
Fala-se muito em “classe política”, o que será (espero que seja) sociologicamente errado. Mas haverá uma espécie de corporação profissional, feita de negociações e, acima de tudo, de sociabilidades de décadas. Criando cumplicidades, legítimas (e algumas não tanto), que obstam a um verdadeiro crivo crítico. Isso parece evidente neste caso: há meses, nas últimas eleições legislativas, o PCP sofreu um violento rombo – uma verdadeira hecatombe parlamentar. Nisso não foi reeleito António Filipe, um seu deputado veterano. E de todo o lado, da “direita” à “esquerda”, soaram os encómios à sua excelência, intelectual, política e pessoal.
Agora António Filipe, a propósito destes dois meses de guerra entre a Ucrânia e a Rússia, vem associar o presidente Zelensky e o cadastrado Mário Machado. Tamanha lhe é a fúria contra aqueles mais avessos ao regime (a qualquer regime) de Moscovo. A que propósito é que se elogiam gajos destes? Ou, pior, os políticos que com ele conviveram não perceberam o seu ideário? Então que capacidade têm para perceberem homens?

Boa noite. Respeitosamente, faz todo o sentido.
Já foi contratado.
António Cabral
É uma chatice ter acabado o analfabetismo, já todos sabemos ler.
O jpt não já votou PCP? perece-me ter lido algo seu nesse sentido, ou pelo menos escreveu que considerou.
A natureza do PCP e o seu ideário Marxista Leninista mostrou sempre ao que vêm. Quem convidam e quem não convidam para a festa do Avante. Quais as opiniões expressas no jornal Avante. Sempre foi claro.
Mas quem o dissesse nos dias de rotina democrática seria considerado por todas as redacções como pessoa que 30 anos depois ainda está a combater a Guerra Fria e Anti-Comunista primário. Que todos aliás devemos ser uma vez que não há separação de poderes nem limitações ao poder no Comunismo…
Sim, deve lembrar-se de texto memorialista meu: votei PCP (numa dessas coligações que esse partido sempre decide construir para se aparentar “Frente Popular) no início dos nos 1980s, para a lista da minha freguesia na qual constava, em lugar inelegível, o meu pai. E sim, nas últimas autárquicas tanto me irritei com a indigência da candidatura do PSD na minha freguesia e com a impertinência da candidatura da IL, que anunciei que – para a freguesia dos Olivais – votaria no PCP (depois, quando lá cheguei, fiz outra coisa mas não o botei aqui, não seria assunto). E sim outra vez, o PCP nunca escondeu ao que anda, há é uma suspensão de olhar crítico, um pudor, na sociedade. A este respeito botei ainda hoje no meu mural de FB isto, que me parece apropriado para esta fila de comentários:
há uma tradição de louvor ao PCP (a qual se alimentou da mitografia da oposição ao Estado Novo e do impacto da personalidade de Cunhal, que era um homem extraordinário). E isso implica uma tendência para elogios descabidos (o exemplo recente é mesmo o coro de elogios a António Filipe, capaz de dizer os maiores dislates, ou o a Jerónimo de Sousa, quando este foi operado – certo, é curial desejar boa saúde às pessoas mas na altura Sousa foi unanimemente apontado como exemplo de virtudes democráticas, o que é um absurdo).
Mas mais relevante é o facto de haver uma suspensão de juízo crítico sobre o PCP (por mais que este anda há décadas a insistir na patética lengalenga das campanhas de imprensa contra eles): eu regresso àquilo que botei no início desta guerra. A direcção do PCP produziu um documento louvando a política soviética relativa às “nacionalidades” (“minorias étnicas”, dir-se-ia hoje). O PCP proclama uma miséria dessas e não há um coro de indignações, é como se não fosse nada… E há até gente letrada (alguns que se apresentam como intelectuais, escritores, etc.) que têm a impudicícia de andar por aqui a dizerem-se comunistas (militantes ou simpatizantes desta escória). Ou seja, esta abjecção moral e este negacionismo histórico passa incólume.
A esquerda mesmo uma grande parte da que se diz democrática no PS sempre olhou para o PCP como os puros, como se o objectivo social do PCP seja correcto mas os métodos demasiado drásticos… Como essa Esquerda domina as redacções dos jornais e TVs chegámos a mais um caso extraordinário de falhanço do jornalismo Português em que boa parte dos portugueses descobrem que o PCP afinal é anti democrático porque a Rússia invadiu a Ucrânia…