
LOVE IS A MANY-SPLENDORED THING
1955
Algumas músicas no cinema tornam-se tão célebres que ultrapassam a popularidade da película que acompanharam à nascença. Foi o caso desta, que começou por surgir sem letra e quase ninguém quis registar de início em disco.
Love is a Many-Splendored Thing poderia ser outra banal composição anexa à indústria de sonhos norte-americana. Mas esta tinha um sortilégio capaz de contagiar novas gerações, resistindo ao volúvel critério do gosto dominante. Intérpretes que começaram por lhe virar as costas mudaram de opinião, ansiando por gravá-la.
A canção contribuiu para o sucesso do filme, candidato a Óscar da melhor produção de 1955 em Hollywood e campeão de bilheteira nesse ano. Realizada em Cinemascope e tecnicolor pelo veterano Henry King, a longa-metragem homónima teve o mérito de mostrar ao mundo o encanto cenográfico de Hong Kong.
O enredo era puro melodrama, que a tradução portuguesa do título acentuava: A Colina da Saudade (bem melhor do que a péssima versão brasileira, O Suplício de uma Saudade). História de um fatídico amor entre um jornalista americano casado e uma médica euro-asiática viúva, baseada no popular romance de Han Suyin (1952).
Neste caso, a ficção imitava o real: a autora sino-belga vivera um caso semelhante com um repórter britânico que acabaria morto em 1950 na Guerra da Coreia.
O livro, que só li após ter vivido dez anos no Oriente, é sobretudo um fascinante retrato daquela época numa das cidades mais cosmopolitas do planeta, onde no entanto os comportamentos eram moldados por preconceitos e estigmas sociais. Uma pessoa mestiça, sobretudo sendo mulher, não funcionava como ponte entre dois mundos: ambos a segregavam. Esta segregação era encarada como algo natural, senão mesmo obrigatório.

Sem surpresa, os meus pais aludiam com frequência ao filme, estreado no ano em que casaram. A primeira vez que estive com eles em Hong Kong, tinha eu dez anos, ouvi-os apontar para uns degraus ascendentes, na fervilhante zona de Central: «Por ali sobe-se até à Colina da Saudade.»
O nome poético perdurou-me na memória. E prolongou-se quando vi o filme, dois ou três anos depois, infelizmente numa RTP a preto-e-branco, ainda sem descobrir o seu deslumbrante colorido.
William Holden e Jennifer Jones protagonizavam o par romântico: parece que ficaram a detestar-se na rodagem, mas nada disso importa. O que a posteridade registou foi a química que parecia emanar deles na tela. Sobretudo numa memorável cena nocturna de praia em Repulse Bay.
Estava eu muito longe de imaginar que aquela se tornaria, anos depois, também a minha praia.
De Hong Kong também trouxe várias “colinas da saudade”. Dentro do secular elevador que nos conduz ao ponto mais elevado – o Pico, de onde se avista um magnífico panorama da costa do Sul da China. Ou a bordo do “cacilheiro” lá do sítio – o Star Ferry, que une Hong Kong a Kowloon. Ou num dos autocarros que dão a volta à ilha, com paragens no bairro residencial de Stanley, polvilhado de sumptuosas moradias. Ou no trilho pedestre de Lugard Road, que também avistamos no filme – a primeira longa-metragem que mostrou ao mundo a incomparável beleza do território.
Foi essa a Hong Kong que conheci. Ainda colónia britânica, mas já não a cidade cheia de refugiados da guerra civil chinesa, como a que Han Suyin observou de perto, nem a dos que ali acorreram fugindo da alucinada “Revolução Cultural” maoista.
Sempre que lá estive, as imagens do exótico melodrama perseguiam-me. Se há película onde uma cidade assume o protagonismo, é A Colina da Saudade.
Setenta anos depois do filme, os arranha-céus engoliram grande parte da paisagem urbana da região agora sob administração e vigilância de Pequim. O porto estreitou-se devido à proliferação de aterros. Os sampans na vila piscatória de Aberdeen são mera atracção turística e o célebre restaurante flutuante Tai Pak fechou, talvez para sempre.
Mas há coisas que não mudam. A subida ao Pico é uma delas. E o panorama que lá se desfruta continua incomparável.
É fácil apaixonarmo-nos em Hong Kong, mesmo já sem nos restar fé num amor eterno. É fácil apaixonarmo-nos por esta canção agridoce que se tornou num hino informal do território: sempre que me perdi naquele dédalo de ruas que abrigam uma das maiores densidades populacionais do planeta, não tardei a ouvir os acordes daquela melodia tão familiar. Funcionava como bússola.
«Love is a many splendored thing / It’s the April rose / That only grows / In the early Spring. / Love is nature’s way of giving / A reason to be living / The golden crown that makes a man a king.»

