Archie Bunker gentrificado


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O assassinato de Rob Reiner e da mulher, cometido por um dos seus filhos – cumulado pela inenarrável reacção de Trump – fez-me (e decerto que a muitos) lembrar a “All in the family“, o grande sucesso televisivo dos anos 70. Na qual Reiner interpretava o “cabeça de abóbora” (meathead), genro do fabuloso Archie Bunker (o actor Carroll O’Connor). Tornado símbolo do burgesso, remediado (fiel de armazém) sem estudos, carregado de pressupostos ignorantes discriminatórios, incapaz de discernir a realidade circundante e imensamente convicto de si-mesmo.

 

Daqui a 10 ou 15 anos, cada vez que alguém aludir à passagem de Fernando Alexandre pelo ministério de Educação logo soarão os dichotes que ele disse que os (estudantes) pobres destroem as suas residências. A mácula ficará. Pois disso é acusado pelos partidos políticos. Pela imprensa. Em postais de blogs (a SAPO acaba de dar “destaque” a um texto pateta que o diz). Em inúmeros comentários de blogs e jornais digitais. No facebook (e presumo que noutras redes sociais).

 

Algumas das invectivas são guturais (quase onomatopeicas), ecos do verdadeiro “indignismo” militante. Mas outras são mais pomposas, de retórica “analítica”. Oriundas de teclados de “senhores doutores” – entre outros acabo de ler a partilha de dois patéticos textos da autoria de professores universitários (um dos quais conheci com desgosto).

 

Todos se esforçam por incompreender o que disse o ministro (e expressando-se bem), nisso invertendo-lhe o sentido. Fazem-no assentes em arreigados pressupostos e carregados de certezas sobre eles mesmos. São Archie Bunkers gentrificados. Burgessos finórios.

13 comentários em “Archie Bunker gentrificado”

    1. Gostava de o ouvir dizer cara a cara com o visado.
      A “coragem” do teclado pede meças a Hércules

      1. Ó Fernando Antolin, mas pensa que um gajo nascido e criado na Portela tem medo de um betinho dos Olivais.

  1. E andava o Pedro Correia há uns dias a gozar com a Estupidez Artificial que, num caso de tradução, se mostrou incapaz de interpretar o contexto de frases proferidas numa entrevista…

  2. Mais alguém reparou como os polígrafos mediateiros se mantêm bastante silenciosos ou discretos sobre o caso?

  3. Também já há quem reconheça ter opinado sobre o que de facto não ouviu.
    Caso do Pedro Chagas Freitas, por exemplo, que fez um verdadeiro “mea culpa” que vale a pena ler, e é mencionado num artigo de Pedro Gonçalves, “Quando a frase mata o pensamento”, na “Opinião” do Sapo de hoje.

    A honestidade intelectual sempre foi uma virtude pouco cultivada, e nos tempos que correm quase uma raridade arqueológica. Daí que a atitude de Pedro Chagas Freitas, ao admitir publicamente o seu erro de “percepção” seja grandemente corajosa e louvável.

    Não limpará a nódoa, é certo, mas não contribuirá para que ela alastre. O que é muito, aliás muitíssimo, aliás o máximo que cada homem com dois dedos de testa e três de dignidade pode fazer.

  4. Até o Daniel Oliveira, aquele que faz rir, a quem raramente dou atenção para me poupar a impropérios excusados, disse publicamente que nem precisava de ter ouvido a explicação do Ministro, sobre o que disse. Era claro e óbvio. O resto é espuma que gostava de conseguir entupir. Mas é espuma.

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