Aprender com um oleiro


Paulo Sousa,

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O senhor Ilídio já nos deixou há uns bons anos. Trabalhou até para além dos seus oitenta anos, no ofício de oleiro que aprendeu em criança.

Um dia visitei a sua olaria na Quinta dos Ricos Vales, também conhecida por aqui como Quinta dos Ricos Vais. Com o andar dos anos, uma fina camada de barro cobrira todas as superfícies visíveis daquele espaço, tornando-o num local castanho. Apenas as formas permitiam distinguir o que eram paredes, chão, roda de moldar, mãos do senhor Ilídio, peças a serem criadas ou já terminadas.

Pelo meio de um qualquer assunto que estávamos a falar, contou uma pequena história que guardei e que já contei várias vezes e diversas circunstâncias.

Quando o senhor Ilídio foi para aprendiz de oleiro, ainda era uma criança de tenra idade. Muito antes de ter a oportunidade de pela primeira vez se sentar na frente da roda, o que fazia era dar serventia ao oleiro que tinha aceitado ensinar-lhe o ofício. Só algum tempo mais tarde é que teve a oportunidade de experimentar pela primeira vez o assento onde veio a passar muitos anos da sua vida.

No início teve muita dificuldade em conseguir criar as suas primeiras peças. Ora era acertar o barro no centro da roda, ora na força certa a fazer na roda de baixo com o pé descalço, ora a quantidade de barro a usar, ora o aperto ou a inclinação dos dedos, as complicações eram muitas e não lhe davam descanso. Eram parcas as vezes que o barro não se deformava e saía disparado em todas as direcções.

O oleiro que o ensinava não podia perder tempo com tanta tentativa frustrada e estimulava-o recorrendo ao melhor método de ensino de que dispunha e que se baseava na distribuição regular de palmadas e outros mimos idênticos.

Como as oportunidades de regressar ao local do comando não eram muitas, o senhor Ilídio contou-me que, quando não estava na roda, estava sempre a pensar no que deveria fazer de diferente para ser bem sucedido. Depois de despegar, já escuro, ia para casa a pé e sempre com as mãos a simular o contacto com o barro. Na escuridão do carreiro, avançava com os braços esticados no ar. Se alguém o conseguisse ver, poderia pensar que se tratava de um maestro. Rodava os pulsos, afastava e aproximava os polegares dos outros dedos, contraía todos os músculos das mãos, depois relaxava-os, sempre a imaginar-se na roda. Depois da ceia, e antes de dormir, continuava a simular a curvatura de um pote ou de um púcaro. Às vezes sonhava que tinha conseguido fazer o seu primeiro cântaro, sonho esse que ainda demorou a concretizar.

Conto esta história à malta nova, para que saibam que quando quiserem aprender uma coisa, e não me refiro apenas a conteúdos escolares, devem mergulhar profundamente nesse tema. Mesmo quando não se esteja perante o assunto, a ideia, a coisa, a tarefa ou o desafio, tem de se estar sempre com ele em mente. Observá-lo de todos os ângulos, imaginar-lhe as superfícies e o comportamento, até lhe conhecer todos os átomos e lhe conseguir antecipar as reacções.

A maior motivação do senhor Ilídio era poupar-se a umas bofetadas, mas em poucas palavras ensinou-me algo de que me lembro com frequência.

11 comentários em “Aprender com um oleiro”

  1. Como a malta nova gosta sempre de uns bonecos a ilustrar o que se vai dizendo, atrevia-me a sugerir aquela cena inesquecível das artes de olaria no filme “Ghost” (“O Espírito do Amor”).

    Foi sobretudo o que escreveu no penúltimo parágrafo, associado à olaria, que me trouxe à memória a dita memorável cena – de que também acontece lembrar-me de quando em vez, embora não com frequência, eheheh.

      1. Fumava, pois fumava. Mas fez no princípio deste mês sete anos que me deixei disso, espero que para sempre. Disso, de fumar, entenda-se; a memória continua espevitada.

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