As excursões


Paulo Sousa,

Tudo isto se passou num mundo muito diferente do nosso. Os alimentos disponíveis andavam sempre a reboque dos ciclos das sementeiras e das colheitas. Havia quem comprasse uma bezerra para a criar em casa, aproveitava-a para lavrar as terras, com a ideia de a vender, já criada, por alturas da Primavera seguinte. Tempos livres ninguém os tinha, nem pontes, nem fins de semana prolongados. Ajudava-se na vindima dos vizinhos porque era uma maneira de nesses dias ter as refeições asseguradas. O dono da vinha tinha a responsabilidade de garantir a bucha a quem aparecesse e para cada um dos mais próximos, amigos e afilhados, havia sempre uma tira de toucinho curtido na salgadeira, que era servida meio às escondidas.

Sem se entender bem como, havia ainda quem conseguisse quatro ou cinco dias para a excursão que o Senhor Zé, o Zé dos Casais, o meu avô paterno, organizava. Segundo o que sempre ouvi não havia quem conhecesse o país como ele. Não sei que conhecimentos teria quando começou as começou a organizar. Lembro-me do meu pai e os meus tios garantirem que ele, de memória, conseguia desenhar o mapa de Portugal. Provavelmente a informação inicial que tinha resultava do estudo demorado de algum mapa que tivesse. Os serões eram longos, os conteúdos disponíveis limitados e, com o passar do tempo, um dia terá fechado na sua memória o puzzle em que todas as palavras que correspondiam a vilas e cidades, estradas, serras, rios e linhas do comboio que as ligavam, se fecharam num conjunto único e definido. Com o desenho do mapa do país memorizado, acabava por ser sempre ele a indicar ao motorista, ao chófer como se dizia, por onde deveria seguir em cada cruzamento. Os autocarros eram alugados para essas ocasiões e até os chóferes gostavam de ir nas excursões organizadas pelo Senhor Zé. Com ele sentado ao seu lado, na primeira linha dos bancos, nunca tinham dúvidas por onde deveriam seguir. Para os motoristas das excursões dos anos 50 e 60, ir com o meu avô ao seu lado terá sido a experiência mais próxima de ter um GPS, embora sem uma voz maviosa e écran colorido.

O evento era especial ao ponto de, pelo menos uma vez, terem preparado uma folha que distribuíam por onde passavam e paravam.

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Pelo que nos chegou até aos dias de hoje, esta excursão de 1954 terá sido a quarta e sabemos que outras mais se seguiram. Segundo o que nos diz o prospecto, o Grupo Excursionista Juncalense usava-o para saudar os habitantes das terras ponde passavam. Os versos, arrisco, eram do Senhor José Virgílio, patriarca de uma enorme família, tratados enquanto entidade colectiva como os Vergis, que sempre foi o mais prendado poeta de rimas do concelho e arredores. A partir do prospecto e dos seus versos conseguimos fazer uma viagem no tempo pelos estabelecimentos comerciais, seus donos e ofícios. Lagares de azeite, cerâmicas de telha e tijolo, padarias, moagens, mercearias, serrações, oficina de malas e barbearia, vinhos, bicicletas e aguardentes.

A camionetes eram alugadas a firmas de Leiria com os Claras e a União Automóvel Leiriense, que depois de 1974 foram nacionalizadas para constituir a Rodoviária Nacional.

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Longe de saberem o que seria o regime de meia-pensão ou de pensão completa, cada qual levava farnel para si e para os seus. Os almoços e jantares eram momentos altos onde cada um comia do que tinha levado e em que os afilhados se aproximavam dos padrinhos e madrinhas, sempre de olhos na tira de toucinho. Os garrafões de vinho faziam igualmente parte da intendência, sendo que, não fosse o diabo tecê-las, não viajavam no tejadilho. As curvas do Marão tinham má fama para os enjoos, mas não havia vomitório que estragasse o ambiente de festa da comitiva.

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Os mais habilidosos serravam e furavam até conseguir segurar no ar um pano a fazer de tenda. Lembro-me de ver o meu avô a usar um furador de manivela, o berbequim da época, numa vara de madeira para esse mesmo efeito. Os outros dormiam onde calhava, sendo que, para esses, os lugares mais disputados eram os que ficavam debaixo do autocarro. Eram dias inteiros de animação, em que nem de noite deixava de haver motivo de risada e de arremedo. Fulano ressonava mais alto que o motor da camioneta e sicrano era o campeão da flatulência e até enquanto dormia conseguia animar todo o grupo excursionista.

Lembro-me de uma das minhas muitas tias-avós, o meu avô tinha sete irmãos rapazes, me contar já muito velha que tinha passado uma vida inteira de arrastação, sempre a tomar conta da casa, dos filhos, do marido e das terras, e que o único que gozo que tinha tido na vida eram as excursões que o meu avô organizava.

O calendário desses tempos era marcado pelo Natal, Páscoa, matança do porco, vindima e as excursões do Zé dos Casais. Tudo o resto tinha sido antes ou depois destes acontecimentos.