Balada nascida do talento conjunto do compositor Sammy Fain (1902-1989) e do letrista Paul Francis Webster (1907-1984), tarimbados em dezenas de canções para o cinema e o teatro. Galardoados com o Óscar em 1954, por “Secret Love” (de Calamity Jane), repetiram a proeza precisamente em Love is a Many-Splendored Thing. Derrotando um par de respeitáveis rivais: “Something’s Gotta Give (do filme Daddy Long Legs, de Jean Negulesco, com Fred Astaire e Leslie Caron) e Unchained Melody (tema-base do filme homónimo, realizado por Hall Bartlett e que ressurgiria em 1990 numa cena capital de Ghost, com Demi Moore e Patrick Swayze).
A música surge sem letra no genérico inicial e acompanha obsessivamente o filme – incluindo numa cena supostamente desenrolada em Macau. Recebeu versos nos créditos finais, cantados pelo coro da orquestra da 20th Century Fox, por súbita decisão do estúdio, para concorrer ao Óscar de melhor canção. Aposta coroada de êxito.
Mas a primeira versão da letra não agradou. Em corrida contra o tempo, Fain escreveu uma alternativa, acentuando a componente romântica: só então os polegares se ergueram. Dez anos mais tarde, viria a receber um terceiro Óscar (e um Grammy) pela canção “The Shadow of Your Smile”, em parceria com Johnny Mandel, para o filme Adeus, Ilusões (The Sandpiper, no original), de Vincente Minnelli.
Faltava saber quem gravaria primeiro Love is a Many-Splendored Thing em disco. Nat King Cole, Doris Day e Eddie Fisher recusaram. Avançaram então The Four Aces. E em boa hora o fizeram: foi o sucesso máximo deste quarteto vocal. Em Novembro de 1955, o single inaugurou o top 100 da Billboard – principal indicador de vendas da indústria norte-americana – onde permaneceu três semanas.
A partir daí, os registos multiplicaram-se. Nas vozes de Frank Sinatra, Shirley Bassey, Nat King Cole (que logo se arrependeu da recusa inicial), Matt Monro, Barry Manilow e até de Ringo Starr.
Arrisco prever: é um tema que em Hong Kong jamais passará de moda.
«Eu acho que não vale a pena ter / Ido ao Oriente e visto a Índia e a China. / A terra é semelhante e pequenina / E há só uma maneira de viver», escreveu Fernando Pessoa enquanto Álvaro de Campos.
Às vezes os poetas não devem ser tomados demasiado à letra: nenhum rumo é tão fascinante como o que nos conduz ao Oriente. E, a Oriente, nenhuma urbe rivaliza com o fascínio de Hong Kong, janela aberta sobre o globo. Nele se cruzam viajantes de todas as rotas, partilhando idiomas, crenças e sonhos.
Na vida como no cinema, no cinema como na vida.
«Once on a high and windy hill / In the morning mist / Two lovers kissed / And the world stood still. / Then your fingers touched my silent heart / And taught it how to sing. / Yes, true love’s a many-splendored thing.»

Concordo, sim senhor — até porque em Hong Kong até os elevadores têm mais romance que certos casamentos cá na parvalheira. E se uma canção consegue sobreviver a William Holden a detestar Jennifer Jones, então merece mesmo ser hino oficial da cidade. No fundo, “Love is a Many-Splendored Thing” é como a bica: toda a gente finge que já enjoou, mas mal ouvem os primeiros acordes, lá estão outra vez a pedir mais um shot de nostalgia.
Elevador “com redundância”, como agora se diz.
Li o livro tão jovem que se não fora tê-lo aqui resumido não lhe lembraria a história. Ficou-me apenas o gosto de lê-lo, sabia do final triste – com catorze-quinze anos, as tristezas livrescas devoram-nos. Facto que não deixa de ser curioso, desconhecemos tudo do amor e desfazemo-nos em lágrimas por amores fictícios sem final feliz:).
“A Colina da Saudade” é o título perfeito.
Concordo, Bea: título perfeito. Por vezes sucede, os títulos das traduções superarem os originais.
Se houvesse um Óscar para o tema musical cinéfilo mais romântico, eu votava neste, ex-aequo com “Tara”, de “E Tudo o Vento Levou”, e a “Canção de Lara”, do “Doutor Jivago”.
Tudo histórias de amor tristes, mas parafraseando Lacan, a felicidade não tem grandes histórias para contar. Ou para cantar, no caso.
Daria para outra série, os temas instrumentais de filmes que nunca chegaram a ser canções. É o caso do Tema de Tara. O próprio Tema de Lara só se tornou canção depois do filme – sob o título “Somewhere My Love”. SvAE&list=RDYrRMQsnSvAE&start_radio=1
https://www.youtube.com/watch?v=YrRMQsn
Que maravilha, é bom sentirmo-nos de vez em quando lamechas, quando as memórias nos embalam e adoptamos os sonhos dos outros.
Faz parte.
> tarimbados em dezenas de canções para o cinema e o teatro.
A auto-biografia do P.G. Wodehouse, que também andou nessas vidas para o teatro antes de o cinema comer tudo, é elucidativa acerca de quanto há de processo de fabrico rotineiro na elaboração dos produtos – quando os americanos falam de “entertainment industry” não é só no significado original (como em “industrioso”).
Os autores sentavam-se diariamente umas quantas horas a produzir material, e não tinham crises de “writer’s block” como os “artistes”
Nem mais. Acabo de ler uma entrevista dos anos 50 de William Faulkner, que trabalhou vários anos em Hollywood como argumentista, e fala bastante disso.