. Quando não estava em redor das vacas ou a limpar os muros, Antoninho consolava-se assim, com os olhos na terra e na água lhe custaram a alma. Enquanto o sobrinho esperava na sombra do damasqueiro, foi à loja buscar a foice e, à cautela, manteve a distância.

Vermelho como o tomate, Ezequiel gaguejava e Antoninho quase não ouvia a arenga, que era a única família que tinha, pois o pai morrera-lhe em criança e a mãe não aguentara a vida dura da casa de bordados. Estava só e o tio também, tinha andado a pensar no futuro, no que iam fazer os dois por ali, naquelas terras. Andava às voltas e, à cabeça do velho, vinham as imagens da Augusta a assinar a escritura a pensar que pagava a conta da farmácia com as terras do marido. No peito, o coração desgovernou-se, limpou o suor da testa e sentiu que se apagava. Só no fim, quando pouco mais tinha do que fio de vida no peito, percebeu que Ezequiel queria casar e vinha pedir conselhos ao tio, o que lhe restava de família.

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