Depois de uns dias de férias por altura das Festas, uma semana de trabalho em Madrid. A espera no aeroporto é um bom momento para reflexões soltas. Saborosas por não terem preocupação de rigor. Por serem só para mim e, por uma vez, não estarem sujeitas ao escrutínio exigente dos leitores do DO. Entretenho-me a encontrar uma palavra que distinga espanhóis e portugueses. Não tenho a certeza, mas parece-me que pode ser intensidade. A vida em Espanha está à flor da pele. E vive-se com os dentes cerrados. Para o bem e para o mal. Nas qualidades e nos defeitos. Em Portugal, desistimos mais quando se trata de desistir. Seja de coisas boas ou más. E apostamos menos quando se trata de apostar. Seja em coisas louváveis ou criticáveis. Não somos melhores, nem piores que nuestros hermanos. Mas, somos diferentes. O reverso português da intensidade espanhola será brando, complacente ou terá a delicadeza própria de tudo o que é suave? Provavelmente, depende dos dias. Corre solto o pensamento até se aquietar na saudade. É falso que seja só nossa. Os espanhóis também têm a añoranza deles. A diferença é que a deles não me diz nada. E esta que sinto descreve tudo o que me é essencial. Dizem que as novas tecnologias encurtaram as distâncias. Não é de todo verdade. O que acontece é que praticamente todo o mundo ficou à mesma distância. O Skype põe-me em casa a partir de Madrid ou de Montevideu. Num ou noutro sítio a distância é a mesma: um click e a falta de intensidade. Mas, é ainda distância. E ausência. E saudade. Tenho comigo o El Mundo e o El País. Duas linhas editoriais distintas que se unem sob uma mesma notícia de capa: Portugal perante o descalabro iminente. Que pode arrastar a Espanha. Sócrates e Zapatero, irmãos gémeos que se aprestam a mergulhar de mãos dadas no desastre. Ainda aqui, a diferença de intensidade. Em Espanha já se tomaram várias medidas duras. Em Portugal, vamos agora implementá-las. Ou estamos a discuti-las e a tentar dissimulá-las. Que Portugal vou encontrar quando aterrar? A racionalidade diz-me que o mesmo. Ainda mais atolado no caso BPN, numas presidenciais em que se discute tudo menos ideias, políticas e futuro. E ele vai cair-nos em cima, não tarda nada. Pode bem ser que suceda já na próxima quarta-feira, quando formos leiloar a nossa desesperança aos mercados da dívida. Percebo que a angústia dos títulos dos jornais não tem relação directa com o presente. Está toda projectada nos olhos dos meus filhos que há umas horas não pude beijar no Skype. Que país vão aqueles olhos ver daqui por uns anos? Uma angústia traz outra. Creio que é a isto que os franceses chamam malaise. Será que o que sinto e tenho escrito em relação à eleição presidencial é a visão correcta? Dá-me conforto a ideia de que só não se questiona quem não tem princípios. E vou buscar ao baú dos ensinamentos jurídicos (que tenho cada vez mais esquecidos) um princípio que adiciono ao elenco das minhas certezas: qualquer cidadão que tenha conhecimento da prática de um crime deve denunciá-lo. Transponho para a política: qualquer político que tenha conhecimento de uma prática ilícita ou de um tratamento de favor deve denunciá-lo. Onde andou Manuel Alegre, durante todos estes anos, em que se manteve calado sobre o negócio de Cavaco Silva com o BPN? Guardou-se para Janeiro de 2011 para o fazer? Pois. Porque aquilo que lhe interessa é o seu caminho político. Tanto como não lhe interessou o país enquanto esteve calado. Estou agora tão seguro disto como da arrogância de Cavaco Silva e da sua inabilidade na gestão do caso. Tenho que ler umas coisas sobre a ética e os seus fundamentos. Mas, intuo que a ética só pode ser uma questão pessoal. Não me parece que exista uma ética lusitana como o Luís M. Jorge sugeriu algures no DO. Como também não existe uma ética de esquerda. Ou de direita. Ou de brancos e tintos. Ou de chineses. O que há é uma ética, ou falta dela, das pessoas que governam a China. Ou Portugal. E depois há o exemplo. E a força das instituições. E a liberdade e a exigência da sociedade civil. E a educação. O avião, entretanto, descolou. Quando a instalação sonora do aeroporto anunciou o voo para Portugal ia jurar que milhares de olhos espanhóis se viraram, carrancudos, para os passageiros que se levantaram. Impressão minha, claro. Afastado esse pensamento, permaneceu a tristeza de ele me ter assaltado. Na aproximação ao destino, vejo campos alagados. Confirma-se: estamos a meter água por todos os lados. Desvio os olhos para os jornais portugueses que o passageiro do lado entretanto me cedeu. Nos de Espanha, o caos da dívida. Nos de Portugal, o caos da pré-campanha eleitoral. Um dia hei-de perder algum tempo a meditar sobre as variantes da intensidade. Pressinto que a diferença também pode estar em focar, ou não, o essencial. Oitenta/vinte, disse Pareto. Agora, tudo o que quero é abrigar-me na antecipação dos abraços e dos beijos que me esperam ali em baixo. Esses que o Skype não me deu ainda hoje de manhã.