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Mais de uma década volvida, um rapazola armado ao pingarelho, que era da terra mas tinha passado uns anos pela capital, achou que conseguia também ele organizar excursões como as do Zé dos Casais. Teria visto outras coisas e talvez prometesse paragens mais longas, ou mais curtas, mais ou menos castelos, mais ou menos curvas. Não faço ideia qual seria o seu factor competitivo ou como é que conseguia vender as suas excursões ao público, que só as conhecia pela mão do meu avô. Aquele atrevimento foi coisa que gerou grande indignação na minha família. O fulano vivia um pouco mais abaixo na mesma rua, o que fazia que às vezes se cruzassem num silêncio incómodo. Deve pensar que é mais esperto que os outros! Um rapazola mal desmamado à frente de um autocarro! Como as leis de condicionamento industrial do Estado Novo eram omissas no que toca a excursões, não havia nada a fazer para impedir aquela concorrência. Os mais abonados, que não eram muitos, conseguiam aproveitar as ocasiões que cada um deles criava e não perdiam nenhuma das oportunidades para passear, os demais tinham de escolher a que excursão iam e isso foi tema de demorados debates pelas tascas, adegas e lares do Juncal.

Impedido de travar a concorrência, ao meu avô restou apenas o alívio de inventar uma alcunha para o seu concorrente. Desde esse dia, o Jaquim Rei passou a ser referido lá em casa como o Trombalachana. Não resolvia a apoquentação, mas aliviava o fel.

E veio tudo isto à escrita, porque na semana passada o Trombalachana, que já tinha passado dos noventa há uns bons anos, foi a sepultar. Paz à sua alma.

E é assim, pouco a pouco, que o mundo de antigamente se vai desligando de nós.

24 comentários em “As excursões”

  1. com o abandono da vida rural acabaram os tempos
    «do fato roto, vida alegre»
    agora os citadinos acordam com os dentes de fora e a contar os cêntimos

  2. Pois. A 23 de Agosto, a excursão do Senhor Zé dos Casais dava a volta ao Minho, rolando pelo exterior… Bem pensado, mas espero que, num ano a seguir, tenham passado por Melgaço, Paredes de Coura e Ponte de Lima, pois não sabem o que perderam… Até podia ser que os visse passar pois então já teria nascido. Pouco provável, mesmo assim. E note-se que as estradas por ali nem eram asfaltadas… Mas esta narrativa faz-me recordar tempos passados e é um bom retrato das verdadeiras “excursões”. Ah! E, anos mais tarde, também andei nos autocarros dos “Claras”. Obrigado por este momento divertido.

  3. Muitos parabéns, Paulo Sousa.
    Adorei!
    Este é o Portugal de quem a minha querida avozinha me falava e eu interpretava como um lindo conto de fadas.

    1. Obrigado, Matilde.
      Conto de fadas são as comodidades a que nós temos acesso. Era uma vida difícil, salpicada com coisas agradáveis, saboreadas até ao tutano.

  4. Adorei esta sua crónica, Paulo.
    Ainda por cima fez-me recordar de alguns relatos, muito semelhantes aos seus, dos meus avós, oriundos da Beira-Baixa…

    Essas excursões seriam, de facto, verdadeiros acontecimentos: todo um frenesim “antes, durante e após” as mesmas… E os dias de preparação da coisa, em particular a provisão dos mantimentos necessários? Só isso já seria, em si mesmo, um acontecimento…

    A maior parte da malta dos nossos dias “não sabe, nem sonha” que existiram tantos eventos como os que o Paulo tão bem descreve. É pena que se desconheçam muitos dos encantos, das vivências, da “província profunda”.

    Nenhum meio tecnológico poderá alguma vez substituir este tipo de acontecimentos e de experiências…

  5. O que escreveu é-me familiar apesar da tenra idade à data.
    Ainda me transportei nos Claras e quanto à alcunha, pela terra dos meus avós havia uma parecida “Trombalazana”, acho que mais popular que a que indica, uma vez que a ouvi num filme do vasco Santana.

  6. Paulo, qualquer dia contas as tuas excursões (visitas de estudo) a Lisboa que serão mais do meu tempo. A entrada na auto-estrada no Porto Alto depois de percorrer boa parte da nacional 118. As visitas de estudo ao Museu de Marinha e Planetário, o olhar para a montra dos pastéis de Belém, o CCB que era um conjunto de barracas, de lixo e de habitações à espera de serem demolidas e mais à frente a Torre de Belém que na altura não estava entrapada, como hoje.
    Quase que me esquecia da viagem à tarde até ao Aquário Vasco da Gama onde D. Carlos nos recebia com os bigodes retorcidos e um sorriso irónico.
    Excelente crónica.

  7. Era exactamente assim. Este coevo utilizador dos” Claras” e da “Ribatejana” (onde isso já vai !…) ainda recorda a excitação e entusiasmo da pequena terreola onde vivia quando (raramente) se organizava uma excursão – curta, tal como o tempo e dinheiro na altura ( regra geral até à Nazaré, a praia do pessoal do Ribatejo…).
    Só uma nota : Porto Alto fica na margem esquerda, “em frente” de Vila Franca.
    Recomendável pelo sável ( ainda faltam uns meses..).
    JSP

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