As presidenciais e a vida
Rui Rocha,

Espero que esses abraços e os beijos tão esperados, ainda estejam no ar, sufocando-o alegremente!
Todas estas reflexões, tenho-as constantemente, por vezes, desesperadamente.
Porquê a diferença?
Nem a célebre fleuma britânica, o mesmo sangue latino, nada que nos possa distinguir, mas distingue.
E o que distingue nuestros hermanos, é a sua raça!
São patriotas até à medula, orgulhosos das suas raízes e do que são, são os melhores do mundo e para tal se esforçam.
Tudo aquilo que ninguém aprecia neles e que eu gosto e muito.
Não baixam os braços, gritam, lutam, esbravejam e conseguem lutar palmo a palmo, sem nunca desistir.
Têm, pois de ter orgulho, eu sentiria o mesmo.
Há alguns anos, em 2004, Aznar tinha as eleições ganhas.
Um acontecimento de nada (??), apenas um deslize governamental, uma mentira escondida ou uma verdade não contada e foi a vitória de Zapatero.
Eis a diferença. Marcaram a diferença.
Ao contrário, nós fomos os maiores, há alguns séculos, e somos hoje uns pobres coitados que, infelizmente, estamos a afundarmo-nos … olha, é a vida!
Que fazer?
Garantimos as mentiras e a mediocridade de Sócrates e ainda lhe passamos um cheque em branco.
A eleição de Zapatero na sequência do atentado de 11 de Março é de facto o exemplo de uma sociedade que é, queiramos ou não, mais exigente que a nossa, Macarvalho.
Um espanhol é um português com orgulho…
E não é certo, Fernando, que se mudássemos algumas atitudes, teríamos tanto por onde sentirmos orgulho?
Por mais que me doa e que eu não queira, ou que eu quase esqueça face às incapacidades dos últimos 25 anos, tropeço sempre, em qualquer lado, na nossa história, em como fomos bravos, em como tenho orgulho do que fomos. Em todos os cantos do mundo, estamos lá, fizemos trabalho, deixamos marca.
Sinto um orgulho enorme, mas de outros tempos e, até esse, teimosamente, nos querem fazer esquecer.
Hoje, sinto-me só e não reconheço o meu semelhante.
Em Espanha, são sempre os maiores, os melhores. Em algumas coisas, mostram bem que o são.
Noutras, teimosamente também, continuam a insistir que o são.
E tentam ….
Rui,
Tenho muito orgulho em ser portuguesa.
Creio, aliás, que o primeiro mal de que muitos portugueses padecem é exactamente esse: o de não terem orgulho em si próprios.
Há motivos para orgulho no passado histórico mais longínquo e, no mais recente, se há muito a criticar para podermos melhorar, há relevantes aspectos a destacar pela positiva.
Mas, tem razão.
É sempre possível exigir-nos mais a nós próprios para podermos suplantar as dificuldades que inexoravelmente nos esperam.
Devemos isso aos nossos filhos. Essa também é uma componente do amor que lhes temos.
Mas a principal “lição” que lhes podemos transmitir é a de que nada é definitivo e nada é inultrapassável, mas não podemos baixar os braços.
Mais do que nunca essa atitude interior é vital para não nos deixarmos subjugar por quem, à frente do País, nos tem temporariamente conduzido. Temporariamente…temporariamente…
O amanhã existe! E temos uma palavra a dizer.
Concordo, AS.
Muito bom, na forma como no conteúdo.
Ainda bem que gostou, Ba.